Capítulo II
Delfim de Borgonha estava no seu escritório da Coordenação de Segurança do Presidente da República Portuguesa no Palácio de Belém. Tinha sido nomeado chefe da segurança pessoal do novo Presidente eleito há 3 meses e preparava os protocolos de segurança para a visita de Estado ao Vaticano para a audiência Papal. Tinha um monte de envelopes e papeis em cima da secretária e teria de analisar um a um porque toda a correspondência enviada, dirigida ao Presidente, passavam primeiro pela secretária dele, só depois iam ao conhecimento do destinatário. Pegou num envelope que vinha da Secretaria de Estado para as relações com os Estados do Vaticano, que tinha chegado através do correio diplomático, mas com a indicação de não ter vindo pelos meios convencionais, tendo sido entregue na Embaixada de Portugal em Roma e enviada através dessa plataforma. “Estranho” – pensou. Quando se ia a levantar para se dirigir ao Gabinete do Presidente, bateram à porta, e ele disse:
- Entre!
Era o Agente Silva do corpo de segurança pessoal.
- Dá licença, meu Comissário?
Borgonha fez sinal para que entrasse:
- Entre Agente Silva. O que se passa?
- Meu Comissário, chegou este envelope urgente.
- Obrigado.
O Agente Silva saiu e Borgonha abriu o envelope que estava dirigido ao Chefe de Segurança, sendo que, logo que o leu, pegou na correspondência para o Presidente e saiu. Percorreu o corredor que separava o seu gabinete do gabinete do Presidente e, ao fundo, parou junto a uma porta que se encontrava à esquerda fechada, bateu e, de lá de dentro, ouviu:
- Sim?
Abriu a porta e disse:
- Dá licença, Senhor Presidente?
- Claro! Entre Borgonha. – disse o Presidente fazendo sinal para que se sentasse junto da sua secretária. Estava sozinho a analisar uns documentos, e continuou – Então? O que se passa?
- Senhor Presidente, está aqui a correspondência para si. Chamo-o à atenção para este envelope que foi enviado fora das vias tradicionais, apesar de vir da Secretaria de Estado para as relações com os Estados do Vaticano. Este envelope foi enviado via embaixada em Roma, mas passou os controlos de segurança. – O Presidente começou a abrir o envelope. – Entretanto, recebemos uma comunicação do Ministério dos Negócios Estrangeiros dando conta de um elevado nível de alerta sobre possíveis atentados em Roma.
- E o que quer isso dizer? Que devemos cancelar a visita? – Delfim estava a prestar atenção ao que dizia o Presidente – Depois de marcar a visita ao Vaticano foi marcada a reunião do G7 para a mesma altura. Não adiámos nessa altura e não vamos adiar agora.
- Senhor Presidente, mas…
- Além disso, - interrompeu o Presidente – recebi hoje um convite para estar presente na reunião do G7.
- Muito bem. Então há muito trabalho a fazer. – disse Delfim. Entretanto, o Presidente já tinha aberto o envelope e lá dentro estava uma carta com o seguinte texto:
«Caro Presidente,
Queira considerar-me um amigo. A sua visita ao Estado do Vaticano n******e acontecer. A sua vida, bem como a vida de toda a sua comitiva, corre sérios riscos. Será importante levar este aviso a sério.»
O Presidente entregou o papel a Delfim que, ao lê-lo, mudou o semblante e disse:
- O que é isto?
- Parece-me claro. Acho que alguém não quer que eu vá ao Vaticano.
- Senhor Presidente, temos de levar esta ameaça a sério.
- Sim, entregue-a à Polícia Judiciária para ver se eles descobrem alguma coisa, através da Interpol, mas a visita mantém-se, reforcem a segurança, façam o que quiserem.
- Muito bem. Vou encarar isso como uma ordem, se bem que acho que devíamos cancelar.
- Isso é o que eles querem Comissário! Não vamos dar-lhes esse gosto.
- Então, com a sua licença, vou-me retirar.
E caminhou de volta para o seu gabinete, entrou e sentou-se. “Vou ter um dia longo” – pensou. Depois pegou no telemóvel e ligou à mulher. Quando esta atendeu disse:
- Estou querida! Está tudo bem? – ouviu a resposta da mulher e continuou – Não devo conseguir ir a casa hoje, há muita coisa a fazer e isto não anda fácil, desculpa! Amo-te muito. – E desligou.
Foi quando desligou a chamada que recebeu outra da receção do serviço, que atendeu de imediato:
- Sim?
- Senhor Comissário? Está em linha o Inspetor Geral Luigi Fiore da Gendarmaria do Estado da Cidade do Vaticano para falar consigo.
- Pode passar, obrigado.
Quando passaram a chamada disse Delfim:
- Como está Senhor Inspetor Geral? Tudo bem?
Do outro lado, Fiore falava de forma apreensiva, mas cordato:
- Bom dia, Signore. Fazemos os possíveis para que tudo esteja bem.
- Passa-se alguma coisa?
- Signore, o nível de alerta foi aumentado. Com a realização da cimeira do G7 e o convite ao vosso Presidente para nela ir discursar, temos recebido muitas ameaças de ataques.
- Isso seria expectável – Delfim decidiu, por enquanto, omitir a carta que o Presidente recebera. – Mas noto que algo o preocupa ainda mais.
- O que me preocupa é a segurança dentro do Vaticano. O Comandante Schmid da Guarda Suíça também está preocupado com o Santo Padre e, claro está, com o seu Presidente. Esta visita é muito importante para o Santo Padre.
- Também é uma visita muito importante para o Presidente. – disse Delfim – Estamos empenhados em que esta visita corra pelo melhor.
- Nós também Signore. Por isso lhe peço se seria possível deslocar-se ao Vaticano o mais cedo que conseguisse.
- Em princípio sim. Tenho de falar com o Presidente, mas devo conseguir ir amanhã.
- Ótimo! Caso haja alguma situação em contrário, avise-me, por favor.
- Muito bem. Combinado.
Delfim desligou e levantou-se para voltar ao gabinete. Chegando à porta, voltou a bater e, lá de dentro, respondeu:
- Sim?
- Posso entrar, Senhor Presidente?
- Claro Comissário. – disse o Presidente fazendo um gesto para que entrasse – Passou-se alguma coisa?
- Acabei de receber um contacto do Inspetor Geral da Gendarmaria do Estado da Cidade do Vaticano, Luigi Fiore.
- E então? Que aconteceu?
- Parece que há preocupações com a sua visita de Estado ao Vaticano, Senhor Presidente.
- Não me diga que eles a querem cancelar?
- Nada disso! Mas pediram que eu me deslocasse ao Vaticano amanhã para tratar dos pormenores de segurança da visita.
- E tem mesmo de ser você? Preferia que ficasse aqui.
- Senhor Presidente, a sua segurança e da sua família fica bem entregue, não se preocupe. Gostaria de pedir a sua licença para apanhar o voo da TAP de amanhã das 6h25. Chego a Fiumicino pelas 10h25 e vou direto ao Vaticano reunir com a segurança de lá.
- Muito bem. Nesse caso, trate de tudo e vá para casa ter com a sua família.
- Mas Senhor…
- É uma ordem! – interrompeu o Presidente. O Comissário Borgonha obedeceu e saiu deixando-o sozinho.
Recordava a sua eleição há 3 meses. Na altura fora uma surpresa, ninguém esperava este resultado, aliás, para se dizer a verdade, nem ele próprio esperava ser eleito. Uma das primeiras decisões que tomou foi nomear o Comissário Delfim de Borgonha para seu chefe de segurança, um oficial de carreira da PSP altamente competente pelos seus serviços. A primeira grande visita que iria fazer era ao Vaticano e após a marcação desta, foi marcada uma reunião do G7 para o mesmo período em Roma. Aproveitando que o Presidente estaria no Vaticano, foi convidado a ir falar nessa reunião.
Foi neste momento que Mariana, a Primeira-Dama, entrou:
- Querido, liga a televisão.
Assim fez! Na televisão davam conta de tumultos em Roma devido à realização, dali a dias, da cimeira do G7.
- É o normal sempre que o G7 se reúne. – disse ele – Vamos tomar medidas, querida, fica descansada.
- Claro! Mas estas imagens não me deixam descansada.
- O Comissário Borgonha vai amanhã para o Vaticano ultimar os pormenores. – Resolveu ocultar a carta que recebera, tal como Delfim fizera com Fiore.
- Muito bem. Espero que tenhas razão.
E abandonou o escritório deixando o Presidente sozinho. Claro que nunca poderia saber o que os esperava nos próximos dias.