Anna...
Acordei muito ansiosa, hoje vou à ONG e não sei como vai ser se vou me encontrar com Karl, estou completamente perdida neste sentimento, mas tudo que eu realmente queria era tirá-lo do meu coração. Preciso me concentrar e não posso deixar de ir à ONG pois as crianças estão evoluindo tão bem, por isso o melhor é procurar saber melhor como são as visitas de Karl e evitar ao máximo encontrar com ele, para o meu bem.
O meu dia hoje vai ser muito corrido, preciso-me concentrar em tudo que tenho que fazer, tenho estágio agora pela manhã, então tenho que me organizar e me concentrar nos meus atendimentos, este último período na faculdade tem sido um desafio, já estou realizando alguns atendimentos supervisionados e não posso passar as crianças a minha ansiedade.
Hoje principalmente atendo a Clara, uma menininha linda de 8 anos, que perdeu a sua mãe num acidente de carro fazem 5 meses e ela não aceita que nunca mais verá a sua mãe. Os meus encontros com ela mexem muito comigo, por isso não posso deixar que outras coisas me abalem, não posso passar nenhuma sensação de tristeza para Clara, pois isso pode prejudicar todo avanço que já tivemos.
Essa não é a área que quero atuar, não consigo lidar com os meus próprios problemas e sem contar que absorvo demais essas dores, mesmo de pessoas que não conheço, mas faz parte do meu estágio, então doou-me ao máximo que posso. Sonho várias vezes com Clara e na dor que ela sente, queria muito poder ajudá-la passar por esse momento, por isso não posso distrair-me. Vou para o trabalho e preciso focar.
O dia passou rápido demais, quando assustei já eram 12:45 horas, preciso correr, o meu horário na ONG começa às 14:00 horas e ainda preciso almoçar. Vou fazer um lanche rápido e vou caminhando para ONG, o bom é que os lugares são perto, então mesmo com tanta correria, consigo respirar. O bom dessa correria é que não tive nem tempo de pensar em Karl, mas dói só até me aproximar da ONG e ouvir o meu nome.
_ Anna!!
Não precisei nem me virar, já sabia que era Karl pela reação do meu corpo ao ouvi-lo me chamar. Senti um arrepio no meu corpo, o meu coração acelerou e as minhas mãos começaram a suar. O meu coração batia tão forte, que parecia que qualquer pessoa poderia ouvi-lo.
_ Oi Anna e então está tudo bem com você?
Karl aproximou-se dizendo e me fazendo congelar.
_Você está pálida mais uma vez Anna, não seria melhor olhar isso? Você pode realmente pode estar doente.
Fiquei sem graça com a percepção de Karl e tentei disfarçar.
_ Não estou doente é que estou sempre correndo, a minha vida tem sido uma loucura devido à faculdade, estágio, ONG e as vezes m*l tenho tempo de me alimentar.
_Você precisa se cuidar ou vai realmente adoecer.
_Precisei trocar o meu dia para ficar com as crianças para hoje, mas elas não vieram, você foi avisada?
_Ninguém me falou nada, o que houve com elas?
_Nada sério, elas foram levadas para uma atividade fora da ONG, parece que é um projeto novo, ainda não sei muito bem como funciona. Como eles foram avisados em cima da hora, não conseguiram nos avisar.
_Ah, eu entendo. Bom, vou aproveitar então e ir para a faculdade, tenho algumas atividades para pôr em dia.
_Que pena, pensei que pudéssemos conversar um pouco. Ainda quero-me desculpar pelo outro dia. Nos falamos tão pouco, é tão importante assim essas matérias? Podíamos entrar e conversar um pouco.
Não tive como negar aquele pedido, apenas assenti com a cabeça e entramos. Fomos em direção ao espaço de convivência que era o local onde ficávamos com as crianças, um lugar que para mim era mágico, pois sentia todo amor que as crianças tinham, sua pureza, a inocência de cada uma delas. A decoração desse lugar era linda, com vários brinquedos, o espaço era dividido em vários ambientes para que cada criança ficasse onde mais se identificava. Um dos ambientes simulava um jardim e sempre estava florido, tinha um balanço, e eu nem precisava dizer que era esse o meu lugar preferido. Direcionei Karl até o espaço, me sentei no balanço e Karl ficou de pé, me observando. Não conseguia explicar a nossa ligação, era como se já nos conhecemos, Karl me olhava fixamente e tive a sensação de já ter estado ali com ele, de ter vivido aquele momento.
Me desfiz deste pensamento e desculpei-me;
_ Karl, queria-me desculpar, você não faz ideia de como é comum para mim sair trombando em coisas e pessoas, já perdi as contas de quantas vezes isso aconteceu. _ Percebi que ele achou graça por estar tão envergonhada e com um sorriso no rosto apenas me falou;
_ Não precisa se desculpar, eu também estava distraído, parte é minha culpa. Me desculpe também.
Rimos da situação e continuamos conversar, na maior parte do tempo falávamos sobre as crianças, e nem vimos o tempo passar, até que Thyna entrou na sala e se assustou a nos ver ali.
_ Anna! Karl! O que fazem aqui?
_ Oi Thyna, tudo bem? Viemos para ficar com as crianças, mas soubemos somente ao chegar que elas não estariam aqui hoje. Acabamos entrando e ficamos conversando.
_ Anna você viu que horas são? E a sua faculdade?
_ Meu Deus, perdemos completamente a noção do tempo e eu perdi dois tempos da faculdade.
_ Nossa! _ Karl, falou também assustado ao ver como o tempo passou tão rápido.
_ O tempo passou voando realmente nem percebemos que já havia anoitecido.
Fiquei tão desconcertada com a situação, que me despedi o mais rápido que pude e fui embora, sabia que Thyna com o seu faro ia começar a fazer perguntas. Não queria responder nada e muito menos correr o risco de que ela fizesse algum comentário desnecessário sobre Karl.
Como já havia perdido boa parte das aulas, preferi ir para casa, chamei um carro pelo aplicativo e agradeci a Deus por ser atendida rápido. Cheguei em casa e nem me permitir pensar no que havia acontecido, concentrei-me no TCC e tentei não pensar em Karl. Sabia que as coisas estavam saindo do controle e que seria impossível controlar o que sentia por ele. Não sei como explicar, mas é como se nos conhecêssemos a muitos anos, por mais que ele me causasse reações inesperadas, estar com ele me trazia em sentimento de saudade, não era um sentimento comum não era como se estivesse acabado de me apaixonar, era como se estivéssemos nos reencontrando, como se já tivéssemos vivido isso antes. Karl mexia com as minhas emoções de uma maneira que não podia explicar.
Eu sempre fui mais contida, nunca fui de paqueras, de aventura, sempre soube que quando sentisse algo por alguém aquele sentimento seria para sempre. Era vista sempre como chata, pois quando saia nunca me interessava por alguém, eu sempre falei que para me envolver com alguém precisaria ter algo mais que um simples rosto bonito, precisava envolver sentimento. E esse sentimento estava crescendo por Karl, não era apenas uma atração, a beleza de Karl me tirava o fôlego, era algo mais. Parecia que o destino quisesse que estivéssemos juntos, era como se eu fosse atraída para ele. E esse sentimento estava tomando proporções que me deixavam com medo.
Depois daquele dia, não consegui mais evitá-lo, passamos a conversar sempre, as crianças adoravam nos ver juntos e passamos a fazer em conjunto as atividades na ONG. Karl tinha pelas crianças o mesmo carinho que eu e isso me fazia admirá-lo ainda mais. Era paciente, cuidadoso e isso me fazia sonhar acordada, certo dia imaginei até como seria ter uma família com ele.
Apesar de conversarmos bastante, ainda sabia muito pouco sobre ele, quase não conversávamos sobre a sua vida pessoal. Sabia que ele havia servido o exército, que seguiu carreira militar e que estava estudando para subir de patente. Morava com a sua mãe e uma avó, ele havia perdido um irmão, mas não entrou em detalhes sobre o motivo. Mas percebi que essa perda trazia muita dor para ele, e parecia sentir até mesmo uma culpa. Mas como ele não quis entrar em detalhes, não perguntei mais nada. Nunca falamos sobre relacionamentos, nos tornamos amigos e apesar de tudo que sentia por ele, era suficiente para mim. Preferi não me envolver mais, nos víamos apenas na ONG, apesar de algumas vezes Karl ter me chamado para almoçar ou dar um passeio, nunca aceitei, sempre usei como desculpa o meu TCC e ele parecia aceitar.
Passaram três meses desde que começamos a conversar e sempre nos encontrávamos na porta da ONG para iniciarmos juntos, os trabalhos com as crianças. Certo dia enquanto entrávamos o telefone de Karl tocou e percebi que naquela ligação tinha a resposta que há alguns meses eu esperava. Karl pediu licença e afastou-se um pouco para atender, mas pude ouvir quando ele falou o nome Liana. Sabia que não era sua mãe, pois o seu nome era Sandra e o nome da sua avó era Neide, também sabia que não tinha irmã e pela reação de Karl percebi que Liana era alguém importante na sua vida, pela forma que ele falava com ela e apesar de sentir um peso nos seus olhos. Apesar de esperar que Karl tivesse alguém, foi difícil para mim e não sabia se poderia esconder dele a decepção. Por isso acabei entrando na sala antes que Karl pudesse ver a minha expressão, iniciei as atividades com as crianças do meu grupo separadamente e evitei qualquer contato. Ao final do dia, apenas me despedi sem dar nenhuma explicação. Não podia deixá-lo perceber a minha chateação. Sabia que não existia nada entre nós e Karl nunca esboçou nenhum interesse, nunca falou nada que pudesse dar a entender sobre os seus sentimentos, mesmo assim o que eu sentia por ele só aumentava. A possibilidade de Karl ter alguém na sua vida era o suficiente para me afastar, sempre soube que não me faria bem esse sentimento e agora sabendo que ele tem alguém é um motivo maior para me obrigar a esquecê-lo.
Como fiquei afastada de Karl sem ao menos explicar o motivo, Karl me ligou várias vezes, mas não atendi as suas ligações. Ele insistiu algumas vezes, até que optou por enviar uma mensagem perguntando por que havia ido embora daquela forma e se estava tudo bem. Vi a mensagem, mas não respondi naquela hora. Mais tarde, recebi outra mensagem;
_Está tudo bem Anna, fiquei preocupado com você. Quando puder me liga.
_Estou preocupado, aconteceu algo?
Percebi que não poderia deixá-lo sem resposta e apenas falei que estava tudo bem.
_ Oi Karl, está tudo bem, não se preocupe.
Após a resposta ele não insistiu mais.
Pela manhã, fui até a ONG e avisei que precisaria mudar o dia com as crianças, aleguei alteração nos horários da faculdade, mas o que eu queria era não encontrar mais com Karl. Alguns dias se passaram e Thyna percebeu que alguma coisa aconteceu, tentou conversar, mas me limitei a dizer que estava tudo bem e a fiz prometer não falar nada com Karl.
Segui, sem tentar saber o que Liana era de Karl, tinha que me manter afastada, não podia deixar o que sentia por ele me dominar. Aquele momento era perfeito para cortar o m*l pela raiz.