Capítulo 35

893 Palavras
A Cor do Desejo Alice estava sentada na cama, com o catálogo aberto sobre as pernas e o coração acelerado como se estivesse prestes a cometer uma grande ousadia — daquelas que mudam algo por dentro, mesmo que pareçam pequenas por fora. Queria uma camisola especial. Não era apenas um pedaço de tecido. Era um símbolo. Um gesto. Um passo que ela escolhia dar, consciente, inteiro, sem medo. Pela primeira vez, não por obrigação, não por sobrevivência, não por circunstância. Mas porque queria. Ela passou os dedos pelas páginas, observando cores, cortes delicados, tecidos leves. Nada exagerado. Nada que gritasse. Alice não queria parecer alguém que não era. Queria se sentir bonita do jeito dela — suave, feminina, verdadeira. A porta do quarto estava entreaberta. Olyver estava na sala, falando baixo ao telefone, resolvendo algo do trabalho. Mesmo assim, a presença dele era constante, quase palpável. Ela sentia. Respirou fundo. Talvez fosse cedo. Talvez não. Mas o coração dela dizia que aquele momento era importante. Quando Olyver desligou o telefone e entrou no quarto, encontrou Alice com o catálogo aberto, as bochechas levemente coradas e um olhar que misturava timidez e decisão. — Está tudo bem? — perguntou ele, imediatamente atento. Alice fechou o catálogo devagar, como se estivesse escondendo um segredo. — Está… — respondeu. — Na verdade… eu queria te perguntar uma coisa. Olyver se aproximou, sentando-se na ponta da cama, mantendo a distância respeitosa que sempre fazia questão de preservar. — Pode perguntar. Ela respirou fundo outra vez. Sentia-se como uma adolescente, apesar de toda a maturidade que a vida lhe impusera cedo demais. — Eu estava pensando em comprar uma camisola nova — começou. — Algo… especial. Olyver piscou, surpreso, mas não sorriu de maneira maliciosa. O olhar dele era atento, sério, quase comovido. — Especial para você? — perguntou. — Para mim — confirmou. — Mas… também para nós. O silêncio que se seguiu foi carregado de algo bonito. Não havia pressa. Não havia expectativa imposta. Olyver engoliu em seco. — Alice… — começou ele — você não precisa fazer nada para me agradar. — Eu sei — respondeu ela rapidamente. — Não é isso. Eu quero. Quero me sentir bonita. Quero… escolher. Ele assentiu, compreendendo. — E o que eu posso ajudar nisso? — perguntou, com suavidade. Ela hesitou por um segundo, depois falou, quase num sussurro: — Eu queria saber… qual cor você gosta. Olyver sentiu o impacto da pergunta como algo muito maior do que parecia. Não pela conotação, mas pelo significado. Aquela mulher, que por tanto tempo fora privada de escolhas, estava pedindo a opinião dele — não por submissão, mas por partilha. Ele respirou fundo antes de responder. — Posso ser honesto? Ela assentiu, já sentindo o rosto esquentar. — Eu acho você linda de qualquer jeito — disse ele. — Mas se você quer saber… eu gosto de cores que combinem com você. Tons suaves. Que não escondam quem você é. Ela mordeu levemente o lábio, nervosa. — Tipo…? Olyver sorriu de leve. — Um tom claro. Talvez algo entre o creme e o rosé. Ou… cereja. O apelido escapou naturalmente. — Cherry… — completou ele, com voz baixa. Alice sentiu o rosto pegar fogo. — Olyver… — murmurou, cobrindo parcialmente o rosto com as mãos. Ele riu baixo, não de deboche, mas de carinho. — Desculpa — disse. — Eu só acho que combina com você. Delicado, mas intenso. Ela respirou fundo, tentando se recompor. — Então… você gostaria? — perguntou, quase sem coragem de sustentar o olhar. Ele se aproximou um pouco mais, sem tocar. — Eu gostaria de qualquer coisa que fizesse você se sentir bem — respondeu. — O resto… é consequência. Alice sentiu algo se aquecer dentro do peito. Não era apenas desejo. Era segurança. — Não é só a camisola — confessou. — É a ideia de… uma noite nossa. Com calma. Sem pressa. Sem medo. Olyver fechou os olhos por um segundo, como se estivesse se ancorando para não ultrapassar limites. — Alice — disse ele —, eu quero essa noite com você. Muito. Mas quero mais ainda que você se sinta no controle de cada passo. Ela assentiu. — Eu sei. Por isso estou falando agora. Ele estendeu a mão, oferecendo. Ela colocou a dela sobre a dele. — Você é linda quando fica vermelha — disse ele, com um sorriso suave. — Você faz isso de propósito — reclamou ela, rindo nervosa. — Talvez um pouco — admitiu. Alice olhou novamente para o catálogo, abrindo na página marcada. — Então… cereja? — perguntou, com um sorriso tímido. Olyver assentiu. — Cereja. Ela fechou o catálogo, decidida. — Eu vou comprar — disse. — Quero… me ver bonita com meus próprios olhos. E depois… se você quiser… com os seus também. Olyver sentiu o peito apertar. Aproximou-se e beijou a testa dela com cuidado, demorando-se um pouco mais do que o habitual. — Vai ser perfeita — disse. — Porque é você. Ela fechou os olhos, sentindo o beijo como uma promessa tranquila. Naquela noite, quando ficou sozinha no quarto, Alice segurou o catálogo contra o peito e sorriu. Não era apenas sobre lingerie. Era sobre escolher sentir. Escolher confiar. Escolher desejar. E, pela primeira vez, o desejo não vinha acompanhado de medo. Vinha acompanhado de respeito. E isso fazia toda a diferença.
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