Ava.
No primeiro dia eu chorei. Chorei tanto que no dia seguinte m*l conseguia abrir os olhos de tão inchados que estavam, mas chorei tudo o que tinha para chorar. Por mim, pelos anos que passei enganada, pelo tempo perdido, pelas noites m*l dormidas sozinha acreditando que tudo o que ele queria era uma vida melhor para nós quando, na verdade, ele passava o tempo inteiro com a amante dele.
E além de chorar, eu gritei.
Agradeço a Janice por ter uma propriedade tão grande quanto a minha, porque se não fosse assim, tenho certeza de que as autoridades já teriam batido na porta perguntando por que diabos tem uma louca que não consegue ficar quieta. A única coisa boa disso é que pelo menos desabafei junto com uma garrafa de vodka, o que me arrependi de manhã.
Assim se passaram três noites completas, até chegarmos aos últimos dias da semana, onde me recusei a atender a porta, mesmo sabendo que era ele me procurando. Eu tinha deixado uma nota dizendo que Janice tinha tido um problema e precisava de mim, mas nada além disso, o que começou a ser bastante suspeito quando mais de três dias se passaram sem que ele voltasse para casa.
- Você tem que responder a ele - diz minha melhor amiga, deitada na sua cama. - O que você tem a perder? Afinal, ele já fez tudo de r**m que um homem casado não deveria fazer.
Bufei.
- Você poderia ter um pouco mais de tato?
Ela revira os olhos.
- Desculpe, esqueci que você acabou de ser traída, mas faça isso, vamos ver o que ele diz, se mostra um pouco de sentimento agora que você não está em casa o tempo todo.
Mordo o lábio inferior.
- E o que eu vou dizer a ele? Por que não voltei para casa?
Eu nunca consegui mentir, nunca fui boa nisso, muito menos para Adam, que me conhece tão bem que basta apenas um olhar para perceber que algo está errado. É por isso que eu observo a tela do meu celular se iluminando novamente com uma chamada dele. Se eu vou mentir, tem que ser agora, embora eu não esteja certa se aguentarei tudo o que planejo dizer.
- Diga que tivemos que fazer uma viagem rápida para a Escócia a trabalho.
Franzo a testa.
- Escócia? Não pode ser nos Hamptons? Temos uma casa lá que nunca vamos.
Janice, pensa um pouco, então me olha com os olhos arregalados.
- O quê foi?- pergunto.
- Você acha que ele a levou para lá?
- A amante dele?
- Por que não? Você acabou de me dizer que vocês nunca vão lá, não é uma má ideia.
Neguei com a cabeça. Adam não seria capaz disso. Quero dizer, eu sei que o comportamento dele agora é o de um i****a, mas tenho quase certeza de que ele não faria isso comigo sabendo o quanto eu amo aquela casa. Nós a compramos com a intenção de passar férias, embora não tenhamos tido muitas férias nos últimos anos. Embora haja alguém cuidando da casa para nós, me recuso a acreditar que ele a levou para lá, já que é o meu lugar favorito no mundo.
Mas minha própria mente me lembra que ele a escolheu justamente em nosso aniversário, o que é como uma facada que me dei. Suspiro.
- Adam tem uma viagem amanhã - lembro então - Ele disse que sairia por alguns dias, então não será um problema para mim ficar aqui.
- E se ele não for?
Encolho os ombros.
- Ele não pode me obrigar a voltar para casa se eu não quiser, e não acho que ele seja capaz, então vou responder, dizer que ainda preciso dele e que com certeza vou voltar para casa antes de ele voltar da viagem. Isso nos dará tempo para descobrir o que ele está tramando há alguns anos.
Ela faz uma careta.
- Se você quiser, tudo bem, apenas diga a ele para não ligar de madrugada, isso me irrita.
Quando a tela se ilumina novamente, espero pelo segundo toque para atender, enquanto respiro fundo, tentando fazer com que minha voz não trema como minhas mãos neste momento. Coloco no viva-voz porque sei que Janice não vai me deixar passar vergonha se algo der errado, enquanto ouço o bufar dele do outro lado da linha.
- Finalmente você atendeu, amor! O que está acontecendo com você? Já esqueceu que é casada?
Engulo em seco.
- Ava? - ele chama de novo.
- Oi - sussurro - Eu... estava ocupada demais para atender, desculpe.
- Três dias ocupada?
Sim, chorando ao saber que você tem uma amante.
- Eu perdi meu celular. Acabei de encontrá-lo, você precisa de algo?
- Se eu preciso? Você é minha esposa, Ava, você tem que voltar para casa. Já faz três noites.
- Fico até surpresa que você tenha percebido - solto, me arrependendo imediatamente - Quer dizer, nós quase nunca dormíamos juntos, pensei que você não iria notar.
- Querida, talvez você não saiba, mas todas as noites eu subo para te dar um beijo de boa noite antes de voltar a trabalhar. O que você está dizendo? Eu trabalho demais, mas isso não significa que eu não me importe com o que acontece com você. Quero que você volte.
Engulo em seco, tentando segurar as lágrimas.
- Eu não posso - sussurro - Janice ainda está com problemas, mas você vai viajar, então não vai sentir minha falta.
- Sempre sinto sua falta.
Mentiroso!
- Podemos nos ver quando eu voltar.
- Vou demorar alguns dias, talvez possamos nos ver antes para...
- Não - o interrompo - Agora não estou na cidade, saímos para fazer algumas compras, mas prometo que nos vemos quando você voltar e você pode me contar tudo sobre a viagem. O que acha?
A resposta dele demora e por alguns segundos penso que ele vai dizer que não, que quer que eu volte. Minha mente boba e apaixonada acha que ele ainda quer me ver, que vai implorar por um último beijo, mas isso não acontece e sua falta de interesse me traz de volta à realidade onde a prioridade dele não sou eu nem o nosso casamento, mas sim a amante dele.
- Tudo bem, como quiser. Nos vemos em alguns dias, Ava.
Ava. Costumava ser amor, querida, coisinha, docinho, e agora só sou Ava. Três letras, me tornei apenas três letras ligadas ao nome dele. Adam desliga e aquela sensação de queimação no peito fica mais intensa. Sei que disse que não surtaria de novo, que gritar e essas coisas me devolveram um pouco da tranquilidade, mas então as perguntas vêm à minha mente, aquelas que não me deixam em paz nem mesmo quando penso que o melhor que posso fazer é me acalmar porque nada dá certo quando fazemos tudo com pressa, mas minha mente trabalha e o ciúme me domina, muito mais.
- Não gosto desse olhar - comenta Janice - Ava, vamos fazer algo ilegal?
Eu olho para ela.
- Você teria algum problema com isso?
- Não, mas eu preciso saber quais ferramentas levar então.
- Estava pensando... E se ele for com ela? E se essa viagem não for de trabalho de verdade?
Ela faz uma careta.
- Mas isso é fácil de descobrir, basta ligar para a empresa e perguntar sobre a agenda dele.
Neguei com a cabeça.
- Eles vão perceber que tem algo errado se eu não souber sobre a agenda dele.
Ela revira os olhos.
- Querida, com certeza eles transaram mil vezes nesse escritório e com certeza seus funcionários sabem, então acho que não terão problema em te dizer o que está acontecendo.
- Não, isso está descartado.
- Então nós os seguiremos?
Mordo o lábio.
- Seria muito errado da minha parte saber onde ela mora e qual é o nome dela?
Janice segura minha mão.
- Ava, ela está trepando com seu marido, você tem todo o direito de saber quem diabos ela é.
Janice não é muito boa em ser a voz da razão. Se dependesse dela, faríamos um trabalho de inteligência como verdadeiras agentes do FBI, mas eu decidi que faríamos às minhas maneiras, assim como fiz da primeira vez. Entramos em um carro que Adam não conseguiria identificar, dirigimos até o prédio da minha empresa, estacionamos na frente para esperar o horário de saída, e enquanto conversamos sobre coisas sem sentido e imagino o que farei quando souber toda a verdade, vejo o carro dele sair com os dois dentro.
Janice dirige, cuidando para não se aproximar muito. Por um momento penso que eles vão direto para um motel porque é exatamente o que amantes fazem, quero dizer, não é como se eu fosse profissional nisso, mas assisti a muitos filmes para saber que os amantes preferem t*****r em todas as oportunidades. Na verdade, o sexo é a principal razão para ter uma amante, o que não entendo vindo do Adam porque nossa vida s****l era bastante intensa.
Não sei o que o levou a ter essa mulher em sua vida, mas meu coração quase para quando entramos na área de apartamentos, que é muito familiar para mim. E, para Janice, e para qualquer pessoa que nos conheça minimamente.
- Canalha.
- Ele não teria coragem - digo em voz alta, talvez para convencer a mim mesma.
Janice estaciona em frente ao prédio onde Adam acabou de entrar. Um dos mais caros da cidade, um lugar para pessoas privilegiadas que podem se dar ao luxo de ter algo assim, isso me surpreende porque, na verdade, é estranho que uma simples assistente possa morar no mesmo prédio onde ele me deu o apartamento de presente no nosso aniversário.
- Ele não teria coragem - repito.
- Você acha? Acabou de entrar.
Engulo em seco.
- Ele não... merda, merda...
- Isso acaba agora, você vai ter um ataque, droga.
Janice sai do carro antes que eu possa pedir para ela parar, o que também é pedir muito, já que sei que ela não vai fazer isso. Vejo ela cruzar a rua e entrar no prédio onde eu tenho um apartamento, e tenho um pequeno ataque de pânico.
Supostamente, nós teríamos nosso final feliz, ele era o príncipe encantado que me amaria para sempre, o nosso amor era mais forte do que qualquer outro laço na Terra porque nos conhecíamos. Ele conhecia meus medos, meus piores receios, o que eu mais desejo nesta vida. Ele... ele sabia de tudo e aos poucos percebo que ele não se importa nem um pouco.
Eu não importo nem um pouco para ele. Mantenho as mãos juntas, os dedos entrelaçados, rogando silenciosamente para que tudo o que penso seja uma mentira ridícula, que ele só a tenha trazido para passar a noite em outro quarto, mas quando vejo a expressão de Janice se aproximando do carro, perco toda a esperança. Ela entra no banco do motorista, olha para frente e só me entrega o celular com o qual ela gravou algo.
Aperto o play.
- Estou procurando pelos donos do apartamento 25.
- A Srta. Byrne está te esperando?
- Byrne? A dona é Ava Dawson.
- Ah, sim, esposa do Sr. Adam Byrne. Aqui está no sobrenome de casada dela, não o de solteira.
- Alguma vez você já viu a Sra. Ava?
- Ela desce todas as manhãs para ir trabalhar e volta com o marido todas as noites. Acabaram de subir, você quer que eu anuncie?
- Não, diga que uma amiga veio visitá-la, mas que não quis interromper. Muito obrigada.
O vídeo acaba e qualquer esperança de que Adam não seja um i****a completo também. Meu coração está despedaçado, quase completamente destruído, mas suponho que ainda há muitas coisas para descobrir antes que isso aconteça. Quero chorar, eu realmente quero me jogar na cama e passar mais três dias chorando, mas isso não resolve nada, já percebi isso, então limpo as lágrimas entregando o celular, repetindo a realidade de novo e de novo.
- O que fazemos agora?
- Vamos para sua casa.
- Tem certeza? Ava, eles estão lá em cima, você pode entrar e tê-los exatamente onde quer, por que esperar?
Nego com a cabeça.
- Vamos para tua casa, que preciso pensar. Não quero agir por impulso.
- Impulso? Impulso seria se você não soubesse com certeza que ele está lá em cima, mas sabe, nós duas vimos ele subir e não descer, então vá confrontá-lo, acabe com isso de uma vez.
Volto a negar.
- Não, preciso de mais.
- Mais evidência do que essa? A mulher mora no apartamento que ele te "presenteou", não sei do que mais você precisa.
- Preciso de mais, Janice.
- Para quê?
- Para não sentir remorso quando acabar com ele.
Quando chegamos à casa dela, minha mente está tão confusa que só consigo pegar meu laptop e começar a verificar seu e-mail, pois temos sua conta aberta, embora já faça tanto tempo que com certeza ele nem se lembra.
Também peço os recibos das contas bancárias, retiradas, transações financeiras, compras no exterior ou no país, tudo, e além disso, acesso o site da empresa onde estão os nomes de cada pessoa que trabalha lá, incluindo a assistente do meu marido, uma jovem de vinte anos, apenas uma estagiária, que vem trabalhando na nossa empresa desde que ele me "presenteou" o apartamento, há três anos.
Ele tem uma amante há três anos. Três malditos anos onde cada mentira passa pela minha mente como num filme, como se não bastasse, cravando uma faca imaginária no centro do meu peito quando penso que ele fingiu querer construir uma família comigo no ano passado e foi tudo só para me afastar.
Eu atrapalhava ele. Ainda atrapalho. E como se isso não bastasse, as contas bancárias mostram que ele tem transferido dinheiro para outra conta em seu nome. Pequenas quantidades, quase invisíveis para qualquer pessoa, até mesmo para mim, porque eu nunca notei as pequenas compras que ele fazia, como os colares da Tiffany ou as viagens para o exterior em hotéis cinco estrelas.
Esse filho de uma c****a, aos poucos, entregou a minha vida para essa mulher.
- Isso é terrível demais, Ava, você poderia até mesmo levá-lo para a prisão - comenta Janice, preocupada com tudo o que encontramos.
Mas eu não quero isso, não quero vê-lo atrás das grades. Como a prisão poderia se comparar à justiça pelas próprias mãos? Com o dinheiro que ele tem, tenho certeza de que nem pisará em uma prisão, nem ela, porque as transações foram legais, eu fui a i****a que não percebeu na época, não tenho outra opção, e se tivesse, escolheria a minha opção.
- Não quero que ele vá para a prisão, quero vingança - admito, com a voz quebrada - Janice, esse desgraçado vem me enganando há três anos, você percebe? Nem mesmo três anos de prisão vão me fazer sentir melhor, só... só quero que ele sofra.
Ela segura a minha mão.
- Querida, você não é assim. Você não é o tipo de mulher que busca vingança.
- Bem, talvez devesse. Não acha? Porque agora mesmo, tudo o que quero é vê-lo pedindo perdão de joelhos por me machucar tanto. Quero causar tanto dano a ele, tirar tantas coisas, que ele me suplique no final para parar. Quero... quero vê-lo sem nada e saber que foi eu quem provocou isso.
- Ava, isso é demais. Até para mim.
- Bom, para mim, vê-lo sofrer será apenas o começo. E o melhor é que ele não faz ideia do que está por vir.