O Dia em que Nada Foi Normal
O dia ainda nem havia clareado quando Alice Madson abriu os olhos. Não tinha dormido de verdade. Apenas fechara os olhos por algumas horas, presa a um estado confuso entre o cansaço extremo e a vigília constante. O corpo doía, não exatamente de uma forma física localizada, mas como se estivesse pesado demais para ser sustentado.
Ela ficou deitada, olhando para o teto do quarto, contando as pequenas rachaduras que nunca tinha notado antes. O silêncio do apartamento era interrompido apenas pela respiração tranquila de Chad, enroscado perto de seus pés. Ele parecia perceber que algo estava errado desde a noite anterior, pois não se afastara dela em nenhum momento.
Alice levou a mão ao peito e respirou fundo.
O trabalho sempre fora sua âncora.
Desde o dia em que saíra do orfanato, ainda muito jovem, foi o emprego que lhe deu estrutura, identidade, dignidade. Primeiro pequenos serviços, depois a oportunidade no Grupo Blayck. Otto Blayck lhe dera mais do que um cargo — dera confiança. Ali, Alice aprendera a ser alguém no mundo.
Trabalhar para os Blayck não era apenas um emprego. Era a base de sua vida.
E justamente por isso, a decisão doía tanto.
Ela se sentou devagar na cama. O chão estava frio sob seus pés descalços. Caminhou até o banheiro e encarou o próprio reflexo no espelho. O rosto pálido, os olhos cansados, um olhar que parecia mais velho do que realmente era.
— Eu não posso ir — murmurou para si mesma.
A ideia de atravessar aquelas portas de vidro, de subir até o andar da presidência, de encontrar Olyver Blayck — mesmo que ele agisse como se nada tivesse acontecido — fazia seu estômago se contrair de medo.
E se ele lembrasse? E se não lembrasse? E se tentasse algo de novo?
As perguntas se atropelavam, sem resposta.
Alice nunca faltara ao trabalho sem um motivo sério. Nunca chegara atrasada. Nunca pedira favores. Mas naquele dia, o simples ato de se vestir para ir ao escritório parecia impossível.
Ela pegou o celular e olhou a agenda. Reuniões marcadas, prazos importantes. Tudo que, até poucos dias atrás, teria prioridade absoluta.
Dessa vez, não.
— Vou ao posto — decidiu em voz baixa.
Um atestado lhe daria pelo menos um dia. Um respiro. Um intervalo para pensar. Não era uma solução, mas era o que ela conseguia naquele momento.
Vestiu-se com roupas simples, largas, como se quisesse se esconder dentro delas. Antes de sair, olhou rapidamente para o canto do banheiro onde o paletó ainda estava dobrado dentro de um saco plástico. Não teve coragem de jogá-lo fora. Não ainda.
Trancou o apartamento e desceu.
No posto de saúde, o cheiro de desinfetante e o som baixo das vozes criavam uma atmosfera estranhamente acolhedora. Alice sentou-se, aguardando, com as mãos entrelaçadas no colo. Quando foi chamada, tentou explicar sem entrar em detalhes.
— Não estou me sentindo bem — disse. — Tive uma crise de ansiedade… não consegui dormir.
A médica a observou com atenção, como se enxergasse mais do que as palavras diziam. Fez perguntas simples, mediu a pressão, ouviu o coração.
— Você precisa descansar — concluiu. — Vou lhe dar um atestado por hoje. E, se possível, procure apoio. Ansiedade não é fraqueza.
Alice assentiu, sentindo um nó na garganta.
Com o papel dobrado na bolsa, ela saiu do posto sentindo uma mistura estranha de alívio e culpa. Alívio por não precisar ir. Culpa por faltar. Uma culpa antiga, quase automática, que não combinava com o que tinha vivido.
No outro lado da cidade, Olyver Blayck acordou com uma dor de cabeça violenta.
Abriu os olhos com dificuldade, sentindo a boca seca, o estômago embrulhado, o corpo pesado como chumbo. A luz que entrava pelas cortinas do quarto parecia forte demais. Gemeu baixo e levou a mão à testa.
— Que inferno… — murmurou.
Sentou-se na cama, tentando organizar os pensamentos. A noite anterior era um borrão. Lembrava-se vagamente de ter ficado no escritório, de beber mais do que devia. Um sentimento de raiva misturado com frustração, algo que não conseguia identificar direito.
Mas o resto… estava em branco.
Levantou-se cambaleando e foi até o banheiro. O reflexo no espelho não ajudou: olhos vermelhos, barba por fazer, expressão cansada. Ligou o chuveiro e deixou a água cair, tentando afastar a dor e o gosto amargo na boca.
Algo estava errado.
Ele sentia isso, mesmo sem saber exatamente o quê.
Quando chegou ao escritório mais tarde do que o habitual, estranhou de imediato. A mesa de Alice estava vazia. Nenhuma xícara de café, nenhum “bom dia” discreto, nenhum som de teclado.
— Onde está a senhorita Madson? — perguntou a uma funcionária.
— Ela não veio hoje, senhor. Mandou um atestado.
Olyver franziu o cenho.
Alice nunca faltava.
Entrou em sua sala e sentou-se, sentindo um desconforto estranho. Um peso no peito. Olhou ao redor, como se procurasse algo fora do lugar. A lixeira estava vazia. A mesa limpa demais.
Foi quando notou a ausência do paletó.
Levantou-se abruptamente.
— Onde está meu paletó? — perguntou a si mesmo, a memória começando a falhar de forma inquietante.
Uma sensação r**m subiu-lhe pela espinha. Não era apenas ressaca. Era algo mais profundo. Algo que seu corpo parecia lembrar, mesmo que sua mente se recusasse.
Ele passou o resto da manhã inquieto, incapaz de se concentrar. Chamou Alice duas vezes pelo interfone antes de lembrar que ela não estava ali.
E, pela primeira vez desde que assumira o cargo, o escritório pareceu desorganizado demais.
Enquanto isso, Alice estava de volta ao apartamento, sentada no sofá, com o atestado sobre a mesa. Chad dormia ao seu lado. Ela olhava para o papel como se fosse frágil demais para segurar o peso do que sentia.
Um dia não resolveria tudo.
Mas era o primeiro passo.
Ela sabia que teria que decidir o que fazer. Denunciar, sair, enfrentar, fugir. Todas as opções pareciam assustadoras. Mas uma coisa estava clara como nunca estivera antes:
O que Olyver Blayck fizera era imperdoável.
E, independentemente do passado, do orfanato, dos anos de lealdade, do nome que ela carregava no crachá, Alice Madson não era mais apenas a secretária exemplar.
Ela era uma mulher tentando sobreviver ao dia seguinte.
E naquele dia, sobreviver já era mais do que suficiente.