Tyler
Saímos do prédio do hotel sendo completamente cercados pela imensidão de paparazzi. O número parecia dobrado, desde a hora que chegamos, não muito tempo atrás. Senti os meus pulmões implorarem por ar, olhei em volta, meio perdido, enquanto os amigos de Melina conseguiam cruzar a multidão de fotógrafos sem grandes problemas. É claro, o foco não estava em cima deles, na verdade ninguém parecia ligar para o que eles faziam ou deixavam de fazer, com quem estavam ou deixavam de estar.
A situação conosco era diferente, passada a entrada do hotel, Melina acenou para o manobrista e enquanto ele ia buscar o seu carro, tivemos que lidar com aqueles homens tentando transitar por entre nós e, como sempre, buscarem por fotos comprometedoras. Agarrei em sua mão e não soltei, quando um deles tentou quebrar o nosso toque e cruzar por ali, por entre nós, aqueles faziam o tipo desrespeitosos, tocavam em você, sem se importar se seu corpo era algo privado, invadiam o seu espaço pessoal, faziam perguntas inconvenientes, te sufocavam. Olhei mais para frente, vendo que alguns se mantinham distantes e fotografavam o ataque que sofríamos.
Consegui, quase que por um milagre, alcançar a cintura de Melina e a puxei por ali, até que viesse de encontro a mim e que suas costas batessem em meu peito. Foi um ato desesperado e um pouco bruto, eu estava vendo aqueles homens enormes nos cercando, encostando nela sem o mínimo cuidado de cruzar sem esbarrar seus corpos (e mãos) em seu corpo. Não tive escolha, na única brecha que encontrei, a trouxe para o meu alcance da melhor forma que consegui.
Travei os meus dois braços em seu corpo, um na altura da cintura e outro pouco acima de seus s***s, bem onde o tecido terminava, usando a palma da minha mão para apertar o tecido do decote contra a sua pele, o subindo mais um pouco e espalhando meus dedos compridos até seu pescoço e evitando que os engraçadinhos que levantavam as suas câmeras para tirarem “inocentes” fotos por outro ângulo, não conseguissem justamente o que queriam.
Não parei para pensar, naquela hora, que o meu toque poderia ser invasivo para Melina, mas minha urgência de tentar protegê-la foi maior do que qualquer outra coisa, me fazendo atuar com irracionalidade.
Quando um deles ameaçou abaixar a câmera, para tirar uma foto naquele ângulo, estando perigosamente perto dos joelhos de Melina e atrapalhando a nossa passagem, não pensei duas vezes antes de soltar a sua cintura e colocar a minha mão sob a lente da câmera.
Estávamos sendo atacados e aparentemente o silencio não seria o suficiente, foi por isso que eu respirei fundo, parando de andar por um segundo e obrigando Melina a fazer o mesmo, já que seu corpo estava colado ao meu, e disse:
—Nos deixem em paz, não vamos dar respostas a vocês. Se tentarem encostar ou tirar fotos por baixo das roupas da minha noiva, mais uma vez, vamos sair daqui direto para a delegacia. Estão construindo provas contra vocês mesmos e essa não é a primeira vez! —Alertei, falando alto, para que todos os fotógrafos que tivessem em volta de nós conseguissem me ouvir.
Não tive muito tempo para reparar no efeito causado pelas minhas palavras, porque assim que as disse, o manobrista surgiu com o carro e nos aproximamos imediatamente dele. Dando passadas conjuntas e sincronizadas, que permitiam que todo o meu corpo continuasse grudado no dela, tentando a proteger de todos os flashes que estavam há um passo de nos deixar cegos, enquanto ela usava as mãos para tentar abrir o caminho até o veículo.
A guiei até o lado do motorista, abrindo a porta e finalmente deixando que ela distanciasse o seu corpo do meu, mas novamente me colocando como uma barreira entre ela e os fotógrafos, até que entrasse no carro e se ajeitasse, sem correr o risco de tornar o vestido em uma peça comprometedora.
E Melina não usava nada indecente. Não que eu me ache no direito de apontar peças femininas como demasiadamente reveladoras, longe de mim. O que digo é que o vestido de Nina era perfeitamente normal e compatível com o de todos as outras garotas da festa em que estávamos. Ela poderia ter ousado muito mais e ainda assim estaria dentro do padrão imposto e aceito pela sociedade, não que, se tivesse “exagerado”, perdesse o seu direito ao respeito, longe disso. Eu não fazia o tipo de cara que julgava a moral das mulheres pelos tamanhos de sua saia, isso era ridículo.
Cruzei novamente o veículo, me acomodando no carona, ao mesmo tempo que seus amigos voltaram a se aproximar de nós e ocuparam os três brancos de trás. Ethan parecia meio soado e talvez um pouco nervoso com toda aquela confusão que agora atravessava o nosso carro e cegava a nossa visão, com os flashes.
Ouvi os roncos dos motores, quando Melina pisou no acelerador. O carro não se moveu, mas foi o suficiente para assustar os paparazzi, que finalmente abriram passagem para que ela saísse com o automóvel.
Olhei para Nina, logo assim que ela saiu em alta velocidade, e mais do que como falso noivo, perante os seus amigos, mas como uma pessoa que nunca deixou de se preocupar com ela e com a sua integridade física, a perguntei:
—Você está bem?
—As vezes fico um tempo sem ter o desprazer de estar cara a cara com eles, aí me esqueço o quão sufocante é estar no meio de urubus, que só se importam em explorar a nossa imagem.
—Posso dizer que, no tempo em que vivi na Europa, não senti nem um pouco de falta desses carniceiros. —Fui honesto.
—Cara podia ter convidado alguma celebridade, para desviar o foco. —Dominic sugeriu, ele estava sentado atrás de mim, Cara no meio e Ethan atrás do banco de Melina.
—Ela convidou, cartou isso para mim hoje mais cedo, quando decidiu nos convidar de última hora, depois que Tyler chegou.
—E pelo jeito ninguém decidiu ir— Ethan disse, com um sorriso satisfeito no rosto.
—Qual é a dessa garota? Ela é insuportável assim com todo mundo ou vocês tiraram a sorte grande? —Perguntei para todos, mas com o olhar direcionado para Melina ao meu lado.
—Ela acha que é poderosa, só porque o pai dela é reitor da universidade— Ethan explicou exatamente o que Nina já havia me dito.
—Eu te falei— ela deu de ombros, ao meu lado— Barbara pensa que nasceu com o rei na barriga.
—Para falar a verdade, eu nem queria ir nessa festa. Só vim porque Dom encheu muito o meu saco, não sei o que ele queria tanto fazer aqui. —Ethan nos contou.
—As vezes acho que ele tem um crush em Barbara. —Minha falsa noiva expos a sua opinião.
—Seria bem autodepreciativo da parte dele, algo como Síndrome de Estocolmo— Cara disse, rindo. Ela parecia um pouco incomodada com a hipótese levantada, mas eu não sabia se era coisa da minha cabeça, afinal, não sabia nada sobre ela para identificar incomodo em sua expressão.
—Bem, agora que nós já nos livramos de uma, o que vamos fazer? —Cara quem questionou a Nina, que era a responsável por nos transportar até algum lugar.
—Estava pensando em algo mais tranquilo, uma pizzaria, talvez...
—Por mim, parece ótimo! —falei.
—Vocês são tão sem graças, deveríamos estar indo para uma balada, fazendo uma despedida de solteiro para vocês dois.
—Os deixem em paz, criatura. Passaram tanto tempo afastados que tenho certeza que, se for para se esfregar em alguém, eles querem fazer isso um com o outro— Dominic expos a sua opinião e, bem, com toda aquela sua pose de galã, ele havia me imposto um pouco de medo, mas agora ele me parecia legal e, mais do que isso, eu tinha gostado de sua sugestão.
Não que eu quisesse me esfregar em Nina, mas também não tinha vontade de fazer isso com nenhuma outra mulher, principalmente pensando que eu me casaria em menos de uma semana. Não me parecia algo justo e legal de se fazer.
—Eu já os dei a tarde inteira, não é o suficiente? Poderão se tornar coelhos e se reproduzir aos montes, depois do casamento.
—Quem está colocando crianças na história é você, não eu! —Nina disse a sua melhor amiga, que riu sozinha.
—Sabe de uma coisa? Eu nunca desconfiei que você seria capaz de inventar uma mentira astronômica, como todos diziam por aí, Nina. Mas eu pensava sim que, quando você e seu noivo “sem identidade” se encontrassem, vocês iriam ficar se agarrando o tempo todo e sem querer desgrudar um do outro. —Ethan disse e eu achei uma constatação bem válida, porque como amigo de Melina, pessoa de confiança, ele jamais faria algo contra nós e desconfiaria de uma mentira tão grande, por parte dela. Então ele foi a pessoa certa para nos alertar sobre os detalhes, talvez não estivéssemos enganando tão bem assim e poderíamos gerar desconfiança em pessoas que não confiam em nós.
—Está dizendo que não somos carinhosos, um com o outro? —ela perguntou, meio que na defensiva.
—Não é isso, eu só quis dizer que, pela saudade, imaginava que vocês estariam desesperados. Vocês me parecem bem equilibrados.
—Acho que, como o nosso relacionamento só se desenvolveu para além da esfera da amizade, quando já não morávamos mais no mesmo país, aprendemos a levar ele de uma forma mais “fria”, fisicamente falando, para que não sofrêssemos tanto com isso. Vamos aprender a lidar com os contatos físicos constantes, mas essa falta de limitação é algo novo para nós— tentei dar a minha melhor desculpa.
—Credo, vocês falaram como se estivessem esperando até o casamento— Cara fez uma careta e riu.
—Você sabe muito bem que isso não faz o mínimo sentido. Só estamos acostumados com dia a dia mais individuais, por conta da distância. Quando estávamos juntos, não colocávamos nem o pé na calçada, para aproveitar todo o tempo que tínhamos. Talvez essa seja a diferença, a rua, os fotógrafos, as pessoas em volta, mesmo as que temos i********e. Nosso relacionamento sempre foi muito privado, nós dois durante as férias e, fora dela, o celular era a nossa terceira parte. Precisamos aprender que é normal expor nossos sentimentos na frente dos outros, mas não é como se fossemos ficar nos agarrando na frente de vocês. —Nina também forneceu uma boa explicação para a nossa aparente falta de tato (que eu nem pensava ser tanta assim) e nosso aparente embaraço com os corpos adultos desconhecidos um do outro, mas que precisam fingir que são familiarizados, pelo menos nos poucos encontros anuais que acham que tivemos.
—Não há com o que se preocuparem. Nos amamos o suficiente para aprendermos a viver com a distância e agora não é diferente, vamos nos reconectar e entrar em uma nova rotina— sorri para ela, colocando a minha mão por cima da sua, no câmbio.
—Então eu aposto as minhas fichas que vocês conseguiram m***r essa saudade, enquanto estavam sozinhos, já que estão tão tranquilos— Cara sugeriu.
—Na verdade, hoje senti pela primeira vez como se estivéssemos fazendo um teste drive da vida de casados. Quando nos encontrávamos antes, tudo era festa, tudo era imediato e temporário, estávamos sempre tentando adiar os dias para não precisarmos nos separar mais uma vez. E bem, isso agora não precisará mais acontecer, então acho que estamos tranquilos, leves, calmos e felizes— ela explicou, mais uma vez muito bem.
—Não adianta, Cara! Você pode tentar o quanto quiser, mas acho que não vai conseguir arrancar deles os detalhes do s**o ardente que devem ter feito agora a pouco. —Dominic sugeriu para a garota.
—Pior que é verdade, eles chegaram super atrasado— ela afirmou, parecendo só ter ouvido aquela parte. Ri sozinho, aquela era uma baita de uma mudança na dinâmica da minha vida.