Capítulo 2

874 Palavras
O Silêncio Depois O relógio marcava quase onze da noite quando Alice Madson salvou o último arquivo. O escritório estava mergulhado em um silêncio pesado, daquele tipo que só existe depois que todos vão embora e o prédio parece respirar sozinho. As luzes de alguns andares já haviam sido apagadas, mas o andar da presidência ainda permanecia aceso. Olyver Blayck não tinha saído. Alice sabia porque a porta do escritório dele continuava fechada, e o copo de café que ela deixara mais cedo permanecia intocado sobre a mesa de apoio do corredor. Não era incomum que ele ficasse até tarde, mas algo naquela noite parecia diferente. Havia um peso no ar. Uma inquietação que ela não soube nomear. Ela se levantou, ajeitou a saia, pegou a bolsa e respirou fundo. Como sempre fazia, decidiu avisá-lo antes de ir embora. Era parte do protocolo. Parte do respeito profissional que mantinha intacto desde os tempos de Otto Blayck. Parou diante da porta. Bateu duas vezes, de forma discreta. Nenhuma resposta. — Senhor Blayck? — chamou, abrindo a porta com cuidado. O que encontrou do outro lado não era o homem de sempre. Olyver estava de pé, mas m*l conseguia se manter. A camisa desalinhada, a gravata solta, o cheiro forte de álcool preenchendo o ambiente. Garrafas vazias repousavam sobre a mesa, algo que Alice nunca tinha visto ali antes. Os olhos dele estavam turvos, distantes, como se não a reconhecessem de imediato. — Senhor… — ela começou, dando um passo para trás. Foi rápido demais. Olyver avançou cambaleante, segurando-a com força. Alice tentou falar, tentou empurrá-lo, tentou se soltar. Seu coração disparou, o corpo inteiro entrou em alerta. Ela repetia o nome dele, pedia que parasse, mas era como se ele não estivesse ali de verdade. Ele estava fora de si. O tempo se fragmentou. Tudo aconteceu rápido demais e, ao mesmo tempo, lento o suficiente para marcar cada segundo como uma ferida aberta. Alice sentiu o próprio corpo deixar de lhe pertencer, como se estivesse observando tudo de fora, incapaz de reagir da forma que sempre acreditou que reagiria. Quando conseguiu se soltar, não soube dizer como. Apenas soube que suas mãos tremiam, que o ar faltava, que algo dentro dela havia se quebrado de forma irreversível. Ela correu. Não olhou para trás. Não ouviu nada além do próprio sangue pulsando nos ouvidos. Entrou no elevador, apertou o botão repetidas vezes, como se aquilo pudesse fazê-lo descer mais rápido. Quando as portas se fecharam, suas pernas cederam, e ela escorregou até o chão frio. O espelho do elevador refletiu uma imagem que ela não reconhecia. Quando chegou ao apartamento, a chave caiu duas vezes antes de conseguir acertar a fechadura. Chad veio ao seu encontro, miando baixo, confuso com o atraso e com o cheiro estranho que ela carregava. Alice não conseguiu olhar para ele. Foi direto para o banheiro. Entrou no box ainda vestida. Ligou o chuveiro no máximo. A água gelada caiu sobre o corpo inteiro, encharcando as roupas, grudando o tecido na pele. Ela esfregava os braços, o pescoço, os cabelos, como se pudesse apagar o que sentia, como se a água fosse capaz de levar embora algo que não era físico. As roupas começaram a se desfazer sob suas mãos trêmulas. Algumas rasgaram. Outras ela simplesmente jogou no chão, sem conseguir pensar. O mundo parecia distante, abafado, como se estivesse submersa. Em algum momento, percebeu que ainda segurava algo. O paletó. O paletó de Olyver Blayck estava enrolado em seus dedos, pesado, escuro, carregando um cheiro que fez seu estômago revirar. Não lembrava de tê-lo pegado. Talvez tivesse sido instinto. Talvez tivesse sido necessidade de fugir levando algo que provasse que aquilo não tinha sido um pesadelo. Ela deixou o paletó cair no chão do banheiro e se agachou, abraçando os próprios joelhos enquanto a água continuava caindo. Não chorou de imediato. O choque era grande demais. Horas depois, já seca, enrolada em um cobertor no sofá, Alice encarava o vazio. Chad estava ao seu lado, silencioso, encostando a cabeça em sua perna como fazia quando sentia que algo estava errado. Ela passou a mão em seu pelo automaticamente. Tudo nela gritava para esquecer, para fingir que nada tinha acontecido. Para ir ao trabalho no dia seguinte, sentar-se à mesa, atender telefonemas, chamar-lhe de senhor Blayck como sempre fizera. Mas algo havia mudado. Ela sentia o corpo estranho. A mente confusa. Um misto de culpa, nojo, raiva e um medo profundo que nunca tinha experimentado antes. Não medo dele apenas — medo do que aquilo significava. Do poder que ele tinha. Do silêncio que a cercava. O apartamento, antes refúgio, agora parecia pequeno demais para conter o que ela sentia. Alice Madson, sempre tão organizada, tão centrada, não sabia o que fazer. E pela primeira vez em muitos anos, ela percebeu que a ordem que tanto prezava havia sido destruída por alguém que jamais deveria tê-la tocado. No chão do banheiro, o paletó permanecia onde ela o deixara. Uma prova muda. Um peso. Um lembrete de que o silêncio, às vezes, machuca tanto quanto o grito. E naquela noite, enquanto a cidade dormia, Alice não dormiu. Ela apenas existiu — tentando entender como seguir vivendo depois de tudo ter sido quebrado.
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