O Retorno
Alice Madson passou a noite anterior em silêncio absoluto. Não ligou a televisão, não abriu um livro, não colocou música — algo raro para alguém que costumava deixar a casa preenchida por sons baixos, quase imperceptíveis. Sentou-se à mesa da cozinha com uma xícara de chá já frio e ficou ali, encarando o nada, enquanto Chad dormia encolhido na cadeira ao lado.
A decisão já estava tomada.
No dia seguinte, voltaria ao trabalho.
Não porque estivesse pronta.
Não porque tivesse superado.
Mas porque precisava retomar algum controle sobre a própria vida.
Ela não permitiria que o que acontecera apagasse tudo o que construíra desde que saíra do orfanato. Não permitiria que o medo a expulsasse de um lugar que, durante anos, fora seu sustento e sua identidade. Mas também sabia que não poderia continuar da mesma forma.
Nunca mais ficaria até tarde.
Nunca mais atravessaria aquela porta depois do horário.
Nunca mais estaria sozinha com ele daquela maneira.
Isso não.
Se o senhor Blayck perguntasse, a resposta já estava pronta: ordens médicas.
Simples. Irrefutável. Profissional.
Na manhã seguinte, Alice acordou cedo, como sempre. O corpo ainda estava tenso, mas havia uma firmeza diferente em seus movimentos. Vestiu-se com cuidado, escolhendo roupas discretas, fechadas, como uma armadura silenciosa. Prendeu os cabelos, conferiu a bolsa duas vezes, respirou fundo antes de sair.
— Volto logo, Chad — murmurou, deixando ração fresca para o gato.
O caminho até o prédio do Grupo Blayck pareceu mais longo do que o normal. Cada semáforo, cada esquina, trazia consigo uma onda de ansiedade. Seu coração acelerava conforme se aproximava, mas ela manteve o passo firme. Não correria. Não hesitaria.
Quando atravessou as portas de vidro, o ar-condicionado gelado a envolveu, trazendo com ele uma estranha sensação de normalidade. As pessoas circulavam, conversavam, riam. Para o mundo, era apenas mais um dia comum.
Para Alice, não era.
Ela subiu até o andar da presidência e caminhou até sua mesa. Tudo estava como deixara. Organizado demais. Perfeito demais. Sentou-se, ligou o computador, organizou a agenda. Seus dedos tremiam levemente no início, mas logo retomaram o ritmo conhecido.
Trabalho.
Foco.
Rotina.
Era assim que sobreviveria.
Alguns colegas lhe desejaram bom dia com curiosidade contida. Alice respondeu com educação, sem se estender. Não queria perguntas. Não queria atenção.
Pouco depois das nove, a porta do escritório principal se abriu.
Olyver Blayck saiu.
Alice sentiu o corpo inteiro enrijecer, mas não levantou os olhos de imediato. Continuou digitando, como fizera centenas de vezes ao longo dos anos. Quando percebeu a sombra dele se aproximando, respirou fundo e ergueu o olhar apenas o suficiente para manter a formalidade.
— Bom dia, senhorita Madson — disse ele, a voz mais baixa do que o habitual.
— Bom dia, senhor Blayck — respondeu, neutra.
Houve um breve silêncio. Olyver a observava com atenção demais. Havia algo diferente nela, algo que ele não sabia identificar. Talvez fosse apenas impressão, efeito da ressaca tardia que ainda insistia em rondar sua cabeça.
— Fiquei sabendo que a senhorita não veio ontem — comentou. — Está tudo bem?
Alice não piscou.
— Sim, senhor. Apenas seguindo orientações médicas.
As palavras saíram firmes, ensaiadas, exatas.
— Entendo — ele respondeu, após um segundo a mais do que o necessário. — Fico satisfeito que esteja de volta.
— Obrigada, senhor.
Ele assentiu e voltou para a sala, fechando a porta.
Alice soltou o ar que nem percebera estar prendendo.
O resto da manhã transcorreu com uma tensão constante, mas controlada. Ela organizou reuniões, respondeu e-mails, atendeu telefonemas. Em nenhum momento precisou entrar na sala dele. Em nenhum momento ele a chamou.
E isso era bom.
Às doze em ponto, ela se levantou para o almoço — algo que antes, em dias corridos, costumava adiar. Sentou-se sozinha no refeitório, comeu pouco, observando o relógio com atenção.
Quando voltou, manteve-se focada, evitando qualquer contato desnecessário. Cada minuto parecia contado.
Olyver, por sua vez, não conseguia se concentrar como de costume. A presença de Alice no escritório, silenciosa e impecável como sempre, lhe causava um incômodo estranho. Havia algo fora do lugar, mesmo que ele não soubesse dizer o quê.
Ela não ficara até tarde antes. Nunca saía no horário exato. Sempre havia algo a mais, algum detalhe, alguma pendência.
Naquela tarde, porém, às dezoito horas em ponto, Alice salvou o último arquivo, organizou a mesa e se levantou.
Pegou a bolsa, respirou fundo e caminhou até a porta do escritório dele. Não para entrar — apenas para anunciar.
Bateu duas vezes.
— Entre — respondeu ele.
Ela abriu a porta apenas o suficiente para manter distância.
— Senhor Blayck, estou encerrando meu expediente — disse, com a mesma voz controlada de sempre.
Ele levantou os olhos, surpreso.
— Já?
— Sim, senhor. Conforme orientação médica, devo cumprir apenas o horário regular.
A frase estava pronta. Blindada.
Olyver a observou por alguns segundos, avaliando algo que não conseguia nomear. Parte dele quis questionar, insistir, comentar. Outra parte — talvez a mais lúcida — recuou.
— Claro — respondeu por fim. — Vá descansar, senhorita Madson.
— Boa noite, senhor.
Ela fechou a porta e seguiu em direção ao elevador sem olhar para trás.
Quando as portas se fecharam, Alice sentiu as pernas fraquejarem, mas permaneceu em pé. Desceu em silêncio, como quem atravessa uma linha invisível.
Do lado de fora do prédio, o ar da noite parecia mais leve.
Não estava tudo resolvido. Longe disso. Mas ela tinha estabelecido um limite. Pequeno, talvez frágil, mas necessário.
Em casa, Chad a recebeu com um miado suave. Alice tirou os sapatos, sentou-se no chão da sala e o puxou para o colo, apoiando o rosto em seu pelo macio.
— Um dia de cada vez — sussurrou.
Ela sabia que o caminho à frente seria difícil. Sabia que decisões maiores ainda precisariam ser tomadas. Mas, naquele momento, voltar, cumprir seu horário e ir embora em segurança já era uma vitória silenciosa.
E enquanto a cidade seguia seu ritmo indiferente, Alice Madson reconstruía, passo a passo, algo que ninguém tinha o direito de lhe tirar: o controle sobre a própria vida.