Pré-visualização gratuita Destino
VLADIMIR
Vladimir estava furioso.
Não sentia, no entanto, o tipo de raiva comum, mas algo frio que o deixava num estado de extrema calma assassina. Odiava ser obrigado a fazer alguma coisa e enfrentar três horas de engarrafamento atravessando a cidade apenas para ver o pai, dificilmente seria sua escolha de programa para o sábado à noite.
Um mordomo baixo, com cabelos brancos e as costas tão retas quanto uma tábua, veio recebê-lo à porta assim que chegou.
— Senhor Stephanovich, em que...?
— Onde está o meu pai? — ele interrompeu-o, autoritário.
— O senhor está no escritório, vou anunciá-lo — respondeu o mordomo, tentando acompanhar os passos rápidos e enérgicos do filho do patrão.
— Não, não vai, ele sabe que estou aqui.
O mordomo abriu a boca para questioná-lo, mas foi preciso só um olhar do outro para que mudasse de ideia. Fazendo uma humilde reverência, retirando-se do seu caminho.
Conhecia aquele olhar e nada de bom poderia resultar do encontro, seria mais inteligente encontrar um lugar seguro e esconder-se. Não é covardia — assegurou-se — afinal, quando dois predadores se enfrentavam, distância se transformava numa palavra primordial à sobrevivência.
O recém-chegado abriu a porta com comedimento — apesar da ira que ardia no seu sangue — entrou e olhou em volta como um guerreiro estudando o campo de batalha, prendeu os olhos gelados no seu oponente.
Yvon Stephanovich, seu pai, era um homem de 70 anos, porém, quem o visse sentado na sua mesa de mogno, forte e imponente jamais lhe daria tantos anos. Os seus cabelos a muito tinham perdido o tom escuro dando lugar a um cinza lustroso, rosto inexpressivo e marcado por rugas, os olhos azuis — tão parecidos como os do seu primogénito — brilhavam com o prazer da vitória.
— Vladimir, a que devo a visita? — sua voz era grossa e firme.
— Não seja cínico — Vladimir cuspiu as palavras com rispidez.
— Deveria ser mais respeitoso, garoto — Yvon o repreendeu.
— E você mais direto — rebateu, não existia amor ou respeito entre pai e filho, apenas uma tensão gélida entre dois homens extremamente dominantes — que ligação foi aquela?
— Que bom que parou de agir como um moleque e resolveu receber os meus recados.
— Não sou moleque, só comando um grande escritório de direito e isso demanda muito tempo — explicou, sem demonstrar a irritação que sentia.
— Escritório esse que eu construí.
— E que estou mantendo de pé — Vladimir detestava quando Yvon esfregava essa informação na sua cara com soberba, como se todo o esforço que havia feito para transformar o legado na família num império não significasse nada.
— Não por muito tempo.
— Como assim, não por muito tempo? — questionou, cuidadoso, dando ênfase às palavras.
Por mais que o seu coração estivesse aos tropeços e a sua mente a mil por hora, criando e descartando várias possibilidades — uma pior que a outra — externamente Vladimir permaneceu impassível.
— Lembra da última conversa que tivemos? — perguntou Yvon, levantou indo em direção ao mini-bar de vidro e madeira localizado discretamente no canto do escritório.
— Sim — respondeu seco.
— E considerou o que te propus? — serviu-se de whisky puro num copo de cristal pesado e caro.
— Não irei casar — declarou com falsa calma.
— Aceita? — Yvon perguntou, indicando o bar com um movimento de cabeça.
— Não.
— Esqueci, o meu filho é um russo que não bebe, deve ser culpa do sangue americano — disse com escárnio — sabe Vladimir, deveria considerar a ideia, não viverei para sempre e ainda quero conhecer os seus filhos, eles herdarão a Advocacy Stephanovich.
Para fazer da vida deles um inferno como fez da minha? Jamais. Vladimir pensou, mas respondeu com desgosto.
— Viverá por muitos anos.
— Gostaria de ser tão otimista quanto você — Yvon sorriu, um gesto automático, sem humor — quero ter certeza de que a minha empresa terá um futuro.
— Terá.
— Novamente otimista — debochou — porém, prefiro te ver casado com uma moça de boa família, já que resolveu jogar fora a oportunidade que teve.
— Não vou falar sobre Natasha — deixou pela primeira vez transparecer a raiva na sua voz.
— Estou falando sobre o seu casamento fracassado.
— Não vá por aí, Yvon — Vladimir avisou.
— A casa de um homem é seu território, seu reino, sua família deve-lhe obediência e respeito — o seu pai declarou imperial — não acredito que nem ao menos conseguiu segurar uma mulher — disse a palavra como se nomeasse um inseto insignificante — não aprendeu nada do que te ensinei?
— Talvez pudesse ter aprendido se tivesse passado menos tempo com as suas amantes e mais com a família.
Yvon atravessou a sala tão rápido que qualquer pessoa que não o conhecesse se surpreenderia, deu uma bofetada com a costa da mão no rosto do filho, forte o suficiente para que o anel de ouro que trazia no dedo anelar com o emblema da família, partisse o lábio inferior de Vladimir.
— Sou seu pai e dentro da minha casa ainda me deve respeito — Yvon disse.
Calmamente Vladimir endireitou-se, colocou os fios de cabelo que caíram sobre o seu rosto atrás da orelha e passou a língua no lábio, sentindo o gosto ferroso de sangue. Os seus olhos escureceram com um ódio tão puro e antigo que, mesmo sem querer admitir, Yvon sentiu o sangue congelar.
— Porque estou na sua casa e não por ser meu pai, não revidarei como merece — disse num russo perfeito — mas lembre-se que não voltarei a repetir essa cortesia.
— Você não é tão corajoso quanto pensa, garoto — disse Yvon, mas, no fundo, não tinha tanta certeza assim.
— A conversa acabou — Vladimir tinha que sair dali, não sabia se conseguiria se controlar por mais tempo.
Em toda a sua vida sempre se orgulhou do seu autocontrole, pois graças a ele havia se tornado um dos melhores advogados do país — conseguindo a proeza histórica de nunca perder uma causa, por mais difícil que fosse — conseguia dominar o tribunal sem apelar para sentimentalismo ou medidas desonestas, a sua indiferença o fez conhecido em todo país — e mundo — como Senhor de Gelo. Mas ali, preso no escritório com o homem que mais temerá se tornar quando criança e que agora, um adulto, simplesmente desprezava com todas as suas forças, estava perigosamente perto de cometer parricídio.
Antes que pudesse tocar na maçaneta da porta o seu pai o fez parar dizendo as suas costas:
— Você tem uma semana para encontrar uma esposa ou o tiro da presidência da Advocacy Stephanovich.
— Você não pode fazer isso — Vladimir virou-se, agora Yvon tinha toda a sua atenção.
— Ainda sou o dono e até que eu morra, faço o que bem-quiser.
— E colocará quem no meu lugar — perguntou descrente — Irenia?
— Irenia não consegue controlar as próprias filhas, quem dirá o escritório.
— Então? — Vladimir estava ficando impaciente, mas já tinha jogado aquele jogo com o pai várias vezes e sabia que Yvon Stephanovich só falaria o que quisesse, quando quisesse, independente do que ele fizesse para tentar mudar isso.
— Vou dividir a empresa em ações e vender para quem pagar mais — respondeu com simplicidade — não será tão difícil encontrar interessados.
Essa notícia caiu como uma bomba na cabeça de Vladimir, de todas as possibilidades que cogitou essa nem de longe tinha sido uma delas, justamente pelo fato de que o seu pai era tão obcecado pela empresa quanto ele.
— Você não faria isso.
— Claro que sim, sabe por que, filho?
Vladimir sabia, porém, não quis dar o gostinho a Yvon ao dizer algo.
— Porque posso — respondeu, satisfeito consigo mesmo.
Tudo com o pai sempre foi um jogo de controle, desde a infância e talvez por isso Vladimir não duvidou.
— Você seria bem capaz de fazer isso.
— A escolha é sua.
Na verdade, não era. No momento em que o escritório foi colocado na equação Yvon havia ganhado.
Vladimir iria se casar, e os dois sabiam disso.
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PERPÉTUA
Enquanto Vladimir engolia sua raiva m*l disfarçada, do outro lado da cidade, uma mulher contava os segundos, inundada de medo e ansiedade.
Perpétua havia assistido em um programa de TV sensacionalista o anúncio do noivado do candidato Robert Willian Boldari, um homem jovem, alto e atraente, que com carisma e inteligência subia cada vez mais os seus pontos de popularidade para as eleições daquele ano. A futura senhora Boldari, também uma mulher bonita, loira, elegante e com sorriso suave, contou como tinham se conhecido e engatado no relacionamento.
Os dois juntos eram perfeitos, o pacote completo do comercial de pasta de dente.
Sem problemas.
A não ser o fato de Robert Willian Boldari, provável futuro governador da cidade de Nova York, ser seu namorado a mais de três anos.
A maçaneta da porta girou, a mulher inconscientemente prendeu a respiração — como se assim pudesse parar o tempo e preparar-se para a guerra que estava por vir — passou as mãos suadas na perna da calças jeans tentando acalmar-se, esperou.
Robert trajava um terno preto, feito sob medida, com a gravata frouxa no colarinho da camisa branca, os cabelos loiros bagunçados de um jeito chique descuidado que só o fazia parecer mais sexy.
Os seus olhos verdes não se arregalaram com surpresa quando a viram, apenas refletiram cansaço e resignação — a mesma expressão que demonstrava, ela sabia, quando tinha que ir a um jantar eleitoral chato, mas necessário.
— Perpétua — Robert suspirou o seu nome.
— Robby — a sua voz tremeu com pesar — diz que não é verdade, por favor.
— Está tarde e não posso ter essa conversa agora — disse com complacente no lugar de respondê-la.
— Você não pode ter essa conversa agora — gritou indignada — acabei de descobrir sobre o noivado do meu namorado pela droga da TV e você não pode ter essa conversa agora?
— Pretendia contar, mas as coisas aconteceram rápido demais e fugiram do meu controle.
— Há quanto tempo vem me traindo com ela? — Perpétua levantou-se do sofá onde o esperava por quase cinco horas, cortando a distância que os separava.
— Esse não é o ponto, nós precisamos conversar sobre o que faremos daqui para frente — usou o mesmo tom imperioso que falava com os assessores quando queria que algo fosse feito exatamente da sua maneira.
— Quanto tempo? — repetiu, irredutível.
Robert abriu a boca para repreendê-la, porém quando encarou os seus olhos castanhos e percebeu que se não respondesse à pergunta nada viria dali, passou a mão pelo cabelo, frustrado.
— Um ano e meio, conheci Elena numa festa de ano novo, era uma reunião política e você tinha viajado para o Brasil — disse sem nenhum sentimento de arrependimento ou culpa, a traição não significava absolutamente nada para ele.
— Como pôde fazer isso comigo? — as últimas palavras foram ditas aos berros — seu desgraçado infiel.
Lágrimas de humilhação queimavam nos seus olhos, no entanto, jurou para si mesma que não as derramaria.
Não por ele.
— Não seja dramática, mantive minha relação com Elena a mais reservada possível.
— Perdão, acho que não entendi — a voz dela destilava sarcasmo em cada sílaba — deveria te agradecer por isso?
— Não seja cínica, querida, não combina com a sua personalidade — disse Robert com desprezo.
Perpétua recolheu dentro de si toda dor, indignação, fúria e foi para cima dele dando tapas, socos, chutes e qualquer outra coisa que conseguisse.
— O seu filho da p**a, desgraçado, porco nojento, canalha — disse em um português compassado.
Sempre que ficava com raiva o seu inglês era posto de lado dando espaço a sua tão bonita língua nativa.
Robert a chocou quando num só movimento a empurrou com força, fazendo-a cair no chão com um baque surdo.
— Sempre me excitei com o seu temperamento explosivo, mas tenho que confessar que às vezes ele pode ser bem irritante.
— Como pude me apaixonar por você — aquelas lágrimas que, heroicamente tentou segurar, desceram por seu rosto em uma cascata incontrolável.
Perpétua não conseguia reconhecer a si mesma, pois aquela mulher fraca e patética que jazia no chão, humilhada na frente do homem que tinha partido o seu coração, de forma alguma poderia ser ela. Porém, o fato é que aquele homem frio e desprezível não parecia em nada com o seu Robby divertido, inteligente e carinhoso, que quando a olhava com amor tinha o poder de fazer o seu coração perder algumas batidas, mas que quando a encarava com desejo fazia o seu sangue esquentar no mesmo instante. Ela não conhecia aquele homem e em algum lugar na sua cabeça perguntou-se como no Santo Inferno não percebeu como Robert William Boldari realmente era.
— Sinto muito, meu amor — ele ajoelhando-se ao seu lado com intenção de segurá-la, no entanto, antes que a tocasse Perpétua afastou-se — não foi minha intenção, perdi o controle.
— Pelo visto tem feito isso com certa frequência — agora que a máscara havia caído e podia perceber os seus gestos calculados, o brilho frio nos olhos verdes e a falsa calma na voz.
Conseguiu sentir absolutamente tudo menos o arrependimento sincero por tê-la empurrado.
— Eu te amo, Perpétua — disse convicto.
Ela esperou o arrepio, sopro de felicidade e entusiasmo que sempre vinham acompanhado dessas palavras, entretanto — dessa vez — não sentiu nada.
— Se me amasse de verdade não teria me enganado — desviando os olhos daquelas duas esmeraldas que tinham o poder, ela sabia, de persuadi-la a qualquer coisa.
— Sou um egoísta — respondeu esboçando um sorriso sem humor — mesmo assim continuo-te amando.
— A futura senhora Boldari sabe disso? — inquiriu com raiva.
— Elena é apenas o meio para conseguir um fim — percebendo que o seu charme não estava dando certo com ela, Robert levantou-se a fitando de cima, em toda a sua arrogância — me candidatei em um partido conservador, ser casado é quase um pré-requisito.
— Poderia ter se casado comigo — Perpétua arrependeu-se assim que as palavras deixaram os seus lábios, não devido ao significado, mas sim pelo tom de súplica e lamento que a sua voz havia assumido.
— Não, não poderia — disse incisivo, o charme e complacência a muito havia se apagado da sua voz — sinceramente, acredita que poderia me candidatar a um partido conservador casado com uma estrangeira, n***a e filha de uma faxineira de um país decadente como o Brasil?
— Não, claro que não — Robert havia cortado fundo, ela podia sentir o seu coração sangrando cada vez mais, porém, desde pequena sempre aprendeu que a melhor defesa era o ataque e não viu um motivo para não usar a mesma estratégia naquele momento — disse que me ama, só que vermes como você não sabem o que é o amor, são vaidosos demais, e invejosos.
Perpétua cuspiu as palavras com tal veemência que até Robert deu alguns passos para trás, como se tivesse sido atingido por tapas.
— Saiba que de mim a única coisa que vai conseguir é pena, um ser tão miserável como você vai terminar sozinho e sem nada — deu um sorriso sardónico — os seus tão adorados lambe botas, que vivem a sua volta, vão te abandonar na primeira queda e espero que a futura senhora Boldari te ame de verdade, porque senão ela vai te largar por um partido melhor assim — estalou os dedos no ar para dar ênfase às palavras — está pisando na pessoa que realmente te ama e que estaria ao seu lado sempre.
Num movimento rápido Robert agachou novamente ao lado dela e a segurou pelo pescoço com dedos longos e frios.
— Cala a boca — sussurrou lentamente.
— Por que a perspectiva te assusta?
— Você não sabe o que está dizendo, sua ressentida.
— Oh, se engana, senhor governador — olhou bem, no fundo daqueles olhos que um dia a fascinou tanto, e que agora só sentia nojo — quando se der conta que está sozinho e arrastar-se para o buraco de onde saiu, como um bom verme que é, vou estar feliz, bem e assistindo tudo de camarote.
Os dedos dele apertaram o seu pescoço cada vez mais e Perpétua sabia que haveria uma marca no dia seguinte para lembrá-la das idiotices que podia fazer quando deixava o seu orgulho ferido falar mais alto.
— Quem pensa que é para falar assim comigo? — o ódio pesava nas palavras dele.
Nos seus anos de namoro Robert nunca havia levantado a mão para ela — nem nas brigas mais acaloradas — aquele lado dele que Perpétua não conhecia a estava assustando para valer, no entanto, ela nunca foi conhecida pela prudência — principalmente quando os sentimentos "raiva" e "orgulho" estavam no meio da equação.
— Bem, posso dizer que se tornará um futuro presidiário se não me soltar agora — a sua voz só não falhou por pura força de vontade, já muito perto do sufocamento — como o seu partido conservador reagiria ao receber a notícia de que foi preso por agredir a namorada, aquela que eles nem sabiam da existência.
Ele segurou-a por alguns instantes, mas acabou soltando.
— Tem 30 minutos para tirar todas as suas tralhas daqui e sumir da minha vida, o que deixar para trás, pessoalmente, colocarei fogo e resolverei o problema — com essas palavras Robert William Boldari, futuro governador da cidade Nova York, saiu da sua vida.
Foi só depois que a porta se fechou que Perpétua deixou as lágrimas tomarem conta dos seus olhos novamente, tossindo e passando a mão no pescoço ferido, ficou no chão por um bom tempo, chorando compulsivamente.
Sentia-se tão humilhada, tão derrotada. O homem da sua vida acabou de se provar um crápula aproveitador e o pior é que o único coração partido nessa história toda seria o dela.
Até poderia ir falar com a futura senhora Boldari e esclarecer quem Robert realmente era, mas não sabia como essa mulher era ou os termos do relacionamento deles, na melhor das hipóteses ela não acreditaria nas suas palavras e Perpétua acabaria saindo como mentirosa.
Também poderia ir aos jornais acabar com a merda da candidatura dele, só que apesar de trazer uma satisfação breve, seria uma atitude mesquinha — típico de uma namorada largada.
E morreria antes de deixar Robert perceber o quanto estava faze-la sofrer.
— Se não posso acabar com o noivado dele, nem com a candidatura, o que posso fazer — perguntou-se limpando as lágrimas com a ponta do casaco verde que usava — ele não vai sair impune dessa, não vai.
Nunca foi o tipo de pessoa que lidava bem com tristeza ou alto-piedade, não fazia parte da sua personalidade ficar choramingando pelos cantos.
Ele me traiu em rede nacional, Deus, como vou encarar os meus amigos agora? Como vou contar para a minha família?
— Ele vai me pagar, aquele verme vai se arrepender do dia que me conheceu — gritou.
Entretanto, era o tipo de pessoa que lidava muito bem com o ódio, e quando podia direcionar toda a sua raiva e frustração para um senso de vingança que só as pessoas mais insanas desenvolviam, ninguém podia impedi-la.
— Se não posso destruí-lo vou acabar com o que ele mais gosta.
Levantando-se resoluta, com um novo objetivo traçado saiu pela casa procurando.
Sabia que o infiel não se dava bem com a família e amava os bens materiais. Robert era por demais vaidoso e gostava de ostentar tudo de mais caro que o dinheiro pudesse comprar. Ele não passava de um empresário medíocre com aspirações políticas, herdeiro de uma renomada família, porém, falida.
— Cadê, cadê, cadê... — batia a mão na coxa toda vez que pronunciava as palavras — ele não pode ter bebido, não antes de esfregar na cara de todo mundo.
A casa de Robert era grande, tinha dois andares e toda decorada com antiguidades, quadros, tapeçaria cara, objetos finos e móveis antigos — poderia ser considerado uma decoração refinada, só que a Perpétua sempre pareceu um enorme mausoléu de uma vida que ele não podia manter.
No topo de uma estante com toda a pompa e chamariz, estava o que tanto procurava.
Perpétua sorriu para si mesma com malícia.
Pegou na sala de jantar uma cadeira pesada de madeira — que provavelmente fora esculpida antes do seu próprio nascimento — e a colocou em frente à estante. Subindo depressa, avidamente pegou a garrafa, soltando uma gargalhada.
Na estante havia outras garrafas também, entretanto, a que mais a interessava era uma de vinho tinto, com rótulo amarelada pelo tempo, a única garrafa da safra que havia sobrevivido ao saque do exército alemão na Segunda Guerra Mundial, o vinho — alguns diziam — nem era tão bom assim, mas por ser raro, tornou-se quase uma ambrósia.
Como sei de tudo isso? Simples, o i****a, obcecado e arrogante do meu ex-namorado fez questão de discursar várias e várias vezes sobre o assunto.
O que mais a incentivou a pegar aquela maldita garrafa foi o seu preço absurdo, a menina dos olhos de Robert era muito, muito cara. Foi pensando no quanto teria que trabalhar para comprar aquele vinho e dando-se conta que jamais gastaria em algo tão supérfluo como aquilo, que bebeu a ambrósia pelo gargalo.
A coisa era horrível, parecia um vinagre extremamente ácido que deixou um gosto amargo na boca. Entretanto, Perpétua fazia aquilo pela vingança e após bater mais que metade da garrafa o teor alcoólico fez o seu trabalho de amenizar os pontos negativos.
A pleno vapor — já imaginando o surto que o seu ex-namorado teria quando chegasse em casa e visse o que deixou para trás — levantou-se de cima da mesa da sala de jantar, uma coisa que sempre teve vontade de fazer, em meio a alguns tropeções, começou a quebrar os pratos feios e colecionáveis que ele tinha, logo depois foi para os vasos. Não satisfeita, entrou no quarto e começou a juntar todas as roupas caras, sapatos italianos, e joias de 1900 e guaraná com rolha que o seu digníssimo Robert tinha, fazendo uma grande montanha no meio da sala — bem em cima do tapete antigo que ela sempre odiou. Jogou também todas as garrafas de bebida que tinha em casa — começando pelas mais caras — e ficou observando a obra, dando goladas soluçantes no vinho.
Com os dentes, abriu outra garrafa de whisky e começou a beber.
Tinha largado o vício do cigarro há uns dois meses, mas como uma boa fumante em fase de recuperação, não saia para lugar nenhum sem um isqueiro. Tirou de dentro da bota que usava um isqueiro branco, pequeno e esmaltado. Entretanto, antes de acendê-lo olhou para o teto e viu.
— Sprinkler, merda — saiu pela casa à procura do registro de água, dizendo o quanto odiava americanos e a sua maldita inteligência.
Depois de alguns minutos tortuosos, enfim encontrou o registro, o fechou e foi feliz da vida para a pilha na sala. Foi com essa mesma felicidade que acendeu o isqueiro e o jogou na montanha ensopada de álcool.
O fogo alastrou-se rápido e a fumaça, sem ter para onde ir, tomou conta do duplex.
Vendo que não só a montanha pegava fogo, como o resto da sala, Perpétua chegou à conclusão de que talvez não tivesse sido uma ideia tão boa assim.
A fumaça já estava fazendo-a tossir e os seus olhos lacrimejarem, o calor tão forte que gotas de suor escorriam pelas suas costas.
No auge da sua embriaguez, Perpétua saiu correndo em direção à despensa da cozinha onde ficava o registro, sem nem perceber que a única porta de saída ficava na sala — que estava literalmente pegando fogo.
Na sua corrida mortal tropeçou nos próprios pés e caiu, batendo com força a cabeça no chão.
A última coisa que ouviu antes que a escuridão a engolisse foi o som do vidro da janela da sala estourando.
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A noite estava calma quando o incêndio irrompeu na imponente casa de Robert Boldari, candidato a governador do estado. As chamas rugiam vorazmente, lançando uma sombra sinistra contra o céu noturno. Era uma cena que atraiu a atenção de toda a cidade, e as sirenes de diversas viaturas de bombeiros ecoavam pelas ruas.
Na sala de controle da redação da principal emissora de notícias da cidade, a equipe estava agitada. A repórter de plantão, Brune Simon, recebeu a ordem para cobrir o incêndio na casa do candidato. Ela pegou o seu microfone e rapidamente partiu para o local.
Quando Brune chegou à cena, o prédio estava envolto em chamas e a fumaça densa obscurecia o cenário. As luzes das viaturas de bombeiros criaram um ambiente surreal. A repórter respirou fundo, focando na sua tarefa de trazer as informações mais recentes para os telespectadores.
Com o seu microfone em mãos e o rosto tenso, ela começou a sua transmissão ao vivo:
— Boa noite a todos, estamos aqui em frente ao prédio do candidato ao cargo de governador, Robert Boldari, que está sendo consumido por um incêndio devastador, as chamas se alastraram rapidamente pelo edifício, criando uma cena aterradora.
Brune falou sobre os detalhes do ocorrido, enquanto as imagens mostravam o fogo se propagando pelas janelas do apartamento.
— Até o momento, não temos informações sobre os feridos, as equipes de bombeiros estão trabalhando arduamente para controlar as chamas e resgatar qualquer pessoa que possa estar dentro do prédio.
Nesse momento, uma câmera capturou a chegada dos bombeiros, com seus capacetes e uniformes de proteção. Brune observou enquanto eles trabalhavam com uma eficiência impecável, como uma colónia de formigas operarias.
Então, algo chamou a atenção do cameraman e com um gesto de cabeça, o homem franzino com um boné de basebol, apontou a câmera na direção da entrada do prédio.
— Parece que os bombeiros estão retirando alguém da casa, é uma cena de extrema tensão aqui — a jornalista narrou — estamos observando de perto.
A imagem mostrava os transportadores carregando uma pessoa inconsciente e coberta por um cobertor térmico. Brune e sua equipe procuraram se aproximar para obter uma visão mais clara, mas os bombeiros rapidamente formaram um escudo protetor ao redor do ferido, protegendo a sua identidade.
— Não podemos afirmar com certeza quem é a pessoa que está sendo resgatada neste momento — declarou com uma expressão séria — vamos aguardar as informações oficiais das autoridades.
Resignada, conseguiu colocar um dos bombeiros em frente as maceras:
— Oficial, você pode nos dar uma atualização sobre a situação? — perguntou, segurando o microfone na frente dele.
— Estamos fazendo o nosso melhor para conter o incêndio e garantir que não haja vítimas — o bombeiro assentiu, o seu rosto coberto de fuligem e suor — a situação é crítica, mas estamos confiantes de que podemos controlá-la.
— E quanto ao ferido que foi retirado do prédio?
O homem encarou outro oficial por trás da repórter e apertou os lábios, ao perceber que precisava dar uma resposta, foi genérico.
— Sem mais declarações, precisamos verificar a situação para oficializar.
Brune nunca havia recebido uma evasiva daquelas, e isso fez um toque de alerta soar na sua cabeça.
Enquanto isso, a emissora de televisão recebeu uma ligação inesperada, nome "Robert Boldari" piscou na tela do telefone. No ao vivo, Brune pegou o telefone e colocou no viva-voz, de modo que todos pudessem ouvir.
— Candidato Boldari, estamos ao vivo na cena do incêndio na sua casa — disse a repórter.
— Sim, Brune, estou ciente respondeu uma voz calma do outro lado da linha — queria que todos soubessem que estou bem, o incêndio foi causado por um curto-circuito, e graças à resposta rápida dos bombeiros, nenhum dano sério ocorreu.
Brune ficou surpresa ao ouvir a fala de Robert Boldari, afinal, o prédio estava em chamas e pelo menos havia um ferido não identificado, porém, sem perder tempo, continuou a entrevista:
— Candidato Boldari, há relatos de que você poderia estar dentro de casa quando o incêndio começou, isso é verdade?
— De fato, eu estava em casa quando o incêndio começou — admitiu Boldari — mas fui resgatado pelos valentes bombeiros que estão trabalhando neste momento para normalizar toda a situação, estou profundamente agradecido pelo serviço excecional que eles prestaram.
— Senhor Boldari, muitos estão preocupados que este incidente possa afetar a sua campanha eleitoral, o que você tem a dizer a respeito disso?
Robert respondeu com confiança:
— Nada vai atrapalhar a nossa campanha, estamos comprometidos com a mudança que este estado precisa — soltou uma risada amistosa — para expressar a minha gratidão aos bombeiros e à comunidade, vou fazer uma doação generosa ao Corpo de Bombeiros para apoiar as suas operações e treinos.
As palavras de Boldari ecoaram na tela, e a expressão de Brune era uma mistura de surpresa e perplexidade.
— E vocês ouviram aqui, senhoras e senhores, a declaração de Robert Boldari de que o incêndio na sua casa não afetará a sua campanha. Continuaremos acompanhando essa situação e traremos atualizações conforme as informações disponíveis. Aqui é Brune Sinon, da CHN Nova York.
A transmissão terminou, e a tela da televisão voltou às notícias regulares. Só então Brune transpareceu a sua inquietação:
— Tem algo estranho nessa historia.
— O quê? — o cameraman perguntou, após trabalhar com a outra por anos, confiava no instinto jornalístico dela o bastante para ouvir.
— Já entrevistei pessoas depois de passarem por um incêndio, e alguns nem conseguem falar — o encarou — a voz dele não estava nem rouca.
— Acha que era outra pessoa na maca?
— Tenho certeza — afirmou — agora tenho que provar.