01.

2757 Palavras
Ava. - Que conste que isto me faz parecer ridícula e estúpida - comento, dentro do meu carro, enquanto a neve cai lentamente sobre o meu carro. - Por que eu te dei ouvidos? - Porque por dentro você sabe que existe a possibilidade de que o Adam esteja com outra pessoa. Solto um suspiro. Estou fazendo o certo? Eu nunca fui detetive, mas sei que deveria fazer algo além de simplesmente ficar dentro do carro do lado de fora do escritório da minha empresa. - Deveria entrar? - Você está louca? A ideia é pegar ele em flagrante, e se ele te ver, não vamos saber de nada. Você tem que ficar aí, esperar ele sair e segui-lo. Depois de algumas conversas com a Janice, ela desliga porque precisa cuidar do blog dela e de outras coisas. Embora ela tenha me ajudado bastante, já que eu estou no carro dela, porque, segundo ela, vir no meu carro seria muito óbvio. Começo a suspeitar que esta pode não ser a primeira vez dela bancando a detetive, quando vejo o meu marido saindo do prédio. Estamos no inverno, a cidade de Nova York é muito fria nesta época do ano, é por isso que todo inverno costumávamos pedir comida nos escritórios quando eu estava lá. No entanto, vejo que ele sai na hora do almoço. Ele se estica um pouco na entrada, leva algumas pastas consigo e de repente, vejo uma mulher que eu não conheço saindo. Claramente eles estão juntos, pois começam a caminhar pela rua, conversando animadamente, sem se importar com a porcaria da neve que cai sobre eles. Eu estou congelando mesmo com o aquecedor ligado, mas parece que nada disso importa para eles, e eles apenas caminham enquanto meu sangue ferve. Procuro entre as coisas de Janice no carro, que parece um apartamento de solteiro, e encontro um óculos de sol. Isso é o suficiente para mim, coloco meu gorro depois de cobrir todo o meu cabelo e finalmente saio para a rua, seguindo-os a uma distância segura. Não vejo nenhum gesto de aproximação entre eles, nem mesmo consigo ver o rosto da mulher ao lado dele. Vejo que eles entram no restaurante onde costumávamos pedir nosso almoço e se sentam na mesma mesa em que costumávamos nos sentar quando íamos juntos. Aquilo me deixa chateada. Quero dizer, eles podem dizer que estou imaginando coisas ou até mesmo que estou agindo de forma boba, mas aquele pequeno ato, de desfrutar com outra pessoa algo que costumávamos fazer juntos, me destroça. Eles pedem comida e eu fico observando-os, como uma louca, procurando por qualquer olhar, toque ou gesto, mas não vejo mais do que duas pessoas almoçando e revisando papéis. Depois de uma hora, ambos se levantam depois de pagar e a única coisa que noto é que ele abre a porta para ela, nada mais. Nem mesmo um sorriso, o que me tranquiliza um pouco. Quando volto para o carro, a primeira coisa que penso é que enlouqueci. Finalmente provei ao Adam que a Janice é uma má influência porque eu nunca teria tomado a decisão de segui-lo. Quero dizer, isso não me foi ensinado nas aulas de etiqueta e se a Sra. Higgins descobrir, com certeza terá um ataque cardíaco. Jogo no meu celular, releio algumas páginas do meu livro online, penso em voltar para casa enquanto as horas passam e eu morro lentamente com todas as merdas que passam pela minha cabeça. Sério, eu enlouqueci. Como vou explicar para o meu marido que fiquei o dia todo perseguindo ele para ver se ele estava fazendo algo errado? Desde que cheguei esta manhã, o coitado nem mesmo saiu depois do almoço porque provavelmente tem muito trabalho e os problemas dele de atitude estão acompanhados por problemas no trabalho. Depois disso, ele terá todo o direito de me incomodar. Quando nos casamos, prometemos ter confiança um no outro, e é por isso que colocamos nosso dinheiro em uma conta comum, enquanto em outra separada temos o dinheiro que nos pertence por herança, cada um com a sua. O caso é que o dinheiro nunca foi um problema porque, não importa quanto gastamos, sempre repomos e isso é confiança, dar algo tão importante como suas finanças pessoais a outra pessoa sem questionar. Dei esse passo, que nem mesmo meu pai queria que eu desse. Lutei contra todos por isso, eles queriam propriedades compartilhadas, mas o Adam garantiu a eles que nosso amor era para sempre, e eu acreditei nele. Eu acredito nele. Ele nunca me mostrou o contrário. Sempre correto, com as palavras certas e no momento certo. Ele... Adam é a história perfeita. - Estou cansada, vou embora daqui - comento para mim mesma, quando vejo a maioria dos funcionários começarem a sair para ir para casa. Quanto mais minutos se passam, mais penso que devo ir para casa porque sei que ele deve estar prestes a sair, mas ele está demorando demais, então eu fico, mesmo depois de ligar o carro. - Eu não quero desconfiar de você. Vinte minutos após o horário de saída, decido ligar para ele. Para ele, estou em casa, e já que o carro da Janice é blindado, o barulho de fora não é perceptível, então me arrisco. Cinco toques, uma chamada perdida, cinco toques mais e ele finalmente atende. - Alô - ele diz simplesmente. - Ainda estou trabalhando. Eu engulo em seco. - Você não vai voltar para casa hoje? Ele hesita por alguns segundos. - Eu acho que não, tenho muito trabalho e realmente preciso terminar. - Você tem um escritório em casa também - eu lembro. - Ava, você precisa de algo? Tenho que desligar. Eu solto um suspiro. - A que horas você acha que vai chegar? Eu gostaria de tomar algumas bebidas com você. Faz um tempo que não passamos uma noite juntos - comento. - Bem, eu não tenho tempo. Talvez eu chegue depois da meia-noite, então não fique acordada me esperando. Tchau, Ava. Eu nem mesmo tenho tempo para perguntar mais alguma coisa quando ele desliga, e por mais que eu ligue de novo, sei que ele não vai atender. Um milhão de perguntas inundam minha mente. Será que a Janice estava certa ou ele realmente tem muito trabalho como disse? Se for o segundo caso, eu entenderia que ele não quisesse dormir, mas chegar à meia-noite? Todos sabem que em Nova York é perigoso dirigir de madrugada no meio do inverno. As ruas ficam cobertas de gelo, tem neblina e é quase impossível dirigir com tranquilidade quando o clima está tão frio como este ano, mas parece que ele não se importa e juro que eu também não me importaria, se não fosse pelo fato de que eu vejo o carro dele saindo do prédio quase cinco minutos depois de falar comigo. Com aquela mulher ao lado. Ligo o carro e sigo atrás dele. Não quero pensar em nada, realmente estou tentando manter minha mente o mais vazia possível e é fascinante para mim ter a resposta para esse comportamento, saber que ele está fingindo para me fazer uma surpresa, que está planejando deixá-la em algum ponto de ônibus para que ela volte para casa, mas quando ele pega o caminho oposto da nossa casa, pensamentos ruins me invadem e lágrimas me nublam a visão. Não quero chorar. Assim que paro em um semáforo, limpo meu rosto para poder dirigir melhor enquanto os sigo a uma distância considerável, sem chamar a atenção. Rezo para eles não irem a um motel, isso eu realmente não suportaria depois do nosso último encontro s****l na noite anterior, quando ele me acordou para t*****r e depois dormiu sem sequer me dar um beijo. Não quero, me recuso a acreditar. E bem quando penso que estou morrendo lentamente, ele para em frente a um restaurante um pouco modesto. Ele abre a porta, tento ignorar o fato de ele segurar a mão dela, mas não consigo. Eu não desço do carro porque não é necessário, já que eles sentam na mesa virada para o estacionamento, onde tenho uma visão perfeita dos dois. Então acontece, ele segura a mão dela. Eles entrelaçam os dedos enquanto são servidos com uma garrafa de champanhe e fica claro que eles têm um relacionamento muito próximo. Eu consigo perceber isso pela maneira como ele a olha, como costumava fazer comigo. É nesse momento que meu coração precisa confirmar o pior dos meus últimos anos. Sendo masoquista de nascença, pego meu celular ligando para o número dele, sendo testemunha de como ele rejeita a ligação assim que vê que é sou eu e isso me quebra, mas tento novamente. Ela revira os olhos, fica séria e ele pede uns minutos, fazendo sinal para que ela se mantenha em silêncio. Isso me irrita. Quantas vezes eu liguei e eles tiveram essa mesma interação? - Fala, Ava. Eu engulo em seco. - Você poderia voltar? - O que aconteceu? Você está doente? Porque eu posso ligar para a Janice para ela ir te ver. - Eu não quero a Janice, eu quero o meu marido - eu digo com autoridade - Por que você não deixa o trabalho? Vejo ele revirar os olhos. - E perder horas inestimáveis? Não, obrigado. Nos vemos amanhã, se você não tiver mais nada para dizer. Eu aperto os dentes com força. - Eu vou levar comida para você. - Não é necessário. Eu irei jantar. - Com quem? - Sozinho - i****a - Mais alguma coisa? Você quer que eu mande uma foto? Vejo que você está delirando de novo. Ele está tão cansado de mim que faz caretas para ela sorrir. - Ava, pare de incomodar, eu não estou fazendo nada de estranho, eu prometo. Eu engulo em seco. - Incomodar? - Sim - ele admite firmemente - Adeus, nós conversamos amanhã sobre as suas histerias, eu tenho muito trabalho. Ele desliga de novo, me deixando sozinha neste carro, com frio, segurando um celular e com o coração partido, e então ele simplesmente senta como se nada estivesse acontecendo na frente dela, a quem ele segura a mão novamente. Ambos sorriem, são felizes com a dor que me causam, com a traição, e ela sabe disso. Talvez ela tenha falado de mim para ele, talvez outros tenham feito isso, mas ela sabe que ele é um homem casado, e ela está desfrutando disso. Ser a amante para ela é o melhor, ela se sente bem e eu percebo. Ela é uma... E é aqui que eu alcanço o limite, vendo um garçom se aproximar dela com um bolo com as velas acesas. Ela ri animada, ele a surpreendeu. Ela tira seu celular para tirar fotos enquanto ela assopra as velas e os outros clientes cantam Parabéns, fazendo a verdade ecoar em meus ouvidos, que ele preferiu passar o aniversário com a amante ao invés de passar o aniversário de casamento comigo. Maldição. Eu não aguento mais. Não pretendo me segurar e, mesmo que eu quisesse, a bola de fogo que toma conta do meu coração está queimando tanto por dentro que eu grito com toda a força do meu ser dentro do carro, chamando a atenção de vários clientes lá dentro, inclusive deles, embora não possam me ver por causa da escuridão, dos vidros escuros e dos óculos que estou usando. Eles só sabem que tem uma louca berrando dentro de um carro. Não quero continuar sendo motivo de riso e é por isso que eu arranco, indo em alta velocidade para aquela casa maldita onde o i****a chega depois de t*****r com essa outra mulher, fingindo que ainda sente algo por mim, me usando enquanto ela não quer saber de nada, e transando comigo enquanto está com ela. Aquilo me dá ânsia de vômito. Como é possível que o amor acabe tão rápido? Em que mundo faz sentido agir dessa maneira com uma mulher que te deu tudo? Porque eu cumpri o capricho dele de nos casarmos, foi ele quem propôs, para assim manter a droga da empresa unida e dar uma imagem mais séria e comprometida para os funcionários. Foi ele que quis adiar ter uma família no início, porque ele dizia que não era o momento e me fez acreditar que foi uma decisão dos dois, quando na verdade eu apenas caí em seu maldito jogo. E foi ideia dele que eu saísse do meu emprego, que eu saísse da empresa e talvez tenha sido para que ele continuasse com ela sem qualquer intervenção minha, fingindo que queria começar uma família, então agora estou no fundo do poço, pensando que tudo o que ele me disse desde que eu saí, foi uma mentira. Como é possível ferir dessa forma e dormir tão tranquilo à noite? Suas ações me machucam, suas palavras justas e secas, suas atitudes bruscas e suas noites dormindo fora de casa. Todos foram sinais que ignorei por simplesmente amá-lo como amo, por acreditar nele de olhos fechados, pensando que tudo era minha imaginação, que ele nunca seria capaz de me fazer tanto m*l e então o encontro numa noite bebendo e se divertindo com uma mulher a quem não precisou mentir e a conquistou, usando a aliança de casado na mão. A repulsa que sinto não se compara ao ódio que meu coração guarda neste momento, buscando o momento perfeito para explodir. Juro que me sinto como uma bomba-relógio, daquelas que têm cronômetro e tudo, porque quando estaciono na frente da mansão que comprou para quando "tivermos filhos", perco completamente o controle. Desço da caminhonete. Sinto minhas pernas falharem, sinto uma labareda ardendo no peito, é o que agora me dá o poder para continuar. Abro a porta, sem me importar com quem eu acorde, jogo a primeira coisa que encontro contra a parede onde repousa uma foto de nós numa comemoração natalina há sei lá quanto tempo. - Seu desgraçado! - grito com força, sentindo a ardência em minha garganta, a mesma que me garante que em breve explodirei com mais força. Pego um vaso, presente de casamento, fazendo-o em pedaços no chão da sala, aproveitando o som que ele faz ao se partir em milhões de pedaços. Parece que sinto a necessidade de liberar minha frustração dessa forma, porque assim tenho certeza de não ter um maldito AVC. - Mentiroso, canalha, manipulador maldito! - lanço meu sapato no espelho da entrada. Estou cega. Nada em mim funciona como deveria, porque agora sou um corpo cheio de tudo: ódio, raiva, vergonha, dor, irritação. Tudo ao mesmo tempo e de uma só vez. Sentimentos contraditórios, guardados por semanas inteiras, estão saindo à tona, e é por isso que não vejo a Janice, mas minha mente a focaliza quando ela me sacode pelos ombros. Ao ver sua expressão alarmada, sei que algo está errado comigo, porque nunca a tinha visto tão assustada em toda minha vida. - Meu Deus, mulher! O que há com você? Você está quebrando a casa toda! - Esse filho da... O canalha... - ela entende perfeitamente sem tantas palavras, mas mesmo assim tenho que dizer, porque para mim será mais fácil admitir isso na frente dela do que sozinha. Respiro fundo, reúno coragem e a pouca dignidade que me resta, quando admito que o homem que quase idolatrei me valoriza o suficiente para colocar uma amante acima de mim. - Ele tem outra mulher. Hoje é o aniversário dele, ele ficou com ela e mentiu para mim, Janice. Esse homem... Meu Deus, o que eu farei agora? O que vem depois disso? Ela acaricia meus ombros. - Agora nada, porque você está muito abalada. Você pegará algumas coisas, virá para minha casa para que não o encontre quando voltar. Arrumaremos algo depois, mas, por enquanto, é o que faremos -sussurra, fixando o olhar em mim - E amanhã você examinará tudo o que se recusava a ver. Contas bancárias, transações passadas, você seguirá os rastros dele como um cão de caça, querida. Vamos juntar provas, você poderá fazer o que quiser com elas, mas será forte amanhã. Hoje, agora, chore o quanto quiser, porque não quero ver essa fraqueza em você de novo, não quando uma tempestade se aproxima. Lágrimas escorrem pelas minhas bochechas. A dor que sinto é avassaladora, mas mais avassalador é não saber como diabos continuar amanhã nessa vida em que estou casada com canalha daqueles. - E depois disso, o quê? Sinto... Droga, Janice, ele destruiu meu coração, minha dignidade, minha vida... - E por isso você vai destruir a dele.
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