3 — O Decreto da Lua

726 Palavras
O Decreto da Lua — A partir de hoje, ela é protegida pela minha família. A voz do Alfa ecoou pela sala dos anciãos. Ninguém respondeu imediatamente. Todos conheciam o peso daquela decisão. Uma criança encontrada sozinha na floresta não era apenas uma responsabilidade. Dentro de uma alcateia, acolher alguém significava assumir sua proteção diante de todos. O ancião mais velho fechou lentamente o livro antigo que estava sobre a mesa. — Se essa menina realmente for quem as histórias dizem... a decisão é ainda maior do que você imagina. O Alfa olhou para a pequena garota adormecida no sofá. — Então ela precisará de uma família. — E de um futuro. O Alfa franziu a testa. — O que quer dizer? O ancião se levantou e caminhou até uma estante. Retirou um pergaminho antigo, coberto por símbolos da Lua e dos lobos. — Existe uma antiga tradição entre as alcateias. Ele abriu o documento. — Quando uma criança de origem desconhecida é acolhida pela família do Alfa e não pertence a nenhuma outra linhagem conhecida, seu futuro pode ser unido à família dominante. O Alfa estreitou os olhos. — Explique. — Quando ela atingir a idade determinada pela nossa tradição, deverá se unir ao primogênito do Alfa. O silêncio tomou conta da sala. O Alfa olhou para o menino que brincava do lado de fora com os outros filhotes da alcateia. Seu filho mais velho. Ainda era apenas uma criança. — Você está dizendo que quer determinar o futuro deles agora? — Não é uma escolha feita por eles. É um decreto da alcateia. O Alfa permaneceu em silêncio. Aquilo parecia errado. Uma criança deveria crescer livre para escolher o próprio caminho. Mas os anciãos continuaram explicando que aquela tradição existia havia gerações. A união entre a garota protegida pela família do Alfa e o futuro Alfa garantiria que ela permanecesse protegida dentro da alcateia. E, caso as histórias sobre a Filha da Lua fossem verdadeiras, também impediria que outras alcateias tentassem reivindicá-la. O Alfa finalmente perguntou: — E se ela não quiser? O ancião fechou os olhos por um instante. — Quando chegar a hora, ela poderá decidir. O Alfa encarou o pergaminho. — Então não é uma obrigação. — É uma promessa feita pela família. Ele não gostou daquela resposta. Mesmo assim, sabia que a alcateia precisava de uma decisão. Depois de alguns segundos, colocou a mão sobre o pergaminho. — Então será assim. O ancião assentiu. — A menina crescerá sob a proteção da sua família. Quando atingir a idade determinada, será apresentada ao primogênito como futura companheira de vida e possível Luna da alcateia. O Alfa olhou novamente para a criança. Ela continuava dormindo tranquilamente, sem fazer ideia de que seu futuro acabara de ser decidido. --- Naquela mesma noite, a notícia foi anunciada à alcateia. Todos se reuniram diante da grande casa do Alfa. Ele ficou de pé diante deles, segurando a pequena menina pela mão. — Esta criança foi encontrada sozinha na floresta. Todos ficaram em silêncio. — Não sabemos de onde veio. Não sabemos quem são seus pais. Mas sabemos que não permitiremos que cresça sozinha. A menina segurou mais forte sua mão. — A partir de hoje, ela pertence à nossa família e estará sob minha proteção. Um murmúrio percorreu a multidão. Então o ancião deu um passo à frente. — E existe uma segunda decisão. O Alfa permaneceu ao lado da menina. — Quando ela crescer e atingir a idade determinada pelas leis da nossa alcateia, será prometida ao primogênito do Alfa. Algumas pessoas sorriram. Outras começaram a cochichar. O menino mais velho, sem entender completamente o significado daquilo, apenas olhou para a pequena garota. Ela também olhou para ele. Não havia amor. Não havia promessa emocional. Eram apenas duas crianças diante de um futuro que os adultos haviam acabado de escolher. O Alfa percebeu aquilo. E, naquele instante, fez uma promessa silenciosa. Ela seria protegida. Não importava o que acontecesse. Ele cuidaria dela até o dia em que pudesse escolher seu próprio caminho. O que ninguém sabia era que o destino tinha planos muito diferentes daquele decreto. Porque a Lua nunca havia dito que ela pertenceria ao primogênito. A Lua apenas havia marcado aquela criança. E, dezoito anos depois, todos descobririam que algumas promessas feitas pelos homens não significavam nada diante da vontade da Lua.
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