O Decreto da Lua
— A partir de hoje, ela é protegida pela minha família.
A voz do Alfa ecoou pela sala dos anciãos.
Ninguém respondeu imediatamente.
Todos conheciam o peso daquela decisão.
Uma criança encontrada sozinha na floresta não era apenas uma responsabilidade. Dentro de uma alcateia, acolher alguém significava assumir sua proteção diante de todos.
O ancião mais velho fechou lentamente o livro antigo que estava sobre a mesa.
— Se essa menina realmente for quem as histórias dizem... a decisão é ainda maior do que você imagina.
O Alfa olhou para a pequena garota adormecida no sofá.
— Então ela precisará de uma família.
— E de um futuro.
O Alfa franziu a testa.
— O que quer dizer?
O ancião se levantou e caminhou até uma estante.
Retirou um pergaminho antigo, coberto por símbolos da Lua e dos lobos.
— Existe uma antiga tradição entre as alcateias.
Ele abriu o documento.
— Quando uma criança de origem desconhecida é acolhida pela família do Alfa e não pertence a nenhuma outra linhagem conhecida, seu futuro pode ser unido à família dominante.
O Alfa estreitou os olhos.
— Explique.
— Quando ela atingir a idade determinada pela nossa tradição, deverá se unir ao primogênito do Alfa.
O silêncio tomou conta da sala.
O Alfa olhou para o menino que brincava do lado de fora com os outros filhotes da alcateia.
Seu filho mais velho.
Ainda era apenas uma criança.
— Você está dizendo que quer determinar o futuro deles agora?
— Não é uma escolha feita por eles. É um decreto da alcateia.
O Alfa permaneceu em silêncio.
Aquilo parecia errado.
Uma criança deveria crescer livre para escolher o próprio caminho.
Mas os anciãos continuaram explicando que aquela tradição existia havia gerações.
A união entre a garota protegida pela família do Alfa e o futuro Alfa garantiria que ela permanecesse protegida dentro da alcateia.
E, caso as histórias sobre a Filha da Lua fossem verdadeiras, também impediria que outras alcateias tentassem reivindicá-la.
O Alfa finalmente perguntou:
— E se ela não quiser?
O ancião fechou os olhos por um instante.
— Quando chegar a hora, ela poderá decidir.
O Alfa encarou o pergaminho.
— Então não é uma obrigação.
— É uma promessa feita pela família.
Ele não gostou daquela resposta.
Mesmo assim, sabia que a alcateia precisava de uma decisão.
Depois de alguns segundos, colocou a mão sobre o pergaminho.
— Então será assim.
O ancião assentiu.
— A menina crescerá sob a proteção da sua família. Quando atingir a idade determinada, será apresentada ao primogênito como futura companheira de vida e possível Luna da alcateia.
O Alfa olhou novamente para a criança.
Ela continuava dormindo tranquilamente, sem fazer ideia de que seu futuro acabara de ser decidido.
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Naquela mesma noite, a notícia foi anunciada à alcateia.
Todos se reuniram diante da grande casa do Alfa.
Ele ficou de pé diante deles, segurando a pequena menina pela mão.
— Esta criança foi encontrada sozinha na floresta.
Todos ficaram em silêncio.
— Não sabemos de onde veio. Não sabemos quem são seus pais. Mas sabemos que não permitiremos que cresça sozinha.
A menina segurou mais forte sua mão.
— A partir de hoje, ela pertence à nossa família e estará sob minha proteção.
Um murmúrio percorreu a multidão.
Então o ancião deu um passo à frente.
— E existe uma segunda decisão.
O Alfa permaneceu ao lado da menina.
— Quando ela crescer e atingir a idade determinada pelas leis da nossa alcateia, será prometida ao primogênito do Alfa.
Algumas pessoas sorriram.
Outras começaram a cochichar.
O menino mais velho, sem entender completamente o significado daquilo, apenas olhou para a pequena garota.
Ela também olhou para ele.
Não havia amor.
Não havia promessa emocional.
Eram apenas duas crianças diante de um futuro que os adultos haviam acabado de escolher.
O Alfa percebeu aquilo.
E, naquele instante, fez uma promessa silenciosa.
Ela seria protegida.
Não importava o que acontecesse.
Ele cuidaria dela até o dia em que pudesse escolher seu próprio caminho.
O que ninguém sabia era que o destino tinha planos muito diferentes daquele decreto.
Porque a Lua nunca havia dito que ela pertenceria ao primogênito.
A Lua apenas havia marcado aquela criança.
E, dezoito anos depois, todos descobririam que algumas promessas feitas pelos homens não significavam nada diante da vontade da Lua.