Capítulo 9

1115 Palavras
O Que Precisa Ser Dito Alice sabia que aquela conversa não podia mais ser adiada. Desde que Olyver se instalara em sua casa — silencioso, atento, decidido a ficar — algo dentro dela se mantinha em constante alerta. Ele não invadira seu espaço fisicamente, não ultrapassara limites visíveis, mas sua presença preenchia cada cômodo, cada pensamento. Era impossível fingir normalidade quando o passado respirava entre eles. Ela estava sentada no sofá, com uma almofada apoiada nas costas, tentando manter a postura que o médico recomendara. Olyver estava na cozinha, mexendo em algo simples para o jantar, como se aquela rotina improvisada pudesse, de alguma forma, organizar o caos que haviam criado. — Olyver — chamou, a voz baixa, mas firme. Ele apareceu na porta da sala imediatamente. — O que foi? Você precisa de alguma coisa? — Preciso conversar — disse ela. — Com você. Olyver parou. O semblante mudou no mesmo instante. Não era surpresa. Ele sabia que aquele momento viria. Apenas não sabia quando — nem se estava preparado. — Claro — respondeu, puxando a cadeira da mesa pequena e sentando-se de frente para ela. — Pode falar. Alice respirou fundo. O coração bateu mais rápido, e ela levou a mão ao peito instintivamente, controlando o ritmo como aprendera. — Eu sei que você quer ficar aqui — começou. — Sei que você acha que está fazendo o certo. Mas antes de qualquer coisa… nós precisamos falar sobre o que aconteceu. Olyver não desviou o olhar. — Eu sei — disse ele. — E eu não vou fugir disso. Ela assentiu levemente. — Não é só sobre aquela noite — continuou. — É sobre tudo o que ela tirou de mim. O silêncio se aprofundou. — Você foi meu primeiro beijo — disse Alice, a voz controlada, mas carregada de algo quebrado. — Minha primeira experiência. Eu nunca tive nada antes de você. Nunca escolhi isso. Nunca dei permissão para nada. Olyver sentiu o ar lhe faltar por um instante. Aquela informação o atingiu com uma força que ele não esperava — não por surpresa, mas pelo peso da responsabilidade que se tornava ainda mais brutal. — Eu sei que isso não muda o que aconteceu — ela prosseguiu. — Mas muda o que ficou. Muda o tamanho da ferida. Ela o encarou então, e havia algo naquele olhar que fez Olyver se sentir pequeno como nunca antes. Não era ódio. Era dor crua, exposta, sem proteção. — Tudo o que eu tinha… foi tirado de mim naquela noite — disse ela. — Minha confiança. Meu controle. Meu corpo. Minhas escolhas. Olyver abaixou a cabeça. — Não há nada que eu possa dizer que apague isso — respondeu, a voz rouca. — Nada que eu faça vai devolver o que eu tirei de você. — Então não tente — disse Alice. — Não tente compensar ficando aqui como se isso resolvesse. Não tente agir como se pudesse proteger agora algo que você destruiu antes. Ele levantou os olhos lentamente. — Eu não fico aqui para compensar — disse. — Eu fico porque você não pode ficar sozinha. Porque sua saúde é frágil. Porque o médico deixou claro. Porque existe uma criança que depende disso. — E eu entendo isso — respondeu ela. — Mas preciso que você entenda outra coisa. Ela fez uma pausa, respirando fundo. — Você não tem direito a ocupar todos os espaços da minha vida agora — disse. — Nem emocionalmente, nem fisicamente. Cuidar não é o mesmo que invadir. Olyver assentiu. — Me diga o que você precisa — pediu. — Eu faço. — Eu preciso de limites — respondeu ela, sem hesitar. — Preciso saber que posso fechar a porta do quarto sem você se aproximar. Que posso chorar sem você tentar consertar. Que posso ficar em silêncio sem você interpretar como permissão. — Você tem isso — disse ele imediatamente. — Eu prometo. — Promessas não significam muito para mim agora — disse Alice, com honestidade. — O que significa é ação. Respeito constante. Distância quando eu pedir. Ele respirou fundo. — Então vamos estabelecer isso agora — disse. — Eu fico no sofá. Não entro no seu quarto. Não toco em você. Não levanto a voz. Não tomo decisões sem te consultar. E se em algum momento você quiser que eu vá embora… eu vou. Alice o observou por longos segundos. — E o trabalho? — perguntou. — Porque isso também pesa. — Você não volta enquanto o médico não liberar — respondeu ele. — Seu salário será mantido. Não como favor. Como obrigação minha. E, se você decidir não voltar nunca mais… eu aceito. — Aceitar não apaga responsabilidade legal — disse ela, firme. — Eu sei — respondeu. — E não vou me esconder disso também. O silêncio voltou a se instalar, diferente dos anteriores. Menos pesado. Mais real. — Eu não sei se um dia vou conseguir olhar para você sem lembrar daquela noite — disse Alice. — Não sei se vou conseguir separar o pai do meu filho do homem que me machucou. — Eu não espero isso — respondeu Olyver. — Não espero perdão. Nem proximidade. Só… verdade. Ela assentiu lentamente. — Então a verdade é essa — disse. — Eu estou aqui porque preciso. Não porque confio. Não porque quero. E isso pode mudar. — Eu aceito — respondeu ele. Chad apareceu novamente, subindo no sofá ao lado de Alice. Ela passou a mão em seu pelo, buscando ancoragem. — Se você ultrapassar qualquer limite — disse ela — eu vou embora. Mesmo grávida. Mesmo doente. — Eu acredito em você — disse Olyver. — E não vou testar isso. Ela respirou fundo, sentindo um leve cansaço se espalhar pelo corpo. — Essa conversa me esgotou — disse. — Preciso descansar. — Claro — respondeu ele, levantando-se. — Vou terminar algo leve para você comer e depois fico em silêncio. Antes de se virar, ele parou. — Alice… — chamou. Ela o olhou. — Eu sei que fui o começo da sua dor — disse ele. — E isso é algo que vou carregar para sempre. Mas eu não vou permitir que você carregue isso sozinha agora. Mesmo que tudo o que eu possa fazer seja respeitar seus limites… eu vou fazer isso. Ela não respondeu. Quando ele se afastou, Alice fechou os olhos, sentindo o coração bater forte, mas estável. A conversa fora dolorosa. Necessária. Nada estava resolvido — talvez nunca estivesse. Mas, pela primeira vez desde que ele entrara em sua casa, ela sentiu algo diferente do medo. Sentiu que sua voz tinha sido ouvida. E, naquele momento, isso era tudo o que ela precisava para continuar.
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