QUANDO O PODER DESCE DO CARRO PRETO

902 Palavras
A manhã seguinte amanheceu pesada. Não por causa da chuva da noite anterior. Mas porque Lorrany m*l dormiu. Cada barulho da casa a mantinha alerta. Cada passo no corredor fazia seu corpo enrijecer. Geraldo não tentou nada. E, paradoxalmente, isso era pior. O silêncio dele sempre vinha antes de alguma manipulação. Ela saiu cedo, antes que ele acordasse. Ou fingisse acordar. O Hotel Imperial estava agitado. Conferências, hóspedes internacionais, reservas VIP. Perfeito. Movimento era distração. Ela estava revisando relatórios quando a recepcionista se aproximou novamente. — Senhora Lorrany… o senhor Stavros solicitou sua presença na suíte. Claro que solicitou. Ela fechou a pasta com calma. — Alguma reclamação? — Não. Ele apenas disse que prefere tratar assuntos diretamente com você. Ela respirou fundo. Controle. Subiu pelo elevador privativo. Dessa vez, o coração não acelerava por tensão física. Era outra coisa. Curiosidade. A porta foi aberta pelo próprio Nikólaos. Sem paletó. Camisa branca com as mangas dobradas até os antebraços. Simples. Mas ainda dominante. Ela odiava o fato de notar. — Senhor Stavros. — Lorrany. O modo como ele dizia o nome dela parecia sempre intencional. — Houve algum problema com sua acomodação? Ele deu espaço para que ela entrasse. — Nenhum. A porta se fechou atrás dela. O silêncio pairou. — Então? Ele a observou por alguns segundos. Não era invasivo. Era atento. — Eu gostaria de investir neste hotel. Ela piscou. — O Imperial já possui investidores. — Não no nível que eu proponho. Ela cruzou os braços. — E por que isso envolve minha presença pessoal? Ele caminhou lentamente até a mesa onde havia documentos. — Porque antes de investir em qualquer lugar, eu avalio quem está à frente. Ela ergueu o queixo. — E qual é seu veredito? Ele não respondeu imediatamente. Aproximou-se. Não o suficiente para tocar. Mas o suficiente para que a tensão crescesse. — Você está cansada. Ela congelou por um microssegundo. — Não confunda cansaço com incompetência. — Eu jamais faria isso. O olhar dele suavizou levemente. — Confundo com excesso de responsabilidade. Ela não gostava do rumo da conversa. — Se deseja investir, apresente uma proposta formal ao conselho. Ela virou-se para sair. — Ele mora com você? A pergunta caiu como vidro quebrando no chão. Ela parou. Lenta. — Isso não diz respeito ao senhor. — Diz, se estiver afetando você. Ela virou-se de vez. — O senhor mandou investigar minha vida? Os olhos dele escureceram. — Eu não invado privacidade. — Então como sabe? Ele sustentou o olhar. — Seu corpo reage quando alguém menciona casa. O silêncio que se seguiu era perigoso. — Não me analise — ela disse, baixa. — Eu não estou analisando. Estou preocupado. Ela riu sem humor. — Não estou à venda. A frase foi dura. Mas necessária. Ele não se moveu. — Eu não compro pessoas. Ela sustentou o olhar. Desafio. Ele continuou: — Eu ofereço soluções. — Eu não preciso de soluções. — Talvez precise de apoio. Ela respirou fundo. Não permitiria que ele visse a fissura. — Eu não misturo trabalho com vida pessoal. Ele assentiu lentamente. — Então vamos falar apenas de trabalho. Ela relaxou um milímetro. — Estou ouvindo. Ele caminhou até a janela, observando a cidade. — Quero expandir meus negócios na América do Sul. E preciso de alguém que administre meus empreendimentos aqui. Ela franziu levemente a testa. — O senhor está me oferecendo um cargo? — Estou oferecendo crescimento. Ela quase sorriu. — Eu já tenho crescimento. Ele se aproximou outra vez. — Você tem potencial para muito mais do que este prédio. A frase deveria soar sedutora. Mas soou sincera. Isso a irritou ainda mais. — Não subestime minhas escolhas. — Eu não subestimo você. Silêncio. O telefone dela vibrou. Outra vez. Ela olhou. Mensagem da mãe: “Ele perguntou sobre o homem do hotel.” O estômago dela virou. Ela levantou os olhos devagar. — Preciso ir. Nikólaos percebeu a mudança instantânea. — O que aconteceu? — Nada que envolva negócios. Ela caminhou até a porta. Mas antes de sair, ele falou: — Lorrany. Ela parou. — Se alguém estiver usando meu nome para intimidar você… O tom dele mudou. Frio. Perigoso. — Eu não tolero isso. Ela o encarou. E pela primeira vez viu algo diferente. Não interesse. Não curiosidade. Proteção. — Ele não tem coragem — ela disse. — Quem? Ela hesitou. Mas decidiu não mentir. — Meu padrasto. O ar pareceu ficar mais denso. — Ele perguntou sobre você. O maxilar de Nikólaos se contraiu. — Ele sabe quem eu sou? — Ele sabe que você é rico. O silêncio que veio depois não era simples. Era calculado. — Eu não gosto que meu nome seja usado em ameaças. Ela estreitou os olhos. — Não ouse se envolver. — Se alguém ameaçar você… — Eu não sou sua responsabilidade! A frase ecoou forte. Ele se aproximou lentamente. Sem tocar. Mas firme. — Talvez não. A voz dele desceu um tom. — Mas isso não significa que eu vá ignorar. O coração dela disparou. Raiva. Medo. E algo mais. Ela abriu a porta. — Não transforme minha vida em um campo de batalha empresarial. Ele não respondeu. Mas os olhos dele prometeram algo. E Lorrany percebeu, com um arrepio involuntário: Ela não tinha mais apenas um problema em casa. Agora tinha um homem poderoso decidindo que ninguém a tocaria. E homens poderosos não costumam recuar.
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