A manhã seguinte amanheceu pesada.
Não por causa da chuva da noite anterior.
Mas porque Lorrany m*l dormiu.
Cada barulho da casa a mantinha alerta.
Cada passo no corredor fazia seu corpo enrijecer.
Geraldo não tentou nada.
E, paradoxalmente, isso era pior.
O silêncio dele sempre vinha antes de alguma manipulação.
Ela saiu cedo, antes que ele acordasse.
Ou fingisse acordar.
O Hotel Imperial estava agitado. Conferências, hóspedes internacionais, reservas VIP.
Perfeito.
Movimento era distração.
Ela estava revisando relatórios quando a recepcionista se aproximou novamente.
— Senhora Lorrany… o senhor Stavros solicitou sua presença na suíte.
Claro que solicitou.
Ela fechou a pasta com calma.
— Alguma reclamação?
— Não. Ele apenas disse que prefere tratar assuntos diretamente com você.
Ela respirou fundo.
Controle.
Subiu pelo elevador privativo.
Dessa vez, o coração não acelerava por tensão física.
Era outra coisa.
Curiosidade.
A porta foi aberta pelo próprio Nikólaos.
Sem paletó.
Camisa branca com as mangas dobradas até os antebraços.
Simples.
Mas ainda dominante.
Ela odiava o fato de notar.
— Senhor Stavros.
— Lorrany.
O modo como ele dizia o nome dela parecia sempre intencional.
— Houve algum problema com sua acomodação?
Ele deu espaço para que ela entrasse.
— Nenhum.
A porta se fechou atrás dela.
O silêncio pairou.
— Então?
Ele a observou por alguns segundos.
Não era invasivo.
Era atento.
— Eu gostaria de investir neste hotel.
Ela piscou.
— O Imperial já possui investidores.
— Não no nível que eu proponho.
Ela cruzou os braços.
— E por que isso envolve minha presença pessoal?
Ele caminhou lentamente até a mesa onde havia documentos.
— Porque antes de investir em qualquer lugar, eu avalio quem está à frente.
Ela ergueu o queixo.
— E qual é seu veredito?
Ele não respondeu imediatamente.
Aproximou-se.
Não o suficiente para tocar.
Mas o suficiente para que a tensão crescesse.
— Você está cansada.
Ela congelou por um microssegundo.
— Não confunda cansaço com incompetência.
— Eu jamais faria isso.
O olhar dele suavizou levemente.
— Confundo com excesso de responsabilidade.
Ela não gostava do rumo da conversa.
— Se deseja investir, apresente uma proposta formal ao conselho.
Ela virou-se para sair.
— Ele mora com você?
A pergunta caiu como vidro quebrando no chão.
Ela parou.
Lenta.
— Isso não diz respeito ao senhor.
— Diz, se estiver afetando você.
Ela virou-se de vez.
— O senhor mandou investigar minha vida?
Os olhos dele escureceram.
— Eu não invado privacidade.
— Então como sabe?
Ele sustentou o olhar.
— Seu corpo reage quando alguém menciona casa.
O silêncio que se seguiu era perigoso.
— Não me analise — ela disse, baixa.
— Eu não estou analisando. Estou preocupado.
Ela riu sem humor.
— Não estou à venda.
A frase foi dura.
Mas necessária.
Ele não se moveu.
— Eu não compro pessoas.
Ela sustentou o olhar.
Desafio.
Ele continuou:
— Eu ofereço soluções.
— Eu não preciso de soluções.
— Talvez precise de apoio.
Ela respirou fundo.
Não permitiria que ele visse a fissura.
— Eu não misturo trabalho com vida pessoal.
Ele assentiu lentamente.
— Então vamos falar apenas de trabalho.
Ela relaxou um milímetro.
— Estou ouvindo.
Ele caminhou até a janela, observando a cidade.
— Quero expandir meus negócios na
América do Sul. E preciso de alguém que administre meus empreendimentos aqui.
Ela franziu levemente a testa.
— O senhor está me oferecendo um cargo?
— Estou oferecendo crescimento.
Ela quase sorriu.
— Eu já tenho crescimento.
Ele se aproximou outra vez.
— Você tem potencial para muito mais do que este prédio.
A frase deveria soar sedutora.
Mas soou sincera.
Isso a irritou ainda mais.
— Não subestime minhas escolhas.
— Eu não subestimo você.
Silêncio.
O telefone dela vibrou.
Outra vez.
Ela olhou.
Mensagem da mãe:
“Ele perguntou sobre o homem do hotel.”
O estômago dela virou.
Ela levantou os olhos devagar.
— Preciso ir.
Nikólaos percebeu a mudança instantânea.
— O que aconteceu?
— Nada que envolva negócios.
Ela caminhou até a porta.
Mas antes de sair, ele falou:
— Lorrany.
Ela parou.
— Se alguém estiver usando meu nome para intimidar você…
O tom dele mudou.
Frio.
Perigoso.
— Eu não tolero isso.
Ela o encarou.
E pela primeira vez viu algo diferente.
Não interesse.
Não curiosidade.
Proteção.
— Ele não tem coragem — ela disse.
— Quem?
Ela hesitou.
Mas decidiu não mentir.
— Meu padrasto.
O ar pareceu ficar mais denso.
— Ele perguntou sobre você.
O maxilar de Nikólaos se contraiu.
— Ele sabe quem eu sou?
— Ele sabe que você é rico.
O silêncio que veio depois não era simples.
Era calculado.
— Eu não gosto que meu nome seja usado em ameaças.
Ela estreitou os olhos.
— Não ouse se envolver.
— Se alguém ameaçar você…
— Eu não sou sua responsabilidade!
A frase ecoou forte.
Ele se aproximou lentamente.
Sem tocar.
Mas firme.
— Talvez não.
A voz dele desceu um tom.
— Mas isso não significa que eu vá ignorar.
O coração dela disparou.
Raiva.
Medo.
E algo mais.
Ela abriu a porta.
— Não transforme minha vida em um campo de batalha empresarial.
Ele não respondeu.
Mas os olhos dele prometeram algo.
E Lorrany percebeu, com um arrepio involuntário:
Ela não tinha mais apenas um problema em casa.
Agora tinha um homem poderoso decidindo que ninguém a tocaria.
E homens poderosos não costumam recuar.