Vladimir gostava do La Casa, era elegante, bem frequentado e ficava perto o bastante do escritório para um almoço rápido. A comida era boa e os funcionários tinham uma postura impessoal tão suave que dava a falsa sensação de privacidade mesmo numa mesa no restaurante lotado.
Ela já o esperava, em uma mesa para dois, próximo as grandes janelas que davam vista da rua.
Perpétua Ferreira da Silva era bonita, foi obrigado a admitir: pele n***a, cabelo cacheado e selvagem, um perfeito reflexo da sua personalidade. A boca carnuda — agora apertada em desagrado — e os olhos.
Que olhos. Foi obrigado a admitir.
Tão limpo quanto o melhor whisky, um pouco puxado, e assustadoramente expressivos.
— Senhorita Ferreira — cumprimentou ao se aproximar.
— Tem apenas cinco minutos — respondeu rispidamente — não o desperdiçaria com falsa educação, se fosse você.
Ela estava com raiva e isso refletia-se tanto no seu tom de voz quanto na sua postura defensiva, com os braços cruzados — o que seria uma garfe na etiqueta, considerando o lugar onde estavam — a respiração descompassada. Vladimir podia quase ouvir os seus pensamentos furiosos.
Bom, será mais fácil assim.
O descontrole era uma das armas mais úteis, enquanto ela estivesse nesse estado de espírito não raciocinaria direito e o sucesso do seu plano dependia do desespero dela.
— Valorizo muito o meu tempo — sentou-se na mesa — e não se preocupe, o seu não será desperdiçado.
— Diz o cara que me fez esperar por mais de uma hora — Perpétua levantou uma sobrancelha com sarcasmo.
— Peço desculpa por isso.
Ele realmente sentia, se a tivesse conhecido antes talvez grande parte do pesadelo que a sua semana havia se tornado pudesse ter sido evitado, porém, por outro lado, tenha sido melhor dessa forma.
Vladimir havia visto sua força, e gostou.
— Não foi o que me pareceu... — ela deu a impressão de querer dizer muito mais que isso, porém, interrompeu-se com a aproximação do garçon — ah, não vamos querer nada, obrigada.
A sua voz era suave, até mesmo cortes, quando se dirigiu ao homem baixinho e impecavelmente uniformizado.
Talvez ela esteja mais calma do que aparenta. E isso provavelmente seria um problema.
— Senhor — o garçon voltou-se para ele, ignorando a recusa de Perpétua de uma forma muito educada, mesmo assim, Vladimir percebeu quando ela mudou de postura e fulminou o baixinho.
Bem melhor assim...
— Um vinho branco e...
— Ainda vou trabalhar — ela grunhiu, o interrompendo.
— A menos que seja médica, policial, ou dirija veículos de grande porte — Vladimir ponderou, indiferente a sua hostilidade — não vejo problemas numa taça.
— O problema não é a taça, mas a companhia — devolveu — você tem dois minutos.
— Apenas o vinho — disse, encarando o garçon.
— Deseja a carta de vinhos, senhor? — ele tinha um leve sotaque francês.
— Não, confio no seu julgamento — vinha naquele restaurante pelo menos três, ou quatro vezes por semana e nunca havia se decepcionado com o atendimento, tinha a certeza de que não seria diferente daquela vez.
— Sim, senhor — e com essas palavras o homem fez uma pequena mesura e retirou-se.
— Agora você tem segundos...
— Fale sobre o seu caso, senhorita Ferreira — encarou aqueles olhos castanhos flamejantes.
— Sobre o que você quer saber? — perguntou na defensiva — não conversou com a Elizabeth?
— Sim, e ela me deu uma das versões da história, a mais sensata, acredito — não queria irritá-la, entretanto não conseguia se conter, uma reação tão incomum a ele que estava acostumado a estar sob controle em qualquer situação — agora quero ouvir a sua.
— A versão dela provavelmente é a melhor — se calou por alguns segundos, como se estivesse revendo todos os fatos que a levaram até ali — eu tinha um namorado, ele me traiu e como retaliação, coloquei fogo na casa dele, ponto.
— Algo me diz que é um pouco mais interessante.
— Ele é do partido conservador e tem muitos contatos — disse com um tom exageradamente alegre — quase morri queimada e serei deportada em alguns dias se você não for tão bom quanto dizem.
— Sou bom e você não será deportada — afirmou com toda a convicção e arrogância de alguém que sabia o valor da própria competência — é só seguir as minhas orientações.
— Disse a aranha à pobre mosca... — cantarolou com sarcasmo.
Nesse momento o garçon voltou e serviu — com toda pompa e circunstância — o vinho na taça de cristal que estava à mesa, ambos permaneceram em silêncio até ficarem sozinhos novamente.
— Fiz algumas pesquisas — deu um gole no vinho, era amadeirado e suave, uma ótima safra — o senhor Boldari não fez uma queixa, mas as leis dos Estados Unidos são bem rígidas quanto ao código de conduta de um imigrante, porém você não é reincidente e isso é bom.
— Não sou uma piromaníaca! — disse indignada — e nós dois sabemos que as leis são um pouco mais que rígidas, quando se trata de estrangeiros, como pretende mudá-las?
— Não vou mudar a lei, vou mudar você — respondeu com simplicidade.
— Acho que perdi alguma parte da conversa — estreitou os olhos em confusão — como pretende me mudar?
— Vou mudar a sua condição de imigrante frente à justiça, será julgada como uma cidadã americana e como serei o advogado, tudo terminará em algumas multas, talvez trabalho comunitário.
— Sou brasileira e nem você, na sua infinita soberba, pode mudar isso — sarcasmo pingava em cada palavra.
— Eu não, mas você sim — deu um gole demorado do vinho, tanto para saboreá-lo, quanto para dar um tempo a ela.
— Como?
— Case comigo.
Perpétua ouviu as palavras — ditas naquele tom rouco e ligeiramente arrogante — mas não conseguiu fazer com que fizessem sentido na sua cabeça.
Ela abriu a boca como se fosse pronunciar alguma coisa, porém, voltou a fechá-la abruptamente quando o reconhecimento finalmente atravessou a névoa de descrença.
— Você só pode ser louco — guinchou, de uma forma nada discreta.
Uma socialite de meia-idade, que estava na mesa ao lado, lançou um olhar de reprovação na sua direção, no entanto, Perpétua estava envolvida demais no seu drama para perceber — ou se importar.
— Muito pelo contrário, senhorita Ferreira — rebateu Vladimir — é a saída perfeita para o seu problema.
— Exatamente, para o meu problema — ela estreitou os olhos — acredito que se casar com os clientes não seja sua principal estratégia num processo.
— Não — negou, seco.
— Deus, você é doido e... — a mulher parou por alguns instantes como se tivesse chegado a uma conclusão odiosa demais para ser pronunciada — não vou t*****r com você!
— Desculpa se p... — o advogado começou, mas foi imediatamente interrompido por ela.
— Não sei qual é a merda que vocês andam vendo na TV, mas não é porque sou brasileira que sou promiscua — Perpétua cuspiu as palavras, já preparando-se para levantar da cadeira — posso estar um tanto desesperada, só que ainda tenho muito amor-próprio.
— Perpétua — a sua voz já não continha calma, mas frieza, tão ártica que ela poderia jurar que sentia o toque do gelo descendo por sua espinha.
Ele não se moveu, porém, aquele olhar pálido e autoritário prendeu a sua atenção. Ela não era o tipo de mulher que reagia bem a ordens, entretanto, com apenas uma palavra, Vladimir Stephanovit a fez sentar e ouvir.
— Se eu quisesse uma companhia, acredito que exista formas muito mais baratas de consegui-la do que o matrimónio — olhos azuis encararam os castanhos — o nosso casamento seria uma relação puramente profissional.
— Isso é o que você diz agora — rebateu com ironia — eu digo sim e daqui a um mês, vou estar presa no seu porão, com uma coleira escrito "minha escrava".
— Não creio que isso vá acontecer — ele negou, com uma nota distante de humor.
— O seu tom poderia até me ofender, se a situação toda não fosse tão descabida — sibilou como uma cobra — estou um pouco confusa, fui ao seu escritório porque coloquei fogo no apartamento do meu ex-namorado, e você, um homem notoriamente inteligente, me pede em casamento e não espera nenhuma espécie de... interação s****l.
— Exato.
— Por quê?
— Não será um casamento convencional, mas um acordo de negócios.
— Negócios — ela recostou-se na cadeira, focando toda atenção nele — ganho o meu passe para ficar no país, e você...?
— Preciso me casar.
— Terá que me dar mais detalhes se quiser colocar um anel no meu dedo, querido.
O homem parecia estar tendo um debate interno — ou talvez fosse à impressão que queria passar, Perpétua pensou, realmente não confiava em advogados.
— Sou presidente do Advocacy Stephanovich, porém, o meu pai é o dono — ele tomou um gole do vinho — tenho que cumprir as suas exigências se quiser manter o meu cargo.
— Você sabe que isso é chantagem, não é — ela levantou uma sobrancelha perfeitamente delineada para enfatizar o seu argumento — e que se ceder dessa vez, é só uma questão de tempo até que ele arrume outro motivo?
— Não tenho escolha.
— Claro que tem — Perpétua rebateu — procure outro emprego, casamento é uma coisa séria, não pode ser tomado dessa forma.
— A Advocacy Stephanovich é o meu legado, fui educado para geri-lo antes mesmo de terminar o ensino médio — não falava de forma arrogante, mas puro e simples orgulho.
— Tudo bem — ainda parecia loucura se sacrificar tanto por um cargo num escritório de direito, no entanto, parte dela entendia o que era arriscar tudo por um objetivo, acordar pela manhã e sentir-se orgulhoso de ter conseguido chegar exatamente onde queria, onde pertencia — entretanto, ainda não entendo o porquê de ter me escolhido, não estou sendo depreciativa quando digo que teria milhões de escolhas melhores, você não me conhece, não pertencemos aos mesmos círculos e somos o extremo oposto um do outro.
— Sim, tudo que sei sobre a senhorita pode ser escrito numa folha de papel ofício e ainda sobraria bastante espaço — parecia falar sobre as características do vinho que tomava, ou um dos pratos servidos no restaurante, calmo e racional — poderia muito bem me casar com uma herdeira de boa família, mas a natureza humana é uma coisa volúvel e um ótimo negócio poderia rapidamente tornar-se um escândalo.
— Então, me escolheu porque acha que não vou vender essa maluquice toda para uma revista sensacionalista?
— Tem tanto a ganhar quanto eu.
— A perder também.
— Exato — ele tomou mais um gole da sua bebida — acredito que a garantia do seu sigilo absoluto seja um motivo bom o bastante para escolhê-la.
— E eu aqui pensando que tinha se encantado por meus doces olhos castanhos — suspirou — o que está me propondo é um crime.
Ele não disse nada — não que precisasse, a moça pensou — a sua expressão deixava transparecer todos os seus pensamentos.
— Foi um acidente, não queria colocar fogo no apartamento todo — defendeu-se Perpétua, irritada — não me olhe assim, não sou uma piromaníaca.
— Tudo que disser — o advogado devolveu e surpreendeu a mulher quando sorriu, apenas um repuxar de lábios, tão frugal que ela não teria percebido se não tivesse tão focada nele — e só é considerado um crime se formos pegos, o que não vai acontecer.
— É assim que tranquiliza os seus clientes, porque não estou me sentindo muito segura com essa arrogância m*l disfarçada — ela passou as mãos pelos cabelos, nem podia acreditar que estava tendo aquela conversa — vamos ser presos.
— Não há nenhum motivo para desconfiarem de nós.
— Claro que tem!
— Você é uma mulher bonita, nos conhecemos em um evento — ele começou — saímos algumas vezes, me apaixonei e te pedi em casamento.
— E fomos felizes para sempre...
— Não, por alguns anos.
— Ok, mas está esquecendo uma coisa muito importante, querido — ela lhe lançou o sorriso mais doce que tinha — há algumas semanas, eu tinha um namorado.
— Apenas um inconveniente, vocês terminaram e nós nos casamos.
— Você aceitaria compartilhar uma mulher com outro homem? — perguntou, realmente curiosa.
— É uma situação hipotética — algo perigoso rondava nas profundezas dos olhos azuis.
Perpétua o analisou lentamente — olhos penetrantes, ombros largos, cabelos negros — absolutamente tudo no homem gritava possessividade e controle.
— Não para os caras da imigração — ela rebateu.
— A senhorita é uma agente literária, ganha a vida vendendo histórias, não será difícil cobrir as falhas da nossa.
— Eu vendo histórias, não as crio — o seu tom transparecia a exasperação que sentia com a calma dele — acho que você não parou para pensar em todas as consequências dessa brincadeira.
— Já pesei todos os prós e contras da nossa negociação, e não estaria propondo se não achasse que fosse seguro.
A forma como ele falou a palavra "negociação" arranhou o temperamento dela. Mesmo que Perpétua não fosse uma religiosa fervorosa, tinha sido criada em uma família cristã e levava bem a sério o sagrado matrimónio, não era apenas um contrato com um fim pré-determinado, mas um compromisso assumido por amor.
Algo que começava tão errado, jamais daria certo.
— E quando foi que ponderou sobre tudo isso, nos 68 minutos que me fez esperar na recepção, ou nos 15 que estamos aqui?
— Sei que pode parecer uma ideia tola...
— Se formos descobertos — ela o interrompeu — vou ser deportada tão rápido que nem terei tempo de cancelar a minha TV a cabo.
— Não vamos.
— Senhor Deus, ficar repetindo isso toda hora não vai mudar o fato de que estamos planejando um crime, que tem muito mais chances de dar errado que certo — ela nunca precisou tanto de um cigarro como naquele momento.
Maldita hora para parar de fumar.
— Não precisa decidir nada agora — Vladimir disse gentilmente, como se estivesse tentando acalmar uma criança histérica.
— Claro que tenho — sentia-se encurralada, e por mais i****a que a ideia parecesse, Perpétua realmente a estava considerando — não posso ser deportada.
— Estou lhe oferecendo a oportunidade de permanecer exatamente onde está — os seus olhos pálidos refletiam uma empatia e suavidade, que dificultava ignorar as suas palavras — não precisa se preocupar com absolutamente nada.
— Isso não me tranquiliza.
— Pense, se trata de um negócio — Vladimir terminou o seu vinho — estaremos casados por pouco tempo, não precisa mudar a sua vida inteira por isso.
— Se formos pegos? — era uma pergunta feita em tom de afirmação.
— As suas chances de conseguir reduzir os danos e não ser deportada são mínimas, mesmo que eu assuma a causa — ele explicou — seu namorado...
— Ex-namorado — Perpétua o corrigiu automaticamente.
— O seu ex-namorado é um político e estamos em época de eleição, seria muito mais simples para ele usar a sua influência e fazer com que volte para o seu país.
— Robert nunca faria isso — mesmo quando as palavras deixavam os seus lábios, a sua mente gritava um debochado "será?".
— Estaria disposta a apostar suas chances nisso?
Não.
— Tenho que pensar — respondeu ao invés de dar voz aos seus pensamentos.
— Tudo bem — o advogado concordou — mas você tem três dias para decidir.
— Não posso tomar uma decisão tão importante em três dias — disse exasperada.
— Nós não temos mais tempo.
A verdade dessa declaração apertou o seu coração e a encheu de ansiedade.
No fim, ela não tinha realmente uma escolha.