Crescendo na Alcateia
Os anos passaram.
E a menina da floresta deixou de ser uma criança assustada para se tornar parte daquela alcateia.
Ela cresceu cercada por lobos.
Aprendeu suas tradições, suas regras e, principalmente, aprendeu que existia algo diferente dentro dela.
Desde pequena, todos sabiam que ela não era como os outros.
Ela era mais rápida.
Mais resistente.
Se machucava e se recuperava rapidamente.
E havia momentos em que conseguia ouvir coisas que ninguém mais ouvia.
Os anciãos continuavam observando.
Esperando.
Porque sabiam que, quando ela completasse dezoito anos, todas as respostas começariam a aparecer.
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— Mais rápido!
A voz do Alfa ecoou pelo campo de treinamento.
A garota, ainda adolescente, apertou os dentes e continuou correndo.
— Eu estou indo!
— Está reclamando?
Ela olhou por cima do ombro.
— Estou dizendo que você está me fazendo correr há uma hora!
O Alfa cruzou os braços.
— E você ainda está falando. Então não está cansada o suficiente.
Ela revirou os olhos.
— Você é impossível.
Ele tentou esconder um sorriso.
Aquela menina tinha crescido rápido demais.
Ele ainda conseguia enxergá-la como a criança que encontrou na floresta, mas agora ela já tinha sua própria personalidade.
Era determinada.
Teimosa.
Curiosa.
E não aceitava ordens facilmente.
Principalmente quando achava que estavam erradas.
— Mais uma volta.
— Você está brincando comigo?
— Duas.
Ela arregalou os olhos.
— Isso é abuso de poder.
Os outros jovens começaram a rir.
O Alfa apontou para a pista.
— Corre.
Ela saiu resmungando.
Ele observou até que ela desaparecesse entre as árvores.
Dentro de sua mente, seu lobo permaneceu quieto.
Mas atento.
Como se reconhecesse que aquela garota carregava algo que nenhum deles compreendia completamente.
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Com o passar dos anos, ela também se aproximou dos filhos do Alfa.
O primogênito sempre foi tratado como seu futuro marido.
Desde crianças, todos falavam sobre o casamento que aconteceria quando chegasse a hora.
Ela nunca questionou.
Afinal, crescera ouvindo aquilo.
— Quando você completar dezoito anos, será Luna — diziam.
— Vai se casar com o futuro Alfa.
— Será a mulher mais importante da alcateia.
Ela sorria.
Mas nunca pensava muito sobre isso.
Até começar a perceber que o primogênito não a enxergava daquela maneira.
Ele era gentil com ela.
Protegia-a.
Brincava com ela.
Mas havia outra loba em seus pensamentos.
E ela sabia.
Sabia muito antes de ele admitir.
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Certa tarde, ela estava sentada perto do lago quando o Alfa apareceu.
— Fugindo do treinamento?
Ela olhou para ele.
— Descansando.
— Sei.
Ele sentou ao lado dela.
Por alguns segundos, ficaram em silêncio.
Ela observava a água.
— Posso fazer uma pergunta?
— Pode.
— Quando eu despertar meu lobo... vou conseguir escolher meu companheiro?
O Alfa ficou sério.
— Não exatamente.
Ela virou o rosto.
— Como assim?
— Entre nós, os companheiros são predestinados.
— Então eu não escolho?
— Você pode escolher se aceita o vínculo. Mas não escolhe quem será.
Ela ficou pensativa.
— E como vou saber quem é?
— Quando os dois tiverem seus lobos.
Ela sorriu.
— Então preciso esperar até os dezoito.
— Sim.
Ela voltou a olhar para o lago.
— E se eu não gostar da pessoa que a Lua escolher?
O Alfa demorou para responder.
— Então terá que decidir o que fazer com isso.
Ela suspirou.
— Parece complicado.
— A vida é complicada.
Ela sorriu.
— Você sempre tem uma resposta para tudo.
— É por isso que sou o Alfa.
— Ou é por isso que é convencido.
Ele soltou uma risada.
Por alguns segundos, tudo parecia simples.
Uma garota.
Seu protetor.
Uma alcateia.
Um futuro planejado.
Mas nenhum dos dois sabia que aquela seria uma das últimas conversas tranquilas que teriam antes de tudo mudar.
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Naquela mesma noite, o Alfa recebeu uma notícia.
Seu primogênito havia encontrado sua companheira.
A notícia deveria ser motivo de comemoração.
E era.
Mas também significava que o antigo decreto precisaria ser revisto.
Porque a garota estava prestes a completar dezoito anos.
E o futuro que todos haviam planejado para ela acabara de desaparecer.
O Alfa ficou sozinho em seu escritório, olhando para os documentos antigos.
Seu filho havia encontrado sua companheira.
A tradição não poderia mais ser cumprida da maneira prevista.
Ele precisaria conversar com ela.
E, pela primeira vez em dezoito anos, percebeu que talvez tivesse chegado o momento de contar que ela poderia escolher seu próprio destino.
Sem imaginar que aquela escolha mudaria a vida de todos.
Principalmente a dele.