Capítulo 6

1609 Palavras
Scarlett Acordo antes do sol, como faço todas as manhãs, temendo o dia que se inicia. A casa está silenciosa, tranquila, e saboreio esses momentos fugazes de paz antes da tempestade começar. Cuidadosamente, saio da cama, tentando não perturbar. A forma adormecida de Patrick ao meu lado. Vou até a cozinha, acendo as luzes e semicerro os olhos enquanto meus olhos se adaptam. A cozinha não mostra sinais do temperamento volátil de Patrick da noite anterior. Afasto a familiar pontada de ansiedade e começo a preparar o café da manhã. Enquanto quebro os ovos em uma tigela, minha mente se dirige ao encontro inesperado com Dylan ontem. Vê-lo novamente depois de todos esses anos despertou um turbilhão de emoções que eu pensava ter enterrado há muito tempo. A raiva, a mágoa, o amor — tudo volta à tona. Agarro a borda do balcão enquanto a tristeza me domina. Tristeza pelo que eu poderia ter tido se Dylan tivesse cumprido sua promessa. Por que eu tive que esbarrar com ele? Minha vida já era desafiadora o suficiente sem o contraste entre o jeito romântico e gentil de Dylan e o humor instável de Patrick. Lembro-me de que Dylan mudou de ideia. Ele tinha combinado de me mandar embora. Não havia nada de romântico nisso. Respiro fundo e me forço a me concentrar. Preciso preparar o café da manhã antes que Patrick e Daniella acordem. Desagradá-lo não é uma opção. Enquanto bato os ovos, sinto uma dor familiar no peito. Minha filha merece muito mais do que essa vida de andar em ovos, sem nunca saber quando o temperamento de Patrick vai explodir. Mas que escolha eu tenho? Estou presa, tanto pelos meus próprios medos quanto pelas ameaças que Patrick me fez. A ideia de ele machucar Daniella me dá um nó no estômago. Não posso arriscar, por mais que eu deseje me libertar. Com o coração pesado que carrego diariamente, continuo minha rotina matinal, preparando o prato do Patrick e atenta a qualquer sinal de movimento no andar de cima. O dia está apenas começando, mas já me sinto exausta. Estou colocando o prato na mesa quando ouço seus passos pesados descendo as escadas. Me preparando, viro-me para encará-lo. — Bom dia, querida — ele diz, com a voz estranhamente suave. Ele atravessa a sala e me dá um beijo na bochecha, me fazendo estremecer involuntariamente. — Patrick — respondo cautelosamente, buscando em seu rosto qualquer sinal da raiva que o consumiu na noite passada. — O café da manhã está pronto. — Maravilhoso. Ele se senta à mesa. — Obrigado, Scarlett. Fico ali, perplexa. Não é que ele nunca seja assim. Quando o conheci, ele era gentil e calmo. Mas quatro anos de casamento me ensinaram a não confiar nele. Essa mudança repentina de comportamento me perturba mais do que seu descontrole anterior. Daniella entra na cozinha, com o rostinho marcado pela apreensão. Ela lança um olhar cauteloso para Patrick e depois para mim. Meu coração dói ao ver o medo em seus olhos. Isso não é jeito de uma criança viver. — Bom dia, Dani — diz Patrick, lançando um sorriso para Daniella que não alcança seus olhos. — Venha, sente-se e tome seu café da manhã. Daniella hesita, depois se move lentamente até a cadeira, sem tirar os olhos dele. Eu observo a interação, sentindo meu próprio desconforto crescer a cada segundo. Que jogo Patrick está jogando? — Scarlett, por que você não se junta a nós? — Patrick gesticula para a cadeira vazia ao seu lado, com um falso ar de naturalidade. — Gostaria que tomássemos um bom café da manhã em família. Engulo em seco, a garganta seca de repente. Um bom café da manhã em família. Isso é um teste. Fico tensa, sabendo que qualquer pequeno erro pode significar fracasso aos olhos de Patrick. Só ele sabe o que, de fato, significa um bom café da manhã em família — e eu não tenho como adivinhar qual detalhe insignificante será suficiente para despertá-lo. Coloco o prato de Daniella diante dela. — Vou precisar fazer mais. Só preparei o suficiente para você e para a Daniella . A expressão de Patrick escurece por um instante — um piscar de olhos — e eu me preparo para a explosão que nunca é verbal, mas sempre vem. Mas então, como se nada tivesse acontecido, ele sorri. Um sorriso calmo demais. Frio. — Pegue seu café e sente-se conosco — diz ele, dando um tapinha leve na cadeira. Relutantemente, puxo-a e me sento, o corpo tenso, músculos em alerta. pronta para reagir ao menor sinal de ameaça. Quando Patrick estende a mão para segurar a minha, luto contra a vontade instintiva de recuar. O desconforto é palpável. Seja lá qual for o jogo que ele esteja jogando, sei que não tem um final feliz para mim. Sento-me rígida à mesa. Daniella belisca a comida em silêncio. Finalmente, Patrick termina sua refeição e se levanta, passando atrás de mim e pousando um tapinha condescendente no meu ombro. — Estava delicioso, querida. Obrigado. — Ele então se vira para Daniella, com o semblante ligeiramente mais sério: — Comporte-se bem hoje. Volto à noite. E com isso, sai da cozinha, deixando para trás apenas silêncio. Um silêncio pesado. Assim que ouvimos a porta da frente se fechar, Daniella se vira para mim com uma expressão confusa: — Ele foi legal hoje. Assinto com a cabeça, forçando um sorriso, querendo que ela se sinta segura, querendo acreditar que isso possa significar algo. Mas sabemos — ela e eu — que isso não vai durar. Os olhos dela me observam com intensidade, como se buscassem coragem em mim. — Às vezes eu queria não ter que morar com ele. Eu também, minha querida. — Somos uma família. A expressão dela se fecha de imediato, e sei que a decepcionei. Quanto tempo levará até que esse desapontamento se transforme em ressentimento? Estou falhando com a minha filha. Não consigo protegê-la — não ainda. Eu a puxo para um abraço apertado, e seus bracinhos me envolvem com força. Por ora, tudo o que posso oferecer é o calor dos meus braços. E espero, contra todas as esperanças, que um dia eu encontre forças para realmente libertá-la disso. — Aposto que meu pai verdadeiro seria mais legal. Fecho os olhos, e a imagem de Dylan se forma imediatamente em minha mente. Oito anos atrás. Eu era tão jovem, tão ingênua. Apaixonei-me por Dylan Torello com uma intensidade absurda. Seu charme, sua paixão, sua promessa de amor eterno — tudo isso me envolveu como uma tempestade. Falávamos de futuro, de fuga, de resistir ao estigma da família mafiosa dele. De sermos só nós dois. Então, tudo desmoronou. Descobri que estava grávida. E antes que eu pudesse sequer contar a ele, o pai de Dylan — o temido Don Torello — soube. Ele agiu rápido, implacável. Ofereceu uma quantia substancial aos meus pais para me tirarem dali. Levaram-me para longe. Levaram minha vida. Rezei para que Dylan viesse me buscar, para que enfrentasse o pai e lutasse por nós. Mas ele não veio. Não disse nada. Porque, no fundo, talvez não quisesse. Comprometer-se comigo era uma coisa. Criar um filho... era outra. — Quem é ele? Por que ele não está aqui? Não é a primeira vez que Daniella pergunta sobre o pai. E eu ainda não sei como responder sem mentir. — Ele não pode estar, meu amor. É verdade. Ou quase. Ele fez uma escolha. E agora, nós é que temos que lidar com isso. Vi Dylan ontem. Ele não perguntou sobre ela. Talvez não tenha tido tempo — ou talvez nem tenha pensado nisso. Será que vamos nos encontrar de novo? E se ele perguntar por ela agora? A ideia me enche de pavor. Por que ele a desejaria agora se a rejeitou antes? Mas, apesar de tudo, por mais que eu o culpe, Dylan me deu a única coisa boa da minha vida: Daniella . E por isso, serei eternamente grata. Quando ela termina o café e se veste, saímos para o ar fresco da manhã. Daniella caminha ao meu lado, sua mãozinha entrelaçada na minha. Não consigo deixar de me surpreender com o quanto ela cresceu. Parece que foi ontem que ela cabia inteira nos meus braços, frágil e dependente. Agora, ela é viva, cheia de perguntas — e dores que não deveria ter. Chegamos à escola. Dou-lhe um abraço apertado e sussurro um "tenha um bom dia". Observo enquanto ela entra, saltitante, até desaparecer entre os outros alunos. E então, volto para casa. Mas paro no meio do caminho. Congelo. Um carro preto e elegante está estacionado na nossa garagem. Meu coração dispara. Não há razão para achar que seja o Dylan. Mas é nele que penso. Sempre é. Subo a calçada com passos hesitantes. A porta do carro se abre. E então, ele aparece. Dylan. Minha respiração se prende — pânico e outra coisa que me recuso a nomear. Ele sorri ao me ver, e tudo dentro de mim grita para correr. Mas eu fico. Seu cabelo escuro está perfeitamente arrumado. Os olhos, tão intensos quanto antes, percorrem meu corpo com familiaridade. O modo como ele se move — confiante, predador, irresistível — me atinge como um golpe. Ele ainda é devastadoramente lindo. Lembranças nos invadem. Beijos, promessas, lágrimas. A dor. E ainda assim, meu corpo reage como se nada tivesse mudado. — Scarlett. A voz dele é baixa, firme. Os lábios se curvam em um sorriso devastador, e eu sinto o chão sob meus pés vacilar. Estou tão impotente agora quanto estive naquele verão. E o pior: ele sabe disso.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR