Pré-nupcial

2070 Palavras
Era impressionante como uma simples decisão poderia mudar tanto as coisas. Não apenas algo imaterial e incerto como o destino, ou futuro, mas também coisas sólidas e reais, como a sala que Perpétua estava naquele exato momento — com as suas paredes beges, móveis escuros e cromados, cadeiras de couro extremamente desconfortáveis. Tudo ali gritava dinheiro, pompa e elegância fria. A primeira vez que a brasileira esteve na sala de recepção do Advocacy Stephanovich, ficou tão nervosa a ponto de sentir os próprios ossos vibrarem por sob a pele. Veja bem, não que estivesse em melhor estado no tempo presente — o medo e preocupação eram tudo que conseguia sentir, nublando os seus pensamentos — no entanto, hoje, tudo era pesado com uma dose de impotência, misturada com resignação. Era detestável. — Você não precisava ter vindo comigo — disse para Christopher, que estava sentado ao seu lado, apesar de estar feliz por ele ter feito. — Somos uma matilha protetora, não abandonamos os nossos filhotes — sorriu quando a brasileira revirou os olhos do jeito que sabia que ela faria — além disso, vai precisar de um advogado. — Primeiro, filhote é a mãe — enumerou com a petulância de uma criança de 5 anos — segundo, é só a assinatura de um pré-nupcial, terceiro, e mais importante — fez uma pausa dramática — você não é advogado. — Sou quase isso. — Deus, cursar um semestre de penal na faculdade não banca um diploma, e lembrando que só fez as aulas porque estava interessado no professor. — O pior sexo da minha vida. — Pelo amor de Deus, por que você é tão promíscuo? — Não sei, acho que é um dom, melhor, minha missão divina. — Se continuar andando contigo, é capaz de ser condenada ao inferno só por convivência. — Provável, no entanto — esticou a palavra para dar ênfase — você precisa de mim, delícia. — Por exemplo? — Para impedir que o seu futuro marido lhe passe a perna. Nesse momento, a secretária levantou-se e anunciou que o senhor Stephanovich os esperava na sala de reunião. O mais calmamente que pode, Perpétua levantou-se, alisou a saia para ganhar tempo — novamente, usava um terninho só que dessa vez da cor vinho — e foi em direção à sala que lhe foi indicada. Quando as portas se abriram, ela sentiu-se entrando no território de um predador. Desejava com todas as forças voltar por onde tinha entrado e esconder-se até tudo ficar resolvido, mas, felizmente, de todos os seus defeitos covardia nunca foi um deles. A "sala de reuniões" era tudo que imaginava ser: ampla, decoração minimalista e impessoal, uma grande mesa escura no centro com cadeiras de couro preto — aparentemente confortáveis — à sua volta. Stephanovich estava sentado à cabeceira — como um rei — muito imponente no seu terno cinza chumbo feito sob medida, cabelo penteado para trás, e postura segura. Entretanto, sua aparente civilidade não a enganou nem por um segundo, não com aquele olhar fixo e direto, que parecia vasculhar a sua alma a procura de um ponto fraco. Vai ter que se esforçar mais, garotão. Pensou ao sustentar o seu olhar com óbvio desafio. Sentado ao seu lado direito, tão bonito quanto, estava um homem loiro. A sua postura era relaxada, cabelo propositadamente despenteado, um sorriso satisfeito no rosto, enquanto ele passeava — porque não existia a menor dúvida de que estava sendo apreciada, não analisada — o olhar por seu corpo. Os dois representavam uma dupla bem... diferente. — O policial bonzinho, e o m*l — sussurrou Chris para ela, de forma que o comentário ficasse apenas entre os dois. — Percebi — Perpétua devolveu no mesmo tom. Aparentemente, não seria uma simples assinatura de pré-nupcial. De cabeça erguida a brasileira caminhou até a mesa e sentou-se no lado esquerdo — de frente para o loiro descarado —, Chris a acompanhou. — Senhora Ferreira — Vladimir a cumprimentou — este é Gabriel Peterson, um amigo. — E também advogado — Christopher completou, Perpétua levantando uma sobrancelha, à espera da resposta. — Como sabe? — a pergunta veio do senhor Peterson. — Um advogado reconhece o outro — o seu amigo sorriu com leveza, mas apertou a perna dela por debaixo da mesa como quem diz "vai na minha onda" — a propósito, me chamo Christopher Reedus. — Fico feliz que tenha trago um representante legal, foi muito sensato. Perpétua não sabia se a intenção de Vladimir ao pronunciar as palavras eram as de irritá-la, ou se foi só um bónus, parecia que mexer com o seu temperamento era o dom dele. — Sou uma pessoa bem prudente — foi a vez do advogado levantar a sobrancelha num gesto zombeteiro. A mão de Chris na sua perna foi a única coisa que a impediu de pular em cima do canalha e arrancar aquela arrogância a tapa. — Viemos aqui assinar um contrato — o tom do seu amigo era uma advertência, não para os homens, mas para ela. — Exato — concordou Gabriel — isso não vai levar mais que um minuto. — Sei — Chris pegou a pasta que o advogado lhe passou por sobre a mesa, fez um espetáculo ao abri-la, pegar o documento e passar para a sua "cliente". Perpétua só observou tudo aquilo em silêncio, ciente de que não conseguiria manter a classe diante de dois olhos azuis que a analisavam atentamente. As suas mãos tremeram quando pegou os papéis, mas conforme lia cada linha, o seu nervosismo dava lugar a uma concentração serena e profissional. O mundo poderia acabar, e ela não perderia nem uma vírgula — um dos motivos de ter se tornado tão boa na sua profissão. Quando terminou, juntou cuidadosamente todas as folhas e as pousou em cima da mesa. — Algum problema? — perguntou Vladimir, quando ela não fez menção de assinar. — Na verdade, sim — respondeu à brasileira, cordialmente — tem algumas alterações que precisam ser feitas. — Algumas? — É, no plural. — Ok, quais são suas exigências? — parecia verdadeiramente intrigado. — Primeiro, quero colocar uma cláusula de proteção. — Proteção? — Não nos conhecemos, você pode muito bem ser um psicopata, então quero me proteger disso. — Como? — Criando uma cláusula que garante a minha segurança, se você me agredir, tanto física quanto verbalmente, ou tentar me coagir de algum jeito, de forma que me sinta violada, o casamento está acabado. — No entanto — completou Chris, rapidamente — levando em conta que o erro foi seu, terá que se comprometer a manter o processo, o que significa que vão permanecer legalmente casados até que a minha cliente ganhe o seu visto permanente. — Se eu não aceitar? — Então não iremos nos casar — por mais que isso a destruísse, não estava disposta a ficar à mercê de um estranho. — Você será deportada. — Verdade, mas não vou correr o risco de acabar no seu porão. — Como essa violação será comprovada, uma vez que agressão física é a única visível? — perguntou Gabriel. — Os meus amigos serão os mediadores, caso aconteça algo fora do comum, eles vão intervir. — Não — a negativa foi seca e cortante. — Eles podem simplesmente mentir — justificou Peterson, mas suave. — Jamais fariam isso! — Como a senhora mesmo disse, não nos conhecemos — revidou Vladimir — prefiro o veredicto de um profissional. — Da sua escolha, acredito — não fez questão de esconder a sua desconfiança. — Podemos escolher alguém em comum acordo. — Tudo bem — concordou Christopher, para pôr fim ao debate — coloque essa parte no contrato, por favor. Essa luta de vontades durou horas, se perdendo entre argumentos e contra argumentos, onde invariavelmente, alguém acabava cedendo. Perpétua ganhou em relação a manter o seu sobrenome, mas perdeu na criação da conta conjunta. — É uma prática comum em matrimônios — explicou Gabi com exasperação — tecnicamente estão indo rumo a um futuro juntos, compartilhar as contas, comprar uma casa, adotar um cão, pintar a cerca de branco, essas coisas são comuns. A lógica dele era tão ferrada que ela não teve como resistir com coerência, porém, o último golpe foi dado por Vladimir: — Não vou interferir na forma que gasta o seu dinheiro, é só uma medida preventiva para dar veracidade ao nosso casamento, caso alguém o ponha em dúvida. — Ok — concordou a contragosto. Por uma questão de princípio — e imaturidade — a brasileira questionou o local que fixariam residência, no entanto, não precisou realmente que ele lhe explicasse as vantagens da sua casa — muito maior — e apelasse a sua sensatez, para convencê-la. Simplesmente não conseguia se imaginar dividindo o seu aconchegante — e pequeno — loft, por tempo indeterminado, com um homem tão... expansivo. — Quero que me explique uma cláusula — leu em voz alta — "fica determinado que, a partir da assinatura deste documento até o término do contrato, não manterei relação de cunho s****l ou romântico com outro indivíduo". — Qual é exatamente a sua dúvida? — Serve para os dois? — Sim, enquanto o nosso casamento durar, não iremos nos envolver com outras pessoas — se ficou constrangido com o seu questionamento, Vladimir não demonstrou — de outra forma, o risco da história vazar é muito maior. — Isso não é um casamento de verdade, não vamos dormir juntos — disse a brasileira, resoluta. — Prometo manter as minhas mãos longe de você. Então ele tinha senso de humor. Perigoso. Sempre sentiu uma queda por homens bonitos, mas os engraçados tinham o poder de deixá-la de quatro, e isso era só um negócio com tempo determinado, tudo que menos precisava era gostar dele. — Posso colocar isso em contrato, se quiser — Vladmir ofereceu. — Queremos — Chris respondeu. — Bem, se já decidimos tudo — começou Peterson — vou revisar as suas exigências e acrescentar ao contrato, amanhã estará tudo pronto. — Tem só mais uma coisa. — Sim, senhora Ferreira. Displicente, ela leu a última linha do contrato. — E? Era impressão sua, ou o tom de Stephanovich havia ficado mais frio? Perguntou-se Perpétua, intrigada. — Aqui diz que receberei uma "bonificação" — fez o sinal de aspas com os dedos ao pronunciar a palavra — ao fim das nossas "negociações". — Correto. — Não concordo com isso. A temperatura da sala caiu uns 10 graus, e mesmo que a sua postura permanecesse igual, a mudança em Vladimir era incontestável. Os seus olhos azuis endureceram-se como aço, a sua mandíbula se contraiu e as suas mãos se fecharam em punhos sobre a mesa — por apenas um instante, logo ele percebeu a sua ação involuntária e abriu as mãos, esticando os dedos calmamente. — O valor não a agrada? — Esse valor agradaria a qualquer um. — Então? Sem entender a atitude — que só ela pareceu captar, visto que tanto Chris, quanto Peterson agiam com total indiferença — Perpétua não recuou. — Quero que a tire do contrato. — Tem certeza? Estava maluca ou ele estava sendo sarcástico? — Absoluta. — Por quê? — Estou aceitando isso por um único motivo, não preciso do seu dinheiro. — É a primeira mulher que me diz isso. Definitivamente, o desgraçado está sendo sarcástico. — Bem, se o seu modus operandi é jogar quantias absurdas na cara delas, a reação não me surpreende. Então, ele sorriu — a enfurecendo. — Vamos entrar nessa de igual para igual, Stephanovich — disse a brasileira, entre dentes — você me ajuda com algo, eu retribuo o favor e ambos ficamos felizes — ergueu a cabeça com desafio, e encarou aqueles olhos frios — meu visto é todo o pagamento que desejo. — De acordo. As duas palavras estavam cheias de tanta autossatisfação que Perpétua sentiu um arrepio subir por sua espinha, um pressentimento de que estava se metendo em águas muito mais profundas do que imaginava. __________ — Agora entendi porque a escolheu — disse Gabi ao amigo, que ainda encarava a porta por onde a peculiar senhora Ferreira havia partido. — Entendeu? — encarou o outro com um sorriso cínico. — O seu pai vai surtar quando a conhecer. — O meu pai vai surtar quando não conseguir dobrá-la — o corrigiu. E esse em si já era um ótimo motivo para tomar Perpétua Ferreira da Silva por esposa.
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