Pré-visualização gratuita Capítulo 1
Senhorita Madson
Alice Madson estava no mesmo prédio há três anos. Todos os dias, no mesmo horário, atravessava as portas de vidro do Grupo Blayck com passos firmes, postura impecável e uma expressão neutra que poucos conseguiam decifrar. Não era frieza — era disciplina. Uma qualidade que aprendera ainda nos tempos em que trabalhava para o patriarca da família, Otto Blayck.
Otto fora um homem rígido, metódico, exigente. Com ele, Alice aprendera que pontualidade não era virtude, era obrigação. Que silêncio, muitas vezes, dizia mais do que palavras. Que uma secretária não era apenas alguém que atendia telefonemas, mas a guardiã da rotina, da ordem e, muitas vezes, dos segredos de uma empresa inteira.
Quando Otto se aposentou e o comando passou para o filho, Olyver Blayck, muitos apostaram que Alice pediria demissão. Afinal, Olyver era tudo o que o pai não fora.
Mais jovem, carismático, conhecido nos corredores e fora deles como alguém que não recusava um r**o de saia, Olyver Blayck carregava fama antes mesmo de entrar numa sala. Funcionárias novas cochichavam, algumas se encantavam, outras se incomodavam. Alice… observava.
Ela sabia. Sempre soube.
Mas nunca se meteu.
— Senhorita Madson — a voz grave de Olyver ecoou do outro lado da porta do escritório principal. — Pode entrar, por favor.
Ela respirou fundo uma única vez antes de abrir a porta. Era um gesto quase imperceptível, automático, como alinhar os ombros antes de uma batalha silenciosa.
— O senhor chamou, senhor Blayck? — perguntou, já com o tablet em mãos.
O tratamento nunca mudou.
Nunca mudaria.
Olyver estava sentado atrás da mesa larga de madeira escura, a gravata frouxa, o paletó jogado na cadeira ao lado. A luz da manhã entrava pelas janelas amplas, destacando o contraste entre o ambiente sofisticado e o jeito despreocupado do homem que comandava tudo aquilo.
— Preciso que reagende a reunião com os acionistas. E… — ele fez uma pausa, observando-a por um segundo a mais do que o necessário. — Cancele meus compromissos depois das seis.
Alice não ergueu os olhos. Apenas digitou.
— Algum motivo específico, senhor?
— Pessoal.
— Entendido.
Ela nunca perguntava além do necessário. Nunca comentava. Nunca julgava. E isso, ironicamente, era uma das coisas que Olyver mais respeitava nela — mesmo que raramente admitisse.
Enquanto ela falava sobre prazos, contratos e relatórios, ele a observava. Alice Madson não era chamativa. Mas havia algo na forma como se portava, na maneira organizada como controlava o caos ao redor, que a tornava impossível de ignorar.
Saia lápis, blusa clara, cabelos sempre presos de forma simples. Nenhum acessório exagerado. Nenhuma maquiagem marcante. Ainda assim, havia elegância. Uma presença sólida.
— Mais alguma coisa, senhor Blayck? — ela perguntou, encerrando a agenda.
— Não. Obrigado, senhorita Madson.
Ela assentiu e saiu, fechando a porta com cuidado.
Do lado de fora, o escritório seguia em seu ritmo habitual. Telefones tocando, teclados, passos apressados. Alice sentou-se à sua mesa, perfeitamente organizada: nada fora do lugar, nenhum papel solto, nenhuma caneca esquecida.
Ali, ela era indispensável — mesmo que poucos percebessem.
O apartamento de Alice ficava a vinte minutos dali. Pequeno, mas bem distribuído. Tudo tinha um lugar específico, como se sua mente se refletisse no espaço. Tons neutros, poucas plantas, livros organizados por tamanho e gênero.
Assim que ela entrou, foi recebida por um miado exigente.
— Chad, eu sei — disse, tirando os sapatos.
O gato preto surgiu da sala com a dignidade de quem acreditava ser dono do mundo. Chad. O nome fazia alguns sorrirem quando ouviam a explicação, outros achavam estranho. Para Alice, fazia sentido. Ela gostava da banda Nickelback, e isso bastava.
— Você comeu tudo de novo, não foi? — ela murmurou ao olhar o pote vazio.
Chad piscou lentamente, como se confirmasse sem culpa.
Alice sorriu de leve. Em casa, permitia-se isso. Pequenos sorrisos. Silêncios confortáveis. Nenhum jogo de poder, nenhuma formalidade excessiva.
Ela preparou algo simples para jantar, sentou-se à mesa pequena e revisou mentalmente o dia seguinte. Reuniões, relatórios, viagens. Tudo sob controle.
Às vezes, se perguntava se queria algo além daquilo.
Mas não se demorava nessas perguntas.
No escritório, os dias seguiam, e a dinâmica entre Alice e Olyver permanecia a mesma: profissional, distante, respeitosa.
Ele entrava com histórias não contadas, saía com compromissos misteriosos. Ela organizava tudo, filtrava ligações inconvenientes, evitava situações desnecessárias.
— Senhorita Madson, mande flores para a senhorita… — ele parou, franzindo a testa. — Esqueça.
— Como desejar, senhor Blayck.
Ela não comentava. Nunca fez.
Mas havia momentos em que o silêncio pesava mais que palavras.
Certa noite, o prédio estava quase vazio quando Olyver saiu de sua sala e encontrou Alice ainda trabalhando.
— Já passou do seu horário — ele comentou.
— Termino em dez minutos, senhor.
Ele hesitou.
— O senhor Otto costumava dizer que você era a melhor decisão que ele já tomou.
Alice ergueu os olhos, surpresa.
— O senhor Otto confiava muito na ordem — respondeu apenas.
— E você é a personificação disso — disse ele, antes de se afastar.
Ela o observou ir, sentindo algo estranho no peito. Não era orgulho. Não exatamente.
Era a sensação de ser vista.
Alice Madson não era parte dos escândalos, das fofocas ou dos jogos de sedução que cercavam o nome Blayck. Ela era o eixo silencioso. A constante.
E, embora nunca chamasse Olyver pelo primeiro nome, embora ele nunca a chamasse de Alice, algo começava a se formar naquele espaço invisível entre senhor Blayck e senhorita Madson.
Algo contido.
Algo perigoso.
Algo que, até então, ambos fingiam não perceber.
E enquanto Chad dormia enroscado no sofá naquela noite, Alice encarava o teto do quarto, pensando que, às vezes, o maior desafio não era manter distância — mas entender até quando ela seria possível.