Capítulo VIII

2579 Palavras
Melina Eu tinha a sensação de que Tyler usaria a lista de convidados como uma desculpa por seu atraso, por isso, nem me surpreendi quando, logo após ter lhe enviado o horário que deveríamos sair da minha casa, para encontrar os meus amigos, recebi uma resposta dizendo que estaria aqui com dez minutos de antecedência, porque estava enrolado tentando lembrar dos nomes de todos os seus parentes e das famílias amigas da sua. Parece que o e-mail não havia sumido apenas do meu notebook, é claro que precisaríamos ter um problema com a organização do casamento. Ou então era uma desculpa de Tyler, para passar o mínimo de tempo ao meu lado. Depois da prova do meu vestido, então, abri o meu computador e busquei pelo nosso registro de e-mail. Ali, eu mandava atualizações sobre “nosso relacionamento”, dizendo o que eu tinha contado para meus amigos, colegas e conhecidos, para que ele seguisse uma mesma coerência. Não eram muitos desses, mas em geral, tinham informações importantes como datas do início de namoro e noivado, a fictícia ocasião do nosso primeiro beijo e como o nosso relacionamento se iniciou. Imprimi o compilado de informações, que mais parecia um script, e enviei o mesmo arquivo para o seu e-mail, não antes de digitar uma mensagem para avisá-lo sobre. “Sei que está tentando fugir e passar o mínimo de tempo possível comigo, mas ser desmascarado não seria bom para nenhum de nós, então por favor, tente absorver o máximo de informações. Esse é um compilado de todos os arquivos que já te enviei. Espero que você tenha lido, enquanto eu te mandava aos poucos, e agora saiba decorado. Se não, faça isso agora, é a nossa reputação que está em jogo! Se formos desmascarados, jogar a culpa nos nossos pais não vai tornar as coisas menos vergonhosas, para nós!” Chequei as mensagens no meu celular, em seguida. Cara havia me enviado uma contando que ela, eu e os nossos amigos havíamos sido convidados, em cima da hora, para o aniversário de Barbara, a princesinha do campus da UCLA. A festa aconteceria nessa noite e, pelas últimas semanas, os convites da comemoração do seu vigésimo primeiro aniversário, eram espalhados por aí. Barbara não gostava de nós e eu sabia que ela só havia mudado de ideia sobre nos convidar por conta da minha ceninha com Tyler e da visibilidade que, nesse momento, traríamos para o seu aniversário. As coisas com Barbara eram assim, se algo tirava o foco dela, ela fazia questão de atrair isso para perto de si, para de alguma forma mostrar que ela é superior e que a sua popularidade é duradoura. Eu não estava nem aí para isso, tinha noção que o convite era uma tática para fazer a sua festa de aniversário bombar ainda mais. De quebra, não duvidava que ela encontraria um jeito de destilar o seu veneno na nossa direção. Não ir demonstraria fraqueza. Não queria que pensassem que tínhamos algo para esconder (além de já termos feito isso com um suposto relacionamento, pelos últimos dois anos). Eu sabia que precisava avisar Tyler sobre as mudanças de planos, isso incluía me humilhar enviando-o mais mensagens, antes que ele respondesse as anteriores. “Vamos a uma festa de aniversário. Todos devem usar branco!” “Só branco?” A resposta veio segundos depois. Ele totalmente ignorou tudo o que eu tinha falado na mensagem acima, só se preocupando com a parte da vestimenta, isso porque ele havia me dito que não sabia nada sobre roupas. Ok, talvez ele estivesse se referindo apenas a vestidos de noiva. “Branco ou off White, a chata da aniversariante bloqueou a entrada de peças de outra cor. Seja criativo!” “Não sei o que vestir, Melina. Não tenho um guarda-roupa cheio de roupas brancas, muito menos sei a diferença entre branco e off White” Eu sabia que, assim como a maioria das minhas coisas, várias caixas haviam sido enviadas, direto da França para a nossa futura casa. Tyler deveria estar com uma ou duas malas de roupas, para o período até o casamento e para a viagem de lua de mel. “Não sabia que você era vaidoso. Já deveria ser um ícone fashion, pelo tempo que passou em Paris” “Me dê uma ideia, uso jeans?” Deus, ele estava agindo como se esse fosse um relacionamento de verdade e, bem, tradicional. “Sou sua noiva, não a sua estilista.” “Vou me arrumar na sua casa. Chego em vinte minutos.” “Ótimo, assim eu te forço a gravar as informações importantes”. Me referi ao arquivo que eu tinha acabado de enviar para o seu e-mail. “Você é má, achei que ainda éramos amigos” Não, nós não éramos. Não éramos amigos há muito tempo, mas eu não teria coragem de dizer isso em voz alta, seria uma ofensa para a criança que ainda morava dentro de mim, a que acreditou que Tyler estaria junto comigo no meu "felizes para sempre", seja como noivo, como padrinho de casamento ou me acompanhando em uma eterna solteirice. Revirei os olhos sozinha, detestando toda essa confusão da minha mente. Decidi aproveitar o tempo que eu tinha para tomar o meu banho com tranquilidade. Lavei os cabelos e os enrolei na toalha, vestindo um roupão e saindo do banheiro logo em seguida. Não imaginaria que os poucos minutos que gastos debaixo do chuveiro seriam o suficiente para Tyler dar o ar da graça, muito menos que os funcionários da casa dos meus pais permitiriam que ele viesse parar diretamente no meu quarto, sem nem solicitarem a minha prévia autorização ou me informarem da sua presença. — Eu sei que você está morrendo de ansiedade para passar vinte e quatro horas por dia ao meu lado, mas o nosso casamento é só na próxima semana— falei, puxando o roupão mais para baixo e me sentindo descoberta, apesar de estar usando lingerie por baixo da vestimenta atoalhada. — É uma ótima oportunidade para treinarmos e vermos como as coisas vão funcionar— ele disse, apoiando uma mala de mão em cima da minha cama e a abrindo. — Veio para passar o fim de semana? — Não pude perder a oportunidade de brincar com o seu exagero. — Tão engraçada, Nina. As suas piadas já foram melhores. — Se quer ajuda com o que vai vestir, vai precisar fazer isso enquanto eu me arrumo, a não ser que queira chegar atrasado. E você leu o e-mail que eu te mandei? — Perguntei, caminhando até o closet e aumentando o meu tom de voz gradativamente, para que ele continuasse me escutando. — Eu tenho cada uma daquelas informações gravadas no meu cérebro faz, o quê? Vinte e quatro meses, sendo mais exato— me assustei com a sua voz, por vir de tão perto. Não imaginei que ele me acompanharia até ali e olhei para trás, deixando de prestar atenção nas roupas — Li todos os seus e-mails nas datas em que me mandava, gravei aquelas informações simultaneamente e as passei para frente da maneira que você achou melhor. Deixei que criasse e moldasse a nossa "história de amor" e contei ela da forma como você a criou. — Então, eu mando, aqui? — Levantei as sobrancelhas, por ver que ele tinha feito tudo o que eu pedi, nos últimos dois anos. Eu gostei disso? Não. Honestamente, eu preferia ter trabalhado na criação de uma história junto com Tyler, dando sentido a ela de acordo com as nossas vidas e personalidades. Não foi possível, porque apesar da surpresa de saber que ele me ouviu, esse tempo todo, ele nunca se importou o suficiente para pedir para mudar algo. — Acho que você sempre mandou, mas pensei que dessa vez você poderia dividir a coroa— piscou um olho para mim. Senti as minhas pernas fraquejarem e não entendi o porquê, mais uma vez revirei os olhos e desisti de encontrar uma roupa para mim, virando-me completamente na direção de Tyler e dizendo: — Vamos ver a sua roupa primeiro, ande! — Eu seco o seu cabelo, para te recompensar. — O que? — franzi o cenho, sem entender. Eu deveria ter escutado errado, não era possível. — A minha irmã me ensinou, ok? Eu sempre seco o cabelo dela. — O que você está pensando em vestir? — perguntei, ignorando o que ele havia acabado de dizer. A informação nova ainda estava sendo processada, quando alcancei a mala dele, ainda sob a minha cama. — Estou com um pouco de frio, então um casaco seria legal. Mas vestir muita roupa branca, ao mesmo tempo, me fará ficar parecendo a embalagem de um shampoo de coco. — Esse foi um grande incentivo para mim, a pessoa que vai usar um longo vestido branco, daqui a uma semana. — É completamente diferente, Nina. Até porque eu sou branco igual a um papel, não vou nem aparecer no meio das roupas. Nem todos nós temos a sorte de ter um bronzeado natural e uma herança miscigenada. — Você está com frio? — perguntei, fugindo do elogio e olhando para ele, vendo que vestia um moletom. —Uhum, eu desembarquei hoje— deu de ombros. —Continua tendo febre após cada viagem de avião? — Pelo jeito a minha imunidade não melhorou em nada, da infância para cá. Acho que sou alérgico a altitude, se é que isso existe. Me aproximei de Tyler, colocando a mão na sua testa e vendo que ele realmente tinha a pele quente, eu diria que febril, nada muito forte. Não sei o que acontecia com ele, mas sempre que voava, passava algumas horas em estágio febril. Me afastei dele quando percebi que ele me encarava e negando com a cabeça, sozinha, e comecei a tirar algumas peças de roupa da sua mala. Avaliei as opções de casaco que ele trouxe, porque não teria condições de fazê-lo sair de casa sem uma roupa que o mantivesse aquecido. — Está se sentindo bem ou quer desmarcar os planos e ficar debaixo das cobertas? — perguntei, enquanto levantava uma blusa. — Não estou sentindo nada além de frio. Estou pronto para ir— Deu de ombros, tentando não se mostrar afetado pela febre. — Já tomou algum antitérmico? — Sim, fiz isso antes de vir para cá. Deve abaixar logo. No fundo da mala, encontrei a jaqueta jeans off White, que combinaria perfeitamente com a blusa de malha grossa, branca, e uma calça de moletom, também off White, com um recorte meio social. Queria que Tyler se sentisse confortável e a calça jeans que ele colocou ali parecia um número menor, ou então, ele andava prestando muita atenção na forma como os cantores sertanejos brasileiros se vestiam. — Veja se gosta dessa combinação, enquanto eu me visto—falei, já caminhando em direção ao closet, depois de ter colocado a pilha de roupas na sua mão. Fui atrás do vestido que estava na minha mente, ele era extremamente justo, com decote arredondado e mangas bufantes. O vesti rapidamente, me sentindo na minha festa de despedida de solteira, que eu nem sabia se aconteceria. Calcei sandálias de salto grosso, prateadas, e escolhi uma bolsa pequena dessa mesma cor. Eu não era fã de utilizar joias de prata, o subtom da minha pele era quente e o dourado combinava bem mais, mas naquele caso, achei que a prata ficaria mais harmônica com a minha roupa. Voltei para o meu quarto, vendo um Tyler já vestido se encarando no espelho. — O que foi? — questionei, notando que ele parecia meio desconfortável. Me sentei na penteadeira, ficando de costas para ele, mas conseguindo observá-lo pelo reflexo do espelho. —Estou me sentindo um pouco desarrumado, mas blusa e calça social seria demais, não seria? — Por que não opta por só um deles? Ou a calça social, ou a camisa. — falei, tentando me lembrar se realmente havia outra opção de calça na mala. Eu só tinha visto a de moletom e a jeans apertada. —É, vou tentar— disse. Deixei o meu hidratante facial cair da minha mão, quando o vi tirando a jaqueta e a blusa, atrás de mim, pelo espelho. Respirei fundo e peguei o pote, me esforçando para me concentrar em mim, não nos músculos que eu tinha acabado de descobrir que Tyler cultivava. — E aí? — perguntei, depois dele ter feito a substituição das blusas. — Detestei— disse, voltando a tirar o casaco e a blusa. Pensei em falar que imaginei que não daria certo, mas não havia necessidade, uma vez que ele descobriu por conta própria. Vi quando tirou a calça e me perguntei o porquê dele não ter primeiro voltado a vestir a parte de cima, mas não, ele preferiu se desfazer de todas as peças indesejadas e ficar parado, só de cueca boxe branca, no meio do meu quarto. — É, eu preferi como antes— me forcei a dizer, perdida em pensamentos, quer dizer, olhares. “Não olhe para baixo, não olhe para baixo, não olhe para baixo” era o que o meu cérebro me dizia. E bem, eu olhei, olhei bem quando ele se abaixou para passar a calça social off White por suas pernas. Vi ele correndo o tecido, mais justo do que deveria, por suas coxas grossas. O vi tampar, com mais uma camada de pano, a parte do seu corpo que não deveria me trazer curiosidade, mas que foi justamente a que me fez pregar os olhos ali, parecia bom demais para ser verdade. —Nina? Melina? —Hum? — O que achou? — raciocinei, novamente, me virando para trás, após sair do transe, para encarar um Tyler já completamente vestido, com a calça social, a blusa de malha e a jaqueta. Nos pés, calçava um tênis branco. Ele tinha conseguido se vestir completamente em tão poucos segundos? — Eu... —Tentei voltar para a realidade. —O que achou? Eu gostei assim! — Eu gostei assim, também! —repeti a sua frase, por mais estranho e seco que pudesse soar. —O que foi? — Nada. — Você ficou estranha, de repente. — Não estou estranha. É que... Estamos atrasados, estou pensando em tudo o que preciso fazer, antes de sair de casa— inventei uma desculpa para os meus devaneios. — Onde está o seu secador? — tirei da gaveta, entregando na sua mão. Achei que Tyler estava brincando, mas pelos próximos dez minutos, enquanto eu fazia a pele da minha maquiagem, o meu noivo secou o meu cabelo em silêncio, com habilidades profissionais. — Obrigada, já pode seguir carreira! —Você acha? Não tinha acreditado em mim!— disse, se jogando na minha cama. — Vai amarrotar a sua roupa— briguei. — Nossa, você falou como se fosse a minha noiva, agora— falou, brincando. Pelos próximos vinte minutos, enquanto eu terminava a minha maquiagem e colocava as coisas importantes dentro da minha bolsa, Tyler ficou deitado na minha cama, hora mexendo no seu celular, hora me encarando em silêncio. Quando finalizei, disse para ele: — Pronto, vamos tirar uma foto no espelho, todos estão esperando que a gente poste algo juntos. Então, depois disso, podemos ir— falei, parada nos pés da cama e seguindo o seu olhar, que passeava pelo meu corpo, reparando no meu vestido pela primeira vez. — Você está linda, Nina!
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