Tyler
—O que foi? Aconteceu alguma coisa? —perguntei para Melina, percebendo que ela tinha ficado séria demais e demorou um pouco para sair de dentro do carro. Em um primeiro momento, pensei que Nina poderia estar afetada por todo o tumulto entre nós e os paparazzis, mas me parecia injusto supor a razão de seus devaneios, pelo menos em nossa nova realidade, onde eu não a conhecia mais.
Era difícil para um c****e conseguir administrar isso. Tínhamos nos tornado pessoas diferentes, eu não podia mais usar de uma falsa intuição para tentar entender a cabeça de Melina, eu precisava conhecê-la, novamente.
—Nada, só estou refletindo sobre a vida! —franzi o cenho, abrindo a porta para que ela entrasse na pizzaria. Olhei para os dois lados, tentando identificar em qual direção os seus amigos foram. —Pensando sobre algumas situações, ok? Nada que esteja envolvido na pauta nós dois.
—Nossa! —Levantei meus braços, em sinal de rendição, quando percebi que ela estava na defensiva.
—Não quis ser grossa— ela se corrigiu, praticamente no automático. Um “Mas foi” quase pulou de minha boca, mas no fim, consegui me conter— Só estava pensando em questões pessoais e que realmente não tiveram nada a ver com os últimos acontecimentos. Noivado— levantou a mão, mostrando a aliança, idêntica à que eu usava, junto do anel de noivado— Casamento, reencontro, festa ou ataque de paparazzi.
—Está tudo bem? Mesmo? —segurei seu braço, não me importando de ser o i****a preocupado, depois que ela bancou a garota grossa —Fiquei preocupado, depois de toda a situação com os paparazzi.
—Acho que, com o tempo que passei aqui, aprendi a lidar sozinha com essas situações, quando eles tentam me sufocar. Então, passar por isso com alguém, dividir a carga, ameniza a situação. Mas eu fiquei p**a, não vou negar! Cada dia que passa eles estão mais desrespeitosos.
—Se sente completamente recuperada, daquela situação? —Não quis dar mais detalhes, ela sabia que eu estava falando do ataque que sofremos juntos, anos atrás, quando colocaram a câmera por dentro de suas roupas.
—Não, nunca completamente. Sinto que, quando eles me pegarem em um dia r**m, ainda vou acabar tendo um surto psicótico, uma crise de ansiedade ou algo do tipo. Mas por sorte deles, e para a minha também, eles andam me pegando nos dias bons. —Ela disse e, antes de esperar que eu falasse qualquer outra coisa, começou a andar em direção a mesa de seus amigos, não antes de virar para trás e dizer: —Cuidado com o que fala, eles me conhecem muito bem e podem perceber uma mentira com facilidade.
Puxei a cadeira para ela e me sentei ao seu lado, logo em seguida. Cara estava na ponta da mesa, Ethan na frente de Melina e Dominic logo em minha frente. Na ponta mais próxima de mim, a cadeira permanecia vazia. Recebíamos alguns olhares estranhos, por estarmos bem-vestidos demais para uma pizzaria, mas acredito que não era difícil de imaginar que tínhamos vindo de algum outro evento.
O atendente logo se aproximou e acho que Cara já o conhecia, porque os dois ficaram conversando enquanto nós olhávamos o cardápio para escolhermos os sabores e as quantidades de cada pizza. Depois que fizemos as nossas escolhas e a passamos para o garçom, ele deixou a nossa mesa, dizendo que voltaria logo.
O interrogatório dos amigos da minha noiva se iniciou logo em seguida e, sendo sincero, acho que, de certa forma, eles até demoraram para começarem a nos questionar. Qual é, se um amigo meu se metesse em uma história como a nossa, eu também acharia estranho e iria querer tentar entender.
—Eu ainda não entendi direito como o relacionamento de vocês aconteceu e o porquê de terem decidido esconder isso por tanto tempo, até das pessoas mais próximas. Como vocês começaram a se envolver?
Olhei para Melina e ela retribuiu o olhar, abri a boca para falar algo, mas as palavras não saíram e eu achei que era melhor deixar nas mãos dela, porque ela os conhecia, sabia como enganá-los, sabia o que vinha dizendo a eles, nos últimos dois anos, muito melhor do que eu. Eu deixaria ela criar uma linha de raciocínio e então seguiria em sua onda, para contribuir com o que quer que ela usasse como cenário, como plano de fundo para o nosso envolvimento.
—Eu acho que a gente sempre soube que algo aconteceria, não é, Tyler? —falou diretamente comigo, me convidando a participar da conversa.
—Quando eu me mudei, quando fui para longe, sabia que não seria definitivo. Sabia que um dia voltaria e que algo aconteceria entre a gente, nossa amizade de infância foi baseada nisso, um relacionamento futuro não era um desejo, era uma certeza— fui sincero, de certa forma, já que as coisas realmente aconteceram desse jeito, mas não porque éramos apaixonados um pelo outro, desde a infância.
—Nós passamos algum tempo sem nos vermos, alguns anos, na verdade. Eu não ia para a Europa com tanta frequência, Tyler pouco vinha para cá— mentira, eu nunca tinha voltado, em todo esse tempo, mas esse era o detalhe que eles não poderiam saber— E quando nos reencontramos, no fim da adolescência, tivemos a certeza de que todo o sentimento que tínhamos construído na infância não mudou.
—Levou algum tempo até a gente dar o braço a torcer, tanto que estamos juntos há dois anos, mas acho que como nós dois sabíamos que, quando estivéssemos juntos, seria definitivo, seria para sempre, precisávamos e queríamos “aproveitar a vida”, antes de ficarmos juntos, porque tínhamos essa certeza de que não teria volta. Entre nós é para sempre— falei.
—E percebemos isso antes do primeiro beijo, mas quando ele aconteceu, tivemos absoluta certeza.
—Own, isso é muito fofo! —Ethan disse.
—Só ainda não entendo o porque de manter tudo isso debaixo dos panos...
—Ah, Cara. Você melhor do que ninguém sabe como a minha relação com a mídia e com as pessoas em minha volta é complicada— Melina começou a se justificar, para a sua melhor amiga— A verdade é que não contamos por que eu não quis. Eu sabia que teria de ouvir piadinhas sobre como o meu namorado provavelmente estava me traindo, lá na Europa, sobre como o nosso relacionamento a distância não iria dar certo, como estávamos prestes a destruir uma amizade de anos, como deveríamos nos ver mais e daí para pior.
—Sabíamos que a mídia acabaria interferindo, de certa forma. Mas a nossa maior preocupação nem foi com os holofotes, mas com as pessoas que nós conhecemos e que tentariam ficar em cima de nós, caçando um furo, buscando um deslize, nos regulando. Eu apoiei a ideia de Melina sem pensar duas vezes, manter tudo em segredo foi o que permitiu que nosso relacionamento funcionasse. Eu só me arrependi desse plano quando percebi que nos tratavam de maneira diferente: eu era o cara que queria ter um relacionamento privado, Nina era a garota obcecada pelo melhor amigo de infância, que inventou todo um relacionamento só para não “sair por baixo”, só para tentar ter ele de volta.
—Eu entendo o motivo de não terem contado para todo mundo e, sinceramente, não que seja da minha conta, mas vocês não falaram nem para os seus amigos mais próximos. Não duvido que uma grande parte de suas famílias também não saiba— Ethan expôs e é claro que ele tinha razão em desconfiar, em pensar que tinha algo estranho naquela história, porque realmente tinha, nós só não podíamos confessar isso a ele, nem a ninguém, a propósito.
—Realmente, só a nossa família mais próxima sabia: pais, irmãs. Só. —confessei em voz alta, deixando que Melina buscasse uma justificativa para aquilo, porque ela sabia lidar com os seus amigos de uma forma melhor do que eu.
—No início, eu estava com medo de vazar alguma informação, vocês sabem, as paredes da universidade têm ouvidos. Depois, fiquei assustada, com medo de me julgarem, de acharem que eu estava tomando uma decisão errada, não pelo namoro, mas pelo sigilo. E então, depois de um tempo e de todas as coisas ruins que as pessoas começaram a falar sobre mim, virou um desafio pessoal: eu queria que desacreditassem ainda mais, queria que pensassem que eu estava doida, que eu faria uma festa de casamento sem um noivo inexistente, queria que todos achassem que eu ia fingir que fui abandonada no altar, queria que pensassem que eu estava louca, porque no fim do dia, eu sabia que logo todos descobririam a verdade. Eu comecei a clamar por queixos caídos!