Melina
Quando parei em frente à pizzaria, me sentia péssima. Mentir para Ethan e Dominic já era r**m o suficiente, mas mentir para Cara havia se tornado o meu pior pesadelo. Eu amava a minha amiga, com todas as minhas forças, mas eu não podia negar que ela tinha a língua comprida. Se eu tivesse ou pudesse revelar o meu grande segredo para um deles, desejaria muito que pudesse ser Cara, mas eu acabaria por escolher Ethan.
Ele era doce, leal e mais do que isso, sabia que era protagonista de sua própria história, não coadjuvante na vida de ninguém. Cara tinha a tendencia a viver nas sombras, querer se tornar uma espécie de cupido e tentar não ser a personagem principal de sua vida. Como um garoto n***o, crescendo em uma família humilde e enriquecendo rapidamente, Ethan precisou de muitos anos de terapia para, depois que a sua realidade mudou, perceber que não era menos do que todos os outros garotos brancos e endinheirados que passaram a o cercar.
O pai de Ethan trabalhava em uma empresa de tecnologia e foi o principal responsável pela criação de diversos aparelhos de monitoramento espacial, que foram patenteados e vendidos para a Space X, Nasa e outras agencias ou empresas espaciais. Acontece que o seu nome sempre foi excluído dos créditos, baseado em um contrato de exclusividade abusivo, assinado por ele logo no início de sua carreira. Quando o Sr. Thompson finalmente venceu todos os processos judiciais e recebeu as devidas indenizações, além de sua parte no lucro das patentes, não só a vida da família se transformou, mas Ethan entendeu que queria, que precisava ser um advogado para lutar em causas como aquela, para ajudar outros homens negros que são explorados em um mundo moderno onde dizem que não existe mais e********o.
E bem, eu entendia muito bem. Na pele. A política birracial estadunidense não era algo que fazia sentido na minha cabeça. Aqui, latino era visto como uma raça, não importa quão branco de olho azul e origem alemã você seja, se esse for o caso. Também não encarava bem todo esse preconceito em torno da mistura de raças, ok, eu entendia que isso aconteceu, muitos anos atrás, em uma tentativa de embranquecer a população. Eu também entendia que os reflexos disso estavam presentes até hoje, estariam por muito tempo. Mas eu detestava ter de ouvir que a minha mãe se casou com o meu pai para tentar ter filhos “mais claros”, que eles não deveriam estar juntos ou algo do tipo.
Em uma sociedade dita como liberta, não fazia sentido para mim todo esse preconceito em torno da mistura de raças. Não fazia sentido para mim ter que abrir mão de uma das origens de meus pais, como se os valores aplicados fossem diferentes. Eu entendia que, uma vez que os multirraciais se identificassem como negros, uma nova força seria atrelada ao combate do racismo, mas a forma como os estadunidenses enxergam as cores humanas é muito mais complexa do que isso.
A minha mãe, n***a, brasileira, muitas vezes é considerada apenas como latina. O meu pai? Branco, italiano, ninguém liga, veio da Europa, então é visto de forma superior, desde que seja de um dos países ricos. Isso sem entrarmos no mérito do colorismo. Eu tinha olhos claros e pele morena, minha mãe era n***a retinta, minha irmã era mais escura do que eu. Adivinhe só? Quanto mais escura a pele, maior o preconceito.
Quando eu nasci, tinha a pele bem mais clara. Os meus olhos verdes saltavam aos olhos de cada um e, bem, os fios escuros do meu cabelo não existiam, eu era completamente careca. Uma vez, minha mãe estava comigo na rua, quando um grupo de pessoas a parou, acusando de ter me sequestrado.
Nada foi o suficiente para eles, tentaram a agredir e por muito pouco não conseguiram. A levaram até a delegacia de polícia e foi somente quando o meu pai chegou que a minha mãe, enfim, conseguiu confirmar a maternidade. Isso nunca acontecia em situações contrárias, quer dizer, em termos, porque não foram poucas as vezes em que questionaram se eu e minha irmã éramos adotadas, quando estávamos somente ao lado de nosso pai.
Tudo isso marca a vida de uma criança, forma o adulto que vamos ser. O racismo nos vincula a seres brutais, pouco inteligentes, que deveriam fazer apenas trabalhos manuais, de força, no fim das contas, o pensamento eurocêntrico racista não evoluiu significativamente, com o tempo. Isso é o que é nítido, para quem sofre na pele, mas talvez não seja para o resto, porque as coisas são cada vez mais camufladas, o preconceito é a escória da sociedade e até os preconceituosos sabem disso, tanto é que lutam tanto para escondê-lo.
Não se luta contra o fim do racismo, se luta para colocá-lo debaixo dos panos. Essa é uma verdade que exemplifica a luta de muitas pessoas, os objetivos de vários dos “apoiadores” da causa. E não era apenas contra negros e latinos, Dominic, por exemplo, já sofreu diversos tipos de insulto por sua descendência japonesa.
Esses vão desde os mais “inocentes”, como exigir dele uma inteligência sobrenatural, imitar os seus olhos puxados, generalização das diferentes culturas e dos vários países, até se apropriar de sua cultura como forma de obter lucro, ofender sua dignidade com base em teses ridículas como tentativa de humilhação (como a lenda do tamanho do pênis dos asiáticos) até ofensas a higiene, alimentação e pontos ainda mais pesados, como acusações de terrorismo e outras formas de ferir a existência de um povo, usando de um banquete regado a racismo e xenofobia.
A sociedade era podre e eu não aguentava mais. Não aguentava mais essa neutralização de histórias e lutas de grupos minoritários, não aguentava mais saber que a minha voz não era ouvida, não tinha tamanha relevância, por ser uma mulher multirracial de origem n***a e latina. E posso dizer que o dinheiro comprava uma parcela de nossa alforria, o dinheiro era como um microfone para a nossa voz, mas um ingresso para espaços onde não queriam nos ouvir, com pessoas que não se importavam com as nossas lutas as nossas dores. Era como receber apenas a metade do ingresso, no fim das contas.
Eu estava em dois grupos minoritários, mas a situação podia ser pior. Conheço mulheres pobres, negras, lésbicas, gordas, de religiões de matrizes africanas, que se encaixam na grande maioria das categorias, se houvesse uma tabela, propriamente dita, para as minorias da sociedade. Era por isso que eu queria me tornar uma advogada, não para assumir o lugar dos meus pais, não, nada disso, para lutar pelo direito e pela voz daqueles (e principalmente daquelas) que foram e que ainda eram constantemente calados por uma sociedade baseada em uma pirâmide de preconceitos, onde o caminho para o crescimento só era humanamente possível se você fosse um privilegiado, se não, teria que se esforçar dez vezes mais que o resto, para alcançar um terço do merecimento.
Era ridículo e eu usaria a minha força, a minha voz, para lutar contra isso. Era o meu objetivo de vida, era mais que o meu sonho, mas a minha forma de contribuir para um futuro mais igualitário.
Eu sabia que seria uma caminhada difícil, de pouco apoio, de pouco reconhecimento, mas era mais que a minha realização profissional, era o mesmo e ainda mais para a minha vida, para a minha integridade humana. Eu era privilegiada o suficiente para vir de uma família que me garantia estabilidade financeira para fazer o que quisesse e, bem, no lugar de me tornar uma irresponsável que só pensa em gastar dinheiro e acha que tudo gira em torno de seu próprio umbigo, eu escolhi me tornar alguém que trabalha para fazer do mundo um lugar melhor, mesmo sabendo que não importa quão duro eu trabalhe pelas minhas causas, fazer a minha parte também é inspirar e alertar outras pessoas a fazerem as suas, porque sozinhos não vamos a lugar nenhum.
E bem, completamente perdida em pensamentos, não percebi que todos já tinham decido do carro e me esperavam para entrar na pizzaria, enquanto eu olhava para o nada com uma cara de pateta e pensamentos sobrevoando a atmosfera terrestre. Tyler me despertou do transe quando abriu a porta do motorista e me perguntou, de perto, se estava tudo bem. E eu sabia que, dentro da minha mente, a resposta era não, nada estava bem.
Mas eu precisava enfrentar as coisas. Eu sempre fui assim, não seria um casamento com o meu melhor amigo de infância, que era meu “prometido” a muitos e muitos anos, que ia abalar a minha existência e me afetar, apenas porque tínhamos perdido a i********e e porque eu estava precisando mentir para os meus amigos em quem eu confiava de olhos fechados.
Respirei fundo e disse que sim, me levantando do carro e esperando que ele entrelaçasse os seus dedos aos meus, para enfim seguirmos os outros para dentro do estabelecimento, ou melhor dizendo, para mais uma rodada do nosso teatrinho de casal apaixonado, futuros marido e mulher.