Capítulo 31

1193 Palavras
Um Jantar para Dois A confiança não chegara de uma vez. Ela tinha vindo em camadas, dia após dia, gesto após gesto. Um copo de água deixado ao alcance da mão. Um “descansa” dito na hora certa. Um silêncio respeitado quando Alice não queria falar. Um sorriso tranquilo quando ela acordava e encontrava Olyver ainda ali, no sofá, como se fosse o lugar mais natural do mundo. Já era o terceiro mês. Três meses desde que ele passara a morar com ela. Três meses desde que a casa deixara de ser apenas dela — sem deixar de ser. Três meses desde que o bebê crescia dentro dela, trazendo uma sensação nova, cheia, quente. Alice às vezes colocava a mão na barriga ainda discreta e sorria sozinha. Não era só o corpo que estava mudando. Era tudo. Naquela tarde, Alice estava sentada no sofá, vendo um filme antigo. Não prestava tanta atenção na história quanto nas sensações que ela despertava. Um casal cozinhava junto, ria, se tocava com naturalidade. Nada exagerado. Apenas i********e. Ela pensou em Olyver. Pensou no quanto ele tinha sido paciente. No quanto nunca a pressionara. No quanto, mesmo sendo experiente, se comportava com ela como se estivesse aprendendo tudo de novo. Pensou que queria que ele sentisse algo também. Não obrigação. Não dívida. Apenas carinho. Queria aprofundar. Não no sentido de atravessar limites à força, mas de criar algo novo entre eles. Algo escolhido. A ideia veio devagar, como tudo com Alice. Um jantar. Só os dois. Nada luxuoso. Nada de restaurante caro. Apenas comida feita ali, naquela cozinha pequena que agora tinha marcas de dois. Uma música baixa. Uma noite diferente. E talvez… um gesto de confiança. Ela lembrava de algo que tinha lido. Que às vezes fechar os olhos ajudava a sentir melhor. Que tocar podia ser aprendizado. Que o consentimento era o centro de tudo. Vendá-lo. Não como jogo ousado. Mas como entrega simbólica. Ele, que sempre controlava tudo, permitindo-se confiar nela. E ela, tocando com cuidado, perguntando, sentindo. O coração de Alice acelerou só de pensar. — Calma — murmurou para si mesma, passando a mão na barriga. — Um passo de cada vez. Quando Olyver chegou naquela noite, encontrou a casa diferente. Não era algo visível de imediato, mas sentiu. A luz estava mais baixa. A mesa da cozinha arrumada com cuidado. Velas simples, nada exagerado. — Aconteceu alguma coisa? — perguntou ele, largando o paletó. Alice sorriu, nervosa. — Não. Quer dizer… sim. Eu fiz um jantar. Ele arqueou levemente as sobrancelhas. — Você não devia se cansar — disse, automaticamente. — Eu não me cansei — respondeu ela. — Fiz tudo devagar. E queria fazer. Ele a observou por alguns segundos, depois sorriu. — Então vou aceitar — disse. — Com gratidão. Durante o jantar, conversaram sobre coisas simples. O bebê. A reforma dos apartamentos. Um filme que ela queria ver. O clima estava leve, mas havia algo diferente no ar. Uma expectativa contida. Quando terminaram, Alice respirou fundo. — Olyver… — começou. Ele levantou o olhar imediatamente. — O que foi? Ela hesitou por um instante, depois decidiu ser honesta. Como sempre. — Eu queria fazer algo diferente hoje. Mas só se você quiser. E só até onde você se sentir confortável. Olyver encostou as costas na cadeira, atento. — Estou ouvindo. Alice sentiu o rosto esquentar. — Eu pensei… — ela engoliu em seco — em vendá-lo. E tocar em você. Não de um jeito… — ela fez um gesto confuso com a mão — não como você está pensando. Só… sentir. Aprender. Se você permitir. O silêncio que se seguiu não foi de choque. Foi de surpresa suave. Olyver a observou por alguns segundos antes de falar. — Você não me deve isso — disse ele, com calma. — Eu sei — respondeu Alice rapidamente. — Por isso estou perguntando. Eu quero. Quero que você sinta que eu também estou aqui por você. Ele respirou fundo. — Você sabe que isso mexe comigo — disse ele, honesto. — Não no sentido de perder o controle. Mas de sentir muito. — Eu posso parar a qualquer momento — disse Alice. — E você também. Ele sorriu, um sorriso lento, cheio de respeito. — Então… eu aceito. O coração dela quase saiu pela boca. Ela foi até o quarto e voltou com uma venda simples, de tecido macio. Olyver sentou-se no sofá, tirando o relógio, o gesto automático de quem se preparava para algo íntimo. — Se em algum momento você não quiser — disse ela, firme — é só falar. — O mesmo vale para você — respondeu ele. Alice colocou a venda com cuidado, ajustando para não apertar. Quando terminou, deu um passo para trás e o observou. Era estranho e bonito vê-lo assim, confiando, sem enxergar, entregue. Ela se aproximou devagar. O primeiro toque foi simples. A mão dela no braço dele, sentindo o calor, a firmeza. Ele respirou fundo, mas não se moveu. — Está tudo bem? — ela perguntou. — Está — respondeu ele. — Continue. Ela passou os dedos pelo ombro dele, depois pela mão. Um toque exploratório, curioso, quase tímido. Não havia pressa. Cada gesto era uma pergunta silenciosa. — Você é muito cuidadosa — murmurou ele. — Estou aprendendo — respondeu ela. Ela tocou o rosto dele, sentindo a barba por fazer, a linha do maxilar. Olyver inclinou levemente a cabeça, como se acompanhasse o toque. Alice sentiu um arrepio leve. Não de medo. De conexão. — Posso…? — perguntou ela, aproximando-se mais. — Pode — respondeu ele. Ela se inclinou e beijou a testa dele. Depois a têmpora. Um beijo leve, quase um agradecimento. Olyver fechou os olhos sob a venda, como se quisesse gravar aquela sensação. — Alice… — murmurou. — Estou aqui — respondeu ela. Ela encostou a testa na dele por um momento, respirando o mesmo ar. Sentiu o coração dele bater forte, mas constante. Sentiu o próprio corpo responder com um calor suave. — Eu gosto de você — disse ela, em voz baixa. — Muito. Olyver levou a mão até a dela, mas parou no meio do caminho. — Posso tocar? — perguntou. Ela sorriu, mesmo sabendo que ele não podia ver. — Pode. Ele segurou a mão dela com cuidado, entrelaçando os dedos. — Obrigado por confiar em mim — disse ele. — Desse jeito. — Obrigada por confiar em mim também — respondeu ela. Alice retirou a venda logo depois, não querendo prolongar demais. Quando Olyver abriu os olhos e a viu ali, tão próxima, havia algo novo no olhar dele. Não urgência. Profundidade. — Você não imagina o que isso significou para mim — disse ele. — Eu imagino um pouco — respondeu ela, sorrindo. Eles ficaram ali, apenas abraçados, sentindo o momento se assentar. Não havia pressa para mais. O jantar tinha cumprido seu papel. Não como preparação para algo físico, mas como ponte. Naquela noite, quando Alice se deitou, sentiu a barriga se mover levemente. Um gesto pequeno, quase imperceptível. Ela sorriu. O relacionamento deles não avançara em velocidade. Avançara em verdade. E, para Alice, aquilo era mais do que suficiente.
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