Capítulo 3

1056 Palavras
O Dia em que Nada Foi Normal O dia ainda nem havia clareado quando Alice Madson abriu os olhos. Não tinha dormido de verdade. Apenas fechara os olhos por algumas horas, presa a um estado confuso entre o cansaço extremo e a vigília constante. O corpo doía, não exatamente de uma forma física localizada, mas como se estivesse pesado demais para ser sustentado. Ela ficou deitada, olhando para o teto do quarto, contando as pequenas rachaduras que nunca tinha notado antes. O silêncio do apartamento era interrompido apenas pela respiração tranquila de Chad, enroscado perto de seus pés. Ele parecia perceber que algo estava errado desde a noite anterior, pois não se afastara dela em nenhum momento. Alice levou a mão ao peito e respirou fundo. O trabalho sempre fora sua âncora. Desde o dia em que saíra do orfanato, ainda muito jovem, foi o emprego que lhe deu estrutura, identidade, dignidade. Primeiro pequenos serviços, depois a oportunidade no Grupo Blayck. Otto Blayck lhe dera mais do que um cargo — dera confiança. Ali, Alice aprendera a ser alguém no mundo. Trabalhar para os Blayck não era apenas um emprego. Era a base de sua vida. E justamente por isso, a decisão doía tanto. Ela se sentou devagar na cama. O chão estava frio sob seus pés descalços. Caminhou até o banheiro e encarou o próprio reflexo no espelho. O rosto pálido, os olhos cansados, um olhar que parecia mais velho do que realmente era. — Eu não posso ir — murmurou para si mesma. A ideia de atravessar aquelas portas de vidro, de subir até o andar da presidência, de encontrar Olyver Blayck — mesmo que ele agisse como se nada tivesse acontecido — fazia seu estômago se contrair de medo. E se ele lembrasse? E se não lembrasse? E se tentasse algo de novo? As perguntas se atropelavam, sem resposta. Alice nunca faltara ao trabalho sem um motivo sério. Nunca chegara atrasada. Nunca pedira favores. Mas naquele dia, o simples ato de se vestir para ir ao escritório parecia impossível. Ela pegou o celular e olhou a agenda. Reuniões marcadas, prazos importantes. Tudo que, até poucos dias atrás, teria prioridade absoluta. Dessa vez, não. — Vou ao posto — decidiu em voz baixa. Um atestado lhe daria pelo menos um dia. Um respiro. Um intervalo para pensar. Não era uma solução, mas era o que ela conseguia naquele momento. Vestiu-se com roupas simples, largas, como se quisesse se esconder dentro delas. Antes de sair, olhou rapidamente para o canto do banheiro onde o paletó ainda estava dobrado dentro de um saco plástico. Não teve coragem de jogá-lo fora. Não ainda. Trancou o apartamento e desceu. No posto de saúde, o cheiro de desinfetante e o som baixo das vozes criavam uma atmosfera estranhamente acolhedora. Alice sentou-se, aguardando, com as mãos entrelaçadas no colo. Quando foi chamada, tentou explicar sem entrar em detalhes. — Não estou me sentindo bem — disse. — Tive uma crise de ansiedade… não consegui dormir. A médica a observou com atenção, como se enxergasse mais do que as palavras diziam. Fez perguntas simples, mediu a pressão, ouviu o coração. — Você precisa descansar — concluiu. — Vou lhe dar um atestado por hoje. E, se possível, procure apoio. Ansiedade não é fraqueza. Alice assentiu, sentindo um nó na garganta. Com o papel dobrado na bolsa, ela saiu do posto sentindo uma mistura estranha de alívio e culpa. Alívio por não precisar ir. Culpa por faltar. Uma culpa antiga, quase automática, que não combinava com o que tinha vivido. No outro lado da cidade, Olyver Blayck acordou com uma dor de cabeça violenta. Abriu os olhos com dificuldade, sentindo a boca seca, o estômago embrulhado, o corpo pesado como chumbo. A luz que entrava pelas cortinas do quarto parecia forte demais. Gemeu baixo e levou a mão à testa. — Que inferno… — murmurou. Sentou-se na cama, tentando organizar os pensamentos. A noite anterior era um borrão. Lembrava-se vagamente de ter ficado no escritório, de beber mais do que devia. Um sentimento de raiva misturado com frustração, algo que não conseguia identificar direito. Mas o resto… estava em branco. Levantou-se cambaleando e foi até o banheiro. O reflexo no espelho não ajudou: olhos vermelhos, barba por fazer, expressão cansada. Ligou o chuveiro e deixou a água cair, tentando afastar a dor e o gosto amargo na boca. Algo estava errado. Ele sentia isso, mesmo sem saber exatamente o quê. Quando chegou ao escritório mais tarde do que o habitual, estranhou de imediato. A mesa de Alice estava vazia. Nenhuma xícara de café, nenhum “bom dia” discreto, nenhum som de teclado. — Onde está a senhorita Madson? — perguntou a uma funcionária. — Ela não veio hoje, senhor. Mandou um atestado. Olyver franziu o cenho. Alice nunca faltava. Entrou em sua sala e sentou-se, sentindo um desconforto estranho. Um peso no peito. Olhou ao redor, como se procurasse algo fora do lugar. A lixeira estava vazia. A mesa limpa demais. Foi quando notou a ausência do paletó. Levantou-se abruptamente. — Onde está meu paletó? — perguntou a si mesmo, a memória começando a falhar de forma inquietante. Uma sensação r**m subiu-lhe pela espinha. Não era apenas ressaca. Era algo mais profundo. Algo que seu corpo parecia lembrar, mesmo que sua mente se recusasse. Ele passou o resto da manhã inquieto, incapaz de se concentrar. Chamou Alice duas vezes pelo interfone antes de lembrar que ela não estava ali. E, pela primeira vez desde que assumira o cargo, o escritório pareceu desorganizado demais. Enquanto isso, Alice estava de volta ao apartamento, sentada no sofá, com o atestado sobre a mesa. Chad dormia ao seu lado. Ela olhava para o papel como se fosse frágil demais para segurar o peso do que sentia. Um dia não resolveria tudo. Mas era o primeiro passo. Ela sabia que teria que decidir o que fazer. Denunciar, sair, enfrentar, fugir. Todas as opções pareciam assustadoras. Mas uma coisa estava clara como nunca estivera antes: O que Olyver Blayck fizera era imperdoável. E, independentemente do passado, do orfanato, dos anos de lealdade, do nome que ela carregava no crachá, Alice Madson não era mais apenas a secretária exemplar. Ela era uma mulher tentando sobreviver ao dia seguinte. E naquele dia, sobreviver já era mais do que suficiente.
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