Tyler
Me vestir na casa de Nina foi proposital, não apenas porque eu tinha genuínas duvidas do que deveria usar naquela noite, mas porque precisava de uma amostra grátis da nossa dinâmica de casados. Não é como se eu fosse deixá-la plantada no altar, se eu visse que não estava funcionando. Já disse e repito: jamais faria isso.
Eu precisava saber onde estava me metendo, entretanto. E sinto que essa necessidade não era unicamente minha, mas também da minha noiva. Precisávamos tomar ciência de que medidas extremas não seriam necessárias, de que, dentro do possível, conseguiríamos nos suportar.
Era uma situação complicada, para mim. Melina parecia lidar com aquele casamento com muita naturalidade e eu não sabia como encontrar uma forma de reivindicar a união, sem machucá-la no processo, sem parecer um ataque pessoal.
Eu sabia que ela não era apaixonada por mim, nem algo do tipo. Mas esse casamento se tornou pertencente a ela, dar um passo para trás, naquele momento, significaria humilhá-la em frente de uma sociedade inteira: a internet, a e mídia principalmente a universidade.
Os meus planos mudaram, eu resolvi esperar. Eu sabia que precisaria, primeiro subir ao altar sem novas contestações, concretizar a vontade dos nossos pais, em casando com ela, viajando para a lua de mel e fazendo tudo como mandava o figurino. Aí, sim, eu teria o tempo necessário para desenvolver um plano e, talvez, mostrar para Melina a importância dele, convencê-la a participar junto comigo, para darmos um jeito de sair daquela enrascada.
Melina não nasceu para ser submissa, ela era mandona e tinha personalidade forte. Eu não conseguia entender o porquê de ela ter se conformado tão facilmente com a união. Me perguntava, às vezes, se ela não sabia de algo que não tinham me contado, que a fez encarar tudo isso de uma perspetiva diferente.
Olhei, mais uma vez, para a mulher adulta na minha frente. Tão diferente de anos atrás, reparei no seu corpo embrulhado no curto e justo vestido branco. As mangas bufantes caídas deixavam os seus ombros a mostra e reparei, pela primeira vez, que ela usava um colocar de ouro, com um pingente em formato da letra T.
Melina sorriu sem graça, como se tivesse sido pega no flagra, quando notou para qual direção eu olhava. Ela disse, com a voz fraca, em seguida:
— Comprei assim que começamos a fingir, eu te chamava de Martin, então ninguém entendia o porquê do T, mas eu também nunca fiz questão de explicar. Acho que agora eles vão ligar uma coisa a outra.
— É estranho, não é? — A questionei.
—O que?
— Como tudo o que fazemos precisa ser minimamente calculado para que os outros vejam e interpretem da forma certa. Como nada do que fazemos é para nós, é sempre para quem vai ver...
— Acho que esse é o novo e velho normal da vida. Sempre foi assim, não é só com a gente, não é só com o nosso noivado. Fazemos tudo para que as pessoas vejam, para que elas saibam, para elas pensarem que estamos melhor do que elas. Nos vestimos para isso, muitas vezes viajamos para isso, fazemos grandes festas, compramos coisas caras, tudo para mostrar para os outros. O nosso casamento não é a primeira, nem a última coisa, que vamos fazer apenas para mostrar para os outros.
— Não acha que deveríamos tentar fugir desse padrão? Por alguma razão louca, precisamos nos casar. Beleza. Mas isso não quer dizer que precisamos sair por aí provando para todo mundo a veracidade desse casamento, podemos ser privados como “fomos” nos últimos anos.
— Há um problema, Tyler. Quando se tem a mídia em cima de você, quando se é uma mulher multirracial em um país governado pelos velhos multimilionários arianos, quando os seus colegas de faculdade te odeiam por tudo o que você tem pelo seu potencial de conquistar ainda mais. Ou me esforço para provar para o mundo, que estão errados sobre as besteiras que falam de mim ou...
— Aceita que será vista como inferior, não importa o que faça ou tenha?
— É. Eu sei que não preciso provar nada para ninguém, mas me faz sentir melhor comigo mesma. Só eu sei das besteiras que ouvi nos últimos anos, me chamando de doida, de sociopata, obcecada, de invejosa e interesseira. Falaram que eu precisava me tratar, que eu estava armando todo um circo e que eu tinha inventado um relacionamento com alguém que não existia, só porque eu estava com inveja de você e do seu namoro. Eu entendo se para você fizer mais sentido manter as coisas privadas, até porque assim você iria conseguir seguir a sua vida de solteiro normalmente e—a interrompi, na mesma hora.
— Não foi bem isso que eu quis dizer, Melina. Apenas acho que precisar fingir em menos momentos nos deixaria numa situação mais confortável. Sermos menos ativos nas redes sociais e tudo isso...
— É que, para mim, é uma questão de honra. Talvez eles sem querer tenham impulsionado a minha aceitação nessa farsa, porque cada vez que me diziam besteiras, eu desejava que você estivesse aqui, me ajudando a provar uma verdade que nem existe, mas que limparia o meu nome. Se os nossos pais nos dissessem que não precisaríamos mais nos casar, eu sinceramente ficaria decepcionada, porque eu não vejo a hora de encarar todas essas pessoas que falaram tão m*l de mim, quando estivermos no altar.
—Melina— tentei a interromper, mas ela continuou a dizer:
— Os meus motivos para aceitar tudo isso mudaram com o tempo. E, bem, agora que você está aqui, eu quero mostrar para todos que eles estão errados, eu quero que saibam e vejam como somos felizes e unidos. Quero esbanjar o quão apaixonados estamos, mesmo que tudo seja uma mentira para nós. Se isso tudo termina hoje, eu continuo sendo uma mentirosa, mas no momento, mais do que dar um fim nisso tudo, eu espero conseguir limpar a minha reputação.
— Vamos mostrar para todos o quão felizes estamos. E então, quando tudo isso acabar, eu farei questão de dizer para os quatro ventos que fui eu quem ganhei um pé na b***a. Vamos reconstruir a sua imagem e talvez seja até bom ter um motivo a mais, um de verdade, para levar tudo isso a frente. Porque até que os nossos pais decidam ser sinceros connosco, isso é tudo o que nós temos. Eles não nos deram um motivo para esse casamento, apenas uma ordem que esperam que a gente siga. E eles sabem que nós vamos, porque teoricamente confiamos que eles têm uma razão para nos obrigarem a fazer isso. Isso é um trato de confiança, mas se estamos confiando nos hipotéticos motivos de nossos pais, acho que podemos criar as nossas próprias regras e razões, para jogarmos esse jogo.
— Você realmente perdeu a confiança nos seus pais, não é?
— Eu respeito-os e os amo, mas não os entendo, tampouco confio em tudo o que falam. As vezes penso que tudo não se passa de um plano mirabolante para tentar nos juntar. E eu sei que você não concorda com isso, que provavelmente acha a minha perspectiva torta e pouco altruísta, mas é simplesmente como tudo se parece, para mim.
— Elas fazem sentido para mim, só que de uma forma diferente.
— E eu respeito isso. Eu não quero brigar com você, mas eu não sou o tipo de cara legal que compromete a sua própria vida, por algo desconhecido. Se os meus pais tivessem sido claros, mesmo que eles fossem os únicos afetados e isso não respingasse em mim, eu faria para salvar a pele deles. O problema é que eles esperam isso de mim, eles confiam em mim para ajudá-los, mas não para contar o porquê deles precisarem de ajuda. Então, acho que tenho o direito de não confiar neles ou na dimensão desse problema, se é que ele existe.
— Se não confia neles, porque vai se casar, mesmo assim?
— Porque eu tenho medo. Tenho medo de estar errado e de acabar destruindo a vida dos meus pais, de alguma forma. Vou me casar porque eu sei que essa é a melhor forma de recuperar a sua reputação e porque, se eu tomar uma decisão diferente de um "Sim", no altar, eu mancharia o seu nome, mais do que o que os nossos pais criaram conseguiu manchar. Eu vou fazer isso porque não quero ser como eles, não quero ser pior que eles.
— Eu— as palavras pareceram fugir da boca de Melina e, por isso, continuei a falar. Não imaginava que conversaríamos tanto, logo nas primeiras horas do nosso reencontro. Não imaginei que conseguiria ser tão sincero, mas nós dois precisávamos daquilo, precisávamos nos entender, nos conhecer de novo, se quiséssemos ser minimamente convincentes como um casal.
—A gente cresceu, Melina. Crescemos e crescemos longe um do outro, a distância nos trouxe realidades diferentes e, consequentemente, caminhos diferentes. Talvez as coisas não fossem desse jeito, se eu tivesse ficado, se nós não tivéssemos nos distanciado, mas infelizmente não cabia a mim, a decisão de ficar ou ir.
— Mas coube a nós a decisão de nos afastarmos, Tyler. Não estamos no século passado, podíamos ter continuado mantendo contato, como fizemos nos primeiros anos em que você esteve longe. Mas ao contrário disso, quanto mais perto a farsa estava de se iniciar, mais tentávamos fugir um do outro.
— Fico mais tranquilo de saber que foi mútuo, então. Mas foram muitos anos, mesmo laços fortes se perdem, em circunstâncias como a nossa, ainda mais sendo crianças, passando pela transição da adolescência. Não tivemos a oportunidade de nos tornarmos adultos juntos.
— Mas ainda assim estamos aqui. Adultos, juntos— ela levantou a mão, mostrando a aliança e o anel de noivado, juntos no mesmo dedo.
— Sinto que estamos a um passo de brigar, Melina. E não fazíamos isso antes, não quero que isso se torne a nossa nova normalidade, o nosso novo padrão de relacionamento.
— Não estamos brigando, estamos apenas conversando sobre as nossas diferentes formas de encararmos as coisas.
— Nós estamos atrasados para a festa da sua amiga, não estamos?
— No dia que aquela lá for minha amiga, você aproveita o seu direito como meu marido e me interdita, me coloca em um manicômio.
— De qualquer forma, você queria tirar uma foto, antes de irmos. — Tentei, de todas as formas, fugir de mais uma conversa longa. Já tínhamos feito demais, para apenas algumas horas juntos.
— Se você concordar com isso— ela pareceu receosa.
— Já disse, Nina. Vamos fingir da melhor forma que conseguirmos, principalmente quando percebermos a presença da mídia ou dos seus colegas de faculdade.
— As vezes eu só queria que os nossos pais não tivessem se metido no mundo das celebridades— ela disse, se referindo ao período em que os nossos pais advogavam para famosos envolvidos em processos judiciais polêmicos. De forma parecida com o que aconteceu com Robert Kardashian, sua então esposa e filhos, não só passamos a ter mais contato com pessoas do ramo, a nossa família se tornou amiga de pessoas famosas e não demorou até que as nossas mães fossem consideradas socialites, atraindo a mídia na nossa direção.
Foi inevitável começar a frequentar eventos, participar de tapetes vermelhos e rapidamente nos tornamos aquele tipo de “celebridade” que não faz nada para ter a fama que tem, que não canta, não atua, nem está envolvido com algum meio artístico. A diferença é que, na nossa família, os trabalhos originais ainda eram mantidos, os nossos pais ainda advogavam e eu e Nina nos formaríamos no próximo semestre.
Eu estava em processo de transferência, concluiria a minha graduação junto com Melina, na UCLA. Na Europa, eu havia optado por estudar em uma universidade americana, com um polo na Alemanha, já que sabia da minha volta para os Estados Unidos, para o casamento, e que um diploma americano seria de extrema importância, para a minha atuação no país.
Os meus pais haviam se tornado advogado na França, enquanto a mãe de Melina estudou direito no Brasil e o seu pai na Itália. Todos eles precisaram validar os seus diplomas para atuarem nos Estados Unidos, quando chegaram no país. Além de precisarem mergulhar de cabeça na legislação americana.
— Podemos tirar a foto no espelho? — Melina me questionou, já parada na frente do mesmo. Apenas concordei com a cabeça, seguindo na sua direção, enquanto observava o seu reflexo, da cabeça aos pés.
Parei atrás dela, sem dizer nada e sem encostar em nem um milímetro do seu corpo. Eu era alto o suficiente para que toda a minha cabeça aparecesse, mesmo com Melina, que estava longe de ser baixa, parada na minha frente.
Coloquei as mãos dentro do bolso da calça, mas a mulher a minha frente admirou o reflexo e pareceu insatisfeita com algo. Ela segurou nos meus braços e os guiou até um pouco abaixo da sua cintura, apoiando-as naquela altura do seu corpo.
Eu tinha mãos grandes, mas a sua cintura era fina ao ponto delas quase se encostarem na circunferência do seu corpo. Os meus dedos se acomodaram em um ponto abaixo do seu umbigo e os meus polegares atingiram a altura do seu cóccix. Precisei respirar fundo, com tantos toques sendo descobertos.
Um sorriso fraco, sem dentes, surgiu no meu rosto, quando Nina tirou a primeira foto. Eu sabia que ela tentaria mais de uma, por isso, deixei um beijo nos seus cabelos, na segunda.
— Está bom? — perguntei, enquanto ela encarava a tela do celular.
— Essa segunda ficou ótima, estou só colocando um filtro pronto, porque estou com preguiça de editar. O que coloco na legenda?
— Não faço ideia...
— Já sei— disse, começando a digitar. Menos de um minuto depois, senti o meu celular vibrando no meu bolso e o desbloqueei, confirmando que eu havia acabado de ser marcado em uma postagem no i********:.
Passei os meus olhos, com atenção, pelo texto curto:
“Obrigada por abraçar todas as minhas loucuras! Não foi fácil manter tudo isso em segredo pelos últimos dois anos, mas você sempre confiou em mim e respeitou as minhas decisões, mesmo estando envolvido nelas. Sete dias antes do altar e o nosso segredo foi revelado para o mundo! Os últimos vinte e dois (quase vinte e três) anos não são nem a metade da nossa história, a melhor parte ainda está por vir! Apesar de não saber o que é viver sem você, sei que a vida se torna mais bonita ao seu lado. Te amo do dia em que nós nascemos, até o dia em que eu partir!”
Senti um bolo travado na minha garganta, quando acabei de ler, e não quis levantar a cabeça. Ao invés disso, corri pelo aplicativo aberto no meu aparelho celular, vendo dezenas de vídeos do meu reencontro com Melina publicados, com os nossos nomes devidamente marcados. Respirei fundo e voltei a encarar a publicação feita por ela, eu deveria publicar algo, mas iria preferir que fosse outra foto que poderíamos tirar no dia seguinte, para não parecer que, no nosso relacionamento de dois anos, só tínhamos aquela imagem juntos.
Decidi então repostar a publicação de Nina no meu story, compartilhei a imagem e aproveite para adicionar um comentário: “Tudo por você! Nem mais vinte e dois, quarenta e quatro, sessenta e seis anos ao seu lado serão suficientes para te dizer o quanto eu te amo!”
—Tyler? Vamos? Já estamos mais que atrasados.
—Vamos, vamos! Eu só... Estava repostando e pensando no que escrever— menti, porque as palavras tinham surgido espontaneamente na minha cabeça.
— Ok, daqui a pouco eu leio— Não pareceu curiosa e logo mudou de assunto: —Deixe que eu dirijo, agora. Você ainda vai levar um tempo para se acostumar e se localizar nas ruas de Los Angeles!