A manhã havia começado de forma igual às outras. Os raios de sol fracos e tímidos m*l atravessavam as cortinas, e a casa, apesar de ter os móveis novos, ainda carregava um clima pesado, como se não conseguisse se livrar de seus antigos fantasmas. A sala de jantar estava silenciosa, exceto pelos barulhos dos talheres e os suspiros abafados dos meus pais. Era difícil acreditar que, depois de tanto tempo, ainda não havia paz entre eles.
— Megan, não quero ver isso na sua gaveta. — Meu pai disse, olhando fixamente para a xícara de café em suas mãos, como se a culpa fosse do simples ato de tomar o café da manhã.
— Eu não estou fazendo nada de errado! Só porque você não gosta do que faço... — Minha mãe retrucou, tentando se manter calma, mas sua voz soava tensa e cheia de frustração.
Eu suspirei e continuei a mexer no meu café, não me importando muito com a briga deles. Já estava acostumada. Eles sempre discutiam, sempre trocavam farpas. Em nenhum momento me senti parte de uma família unida. Quando finalmente consegui terminar minha refeição, peguei o celular e enviei uma mensagem para Laura.
“Oi, Laura! Você tem algum plano para hoje? Eu realmente preciso sair de casa.”
Fiquei esperando por uma resposta, e logo meu celular vibrou.
“Claro! Vem para minha casa, a gente pode conversar um pouco. Estou sozinha. Me avise quando estiver indo.”
A ideia de sair de casa e ter um tempo para mim me animou um pouco. Eu queria um respiro, algo que me tirasse daquela atmosfera sufocante.
Peguei minhas coisas e, sem dizer nada aos meus pais, saí pela porta dos fundos, ignorando as olhadas fulminantes deles. A rua estava quieta, como sempre. Fui até a casa de Laura, que não era tão distante. Quando cheguei, ela me recebeu com um sorriso caloroso e me fez entrar.
— Senta aí, você parece precisar de uma boa conversa. — Laura disse, me puxando para o sofá.
Nos sentamos e começamos a falar sobre tudo: a faculdade, as aulas, os novos colegas, mas logo a conversa ficou mais pessoal.
— Eu estava pensando... Você já me falou do seu irmão, o Pedro, mas... como ele é? Quero dizer, ele deve ser bem legal por ser tão sério no trabalho, né? — Perguntei, com curiosidade, tentando entender um pouco mais sobre a vida dela.
Laura sorriu e se acomodou na cadeira, parecendo pensar nas palavras antes de falar.
— Ele é... diferente. Muito mais sério do que eu, às vezes. Mas tem um bom coração. Só que o trabalho dele, né... é muito pesado, envolve muita coisa que eu prefiro não saber. Mas ele sempre me protege de alguma forma, até quando não entendo o que ele está fazendo. Ele... olha, não sei se ele vai gostar muito de você, mas se ele perguntar algo, não se assuste, tá?
Antes que eu pudesse perguntar mais, a porta se abriu, e um rapaz entrou. Ele tinha um ar misterioso, com uma presença quase imponente, e um olhar intenso, mas amigável. Era Pedro, o irmão de Laura. Ele sorriu quando nos viu.
— Olá, você deve ser a Megan, né? Eu sou o Pedro, prazer em te conhecer. — Ele se aproximou e me cumprimentou com um aperto de mão firme. Havia algo no jeito dele, uma espécie de interesse que parecia ultrapassar o simples fato de ser o irmão de Laura. Ele me estudava com mais atenção do que eu esperava.
— Prazer, Pedro. — Respondi, tentando parecer à vontade. — Laura me falou um pouco sobre o seu trabalho. Deve ser muito complicado.
Ele assentiu, um sorriso enigmático no rosto.
— Ah, é um trabalho... interessante. Muitas situações diferentes. Mas... me conte mais sobre você. Como tem sido sua adaptação aqui? Com quem você tem se relacionado? — Ele perguntou de forma quase casual, mas havia um toque de curiosidade no tom de sua voz, como se ele realmente quisesse saber sobre meus contatos, quem eu estava conhecendo, com quem eu andava.
Fiquei desconfortável com a forma como ele parecia me analisar, mas tentei manter a calma.
— Ah, eu estou tentando me adaptar. Estou na faculdade, conhecendo algumas pessoas. Não é fácil, mas estou lidando. — Respondi, tentando ser o mais vago possível.
Pedro parecia satisfeito com minha resposta, e depois de mais alguns minutos de conversa, ele se despediu com uma expressão distante, como se tivesse algo em mente.
— Foi bom te conhecer, Megan. — Ele disse, antes de sair pela porta. Eu fiquei olhando em silêncio enquanto ele ia embora, algo no seu comportamento me deixando inquieta.
Depois de algum tempo, voltei para casa. A casa estava silenciosa, o que não era uma surpresa, mas algo naquele silêncio me incomodava. Subi para o meu quarto e, quando olhei pela janela, algo chamou minha atenção. Do lado da casa de Emily, vi Luke, o irmão dela. Ele estava agachado, cavando algo no quintal. Seus movimentos eram rápidos e determinados, como se estivesse escondendo algo. Minha respiração ficou presa na garganta quando percebi que ele estava cavando uma cova, o buraco era profundo, com uma forma que não parecia natural.
Meu corpo congelou. O que ele estava fazendo?
De repente, eu me inclinei para olhar melhor e derrubei alguma coisa no chão. Ele olhou diretamente para a minha janela, e, por um instante, senti um calafrio percorrer minha espinha. Ele me viu? Eu me abaixei rapidamente, meu coração batendo forte demais. O silêncio tomou conta do ambiente, mas algo na minha mente dizia que aquilo era algo muito errado.
Ele estava enterrando algo... ou alguém? Meu pânico cresceu, mas eu não consegui gritar. O que estava acontecendo ali? E o que eu estava fazendo me metendo com pessoas tão estranhas, tão... sombrias?
A sensação de estar observando algo que não deveria me consumiu, e eu não sabia mais o que pensar.