Entre o Medo e o Desejo
Olyver Blayck sempre fora um homem que ocupava espaço.
Com seus quase um metro e noventa de altura, ombros largos e corpo definido por anos de disciplina, ele chamava atenção sem precisar tentar. Os olhos azuis — frios para o mundo, atentos para os negócios — ganhavam outro tom quando pousavam sobre Alice. Um contraste quase doloroso entre força e contenção.
Alice, por sua vez, era pequena. Um tipo mignon, como alguns chamariam. Um metro e cinquenta e cinco de delicadeza, ossos finos, gestos suaves. Havia nela uma fragilidade que não era fraqueza, mas história. Uma presença que não precisava ser grande para ser profunda.
E era exatamente isso que fazia Olyver ter medo.
Não medo dela. Medo de si mesmo.
Desde o beijo.
O beijo que não fora exigido. Não fora roubado. Não fora imposto. O beijo que Alice escolhera.
Aquilo mudara tudo.
Ele sentia o corpo reagir, o desejo acender de uma forma que nunca fora apenas física. Era uma chama perigosa, porque vinha misturada à culpa, à proteção, à necessidade quase primitiva de mantê-la segura.
Olyver estava encostado na parede da sala naquela noite, braços cruzados, tentando manter distância. Alice percebia. Ela sempre percebia.
— Você está longe — disse ela, sentando-se no sofá.
— Não — respondeu ele rápido demais. — Estou aqui.
— Está, mas não comigo — insistiu ela, sem acusação. Apenas observação.
Ele respirou fundo, passando a mão pelos cabelos.
— Alice… — começou, escolhendo cada palavra — eu tenho medo de machucar você. Mais do que já machuquei.
Ela se levantou devagar e ficou à frente dele. A diferença de altura era evidente. Ela precisava erguer o rosto para olhá-lo nos olhos.
— Você não me machuca agora — disse. — Você cuida.
— Meu corpo não sabe só cuidar — confessou ele, a voz mais baixa. — Eu sou grande. Forte. E depois daquele beijo… — parou.
Alice sentiu o coração acelerar. Não de medo. De consciência.
— O desejo — completou ela, com calma. — Eu senti também.
Olyver fechou os olhos por um segundo. Aquilo o atingiu mais do que qualquer acusação.
— Eu não quero que você confunda — disse ele. — Você está vulnerável. Grávida. Doente. E eu…
— E você é um homem — completou ela. — Que sente. Isso não te faz um monstro.
Ela deu um passo à frente. Ainda havia espaço suficiente para que ele recuasse se quisesse.
— O beijo me despertou coisas — continuou Alice. — Curiosidade. Calor. Algo bom. Mas eu não quero pressa. Não quero que o desejo mande.
Olyver abriu os olhos, encontrando os dela. Tão pequenos diante do rosto dele, mas tão firmes.
— Eu tenho medo de perder o controle — admitiu.
— Então não perca — respondeu ela. — Confie em mim como eu confio em você.
Ele soltou uma respiração pesada, os músculos do corpo ainda tensos, como se estivesse sempre à beira de um movimento que se recusava a fazer.
— Você é pequena — murmurou ele, quase para si mesmo. — Parece que o mundo inteiro pode te ferir.
— Mas não feriu — disse ela. — Não completamente. Estou aqui.
Ela estendeu a mão e tocou o peito dele, sentindo o coração forte bater sob os dedos.
O toque foi simples.
Mas o efeito, devastador.
Olyver sentiu o desejo pulsar com força, uma necessidade física misturada a algo emocional demais para nomear. Ainda assim, não se moveu. Não a puxou. Não tomou nada.
— Eu posso sentir — disse ele, com a voz rouca. — Mas eu não vou agir se você não quiser.
— Eu sei — respondeu ela. — É por isso que eu estou aqui.
Ela se aproximou mais um pouco, o suficiente para que o corpo pequeno estivesse envolto pela presença dele sem ser tocado. O contraste era quase simbólico: força e delicadeza, desejo e contenção.
— O beijo acendeu algo — disse ela, sincera. — Mas não precisa virar fogo agora. Pode ser só calor.
Olyver inclinou levemente a cabeça, os lábios próximos aos dela, mas sem tocar.
— Me diz para parar — pediu.
— Não — respondeu ela. — Me diz para ir devagar.
Ele sorriu de leve, um sorriso tenso, carregado.
— Devagar, então.
O beijo que veio depois foi diferente do primeiro. Ainda respeitoso, ainda contido, mas carregado de consciência. Os lábios se tocaram com mais intenção, mas não com urgência. Olyver mantinha as mãos longe, controladas, como se cada músculo obedecesse à decisão de não ultrapassar limites.
Alice sentiu o calor crescer, mas também sentiu segurança. Nenhuma força. Nenhuma imposição. Apenas presença.
Quando se afastaram, Olyver manteve a distância mínima necessária para respirar.
— Você merece tempo — disse ele. — E escolha. Sempre.
Alice sorriu, encostando a testa no peito dele por um instante, sentindo o coração forte que agora ela conhecia.
— E você merece aprender que desejar não é machucar — respondeu.
Olyver fechou os olhos, absorvendo aquelas palavras como uma promessa silenciosa.
Ele era grande. Forte. Cheio de sombras.
Mas, diante daquela mulher pequena, ele escolheria todos os dias ser cuidado, não perigo.
O desejo existia. Ardente, vivo.
Mas, acima dele, havia algo maior: respeito.
E isso, para ambos, mudava tudo.