CAPÍTULO I – AO ENCONTRO DA CRIANÇA INTERIOR. A DONZELA.
14 de janeiro de 2021
Hoje conheci as mulheres que me acompanham nesta jornada. As minhas companheiras de viagem. Estava expectante e curiosa para as conhecer, para vê-las pela primeira vez. Não sabia que tipo de grupo ia encontrar, mas fiquei agradavelmente surpreendida. A minha primeira impressão foi muito boa.
A reunião começou com umas palavras da Hécate:
—Queridas tecelãs, quero, em primeiro lugar, agradecer-vos por estarem aqui e por terem aceitado este desafio. Muito obrigada pela viagem que vamos iniciar em conjunto. Somos um grupo de mulheres muito diferentes, cada uma com a sua história de vida, com as suas lutas internas e externas, as suas vivências e as suas experiências. Mas apesar disso, há uma tecelã que habita o corpo de todas nós. E ela ensina-nos a olhar a vida como um grande novelo de lã, e os nossos dons e talentos como agulhas que dão forma aos nossos projetos e sonhos. Podemos ver a vida como um intrincado novelo de lã, uma intricada meada que vamos tecendo no tear da nossa existência, da melhor forma que podemos e sabemos, e as agulhas como os dons e talentos que possuímos, para tecer a obra que é a nossa própria vida. O desafio que vos proponho é tecer o xaile da vossa vida, pois à medida que o vamos criando, vamos, paralelamente, realizar uma viagem ao nosso interior. Cada uma de vós vai realizar a sua viagem sozinha, na certeza, porém, que não está sozinha no caminho, pois a ideia é que este grupo se constitua como uma verdadeira irmandade de tecelãs. Que nos apoiemos e ajudemos umas às outras. E, no fim, vamos sair daqui mais conscientes, mais fortes, mais empoderadas. - Fez uma ligeira pausa e continuou. -Hoje, no final da reunião, vou-vos enviar uns vídeos que ensinam, em termos práticos, a fazer as rosetas para o nosso xaile, para quem quiser começar já a aprender ou a fazer. Sei que, para algumas, será mais fácil do que para outras, mas a vida é mesmo assim, cada uma tem de crescer com os dons e talentos que tem. Não importa se o xaile fica tecnicamente perfeito. O importante é a nossa postura perante os obstáculos. O que importa aqui, tal como na vida, não é o fim, mas o caminho, a viagem. Por isso, não se preocupem se no início vos parecer muito difícil. Pensem que, neste momento, vocês são como um bebé acabado de nascer e, tal como a ele, o mundo parece um lugar muito diferente, estranho e difícil, também a vocês, no início, o trabalho vos vai parecer difícil. Tal como ele, temos de aprender tudo. Já imaginaram tudo o que um bebé tem de aprender? Comer, beber, andar, falar, reconhecer sons, expressões, sensações, etc. Já para não falar do nascimento em si mesmo.
Pensei para comigo mesma o quão assustador deve ser nascer! É um pensamento que já me aflorou à mente muitas vezes. Estar num local quente, aconchegado, sem ter de fazer nada, e, de repente, o parto. Dor, frio, desconforto, medo, barulho! Qual será a sua sensação? De morte iminente, certo? Para o bebé, o nascimento, deve parecer-lhe a morte. E é com essa sensação que nós vimos a este mundo. Medo, angústia e insegurança. Estas emoções acompanham-nos desde sempre, são memórias guardadas bem fundo do nosso ser. A sensação de morte persegue-nos desde o nosso nascimento.
Neste ponto, a Hécate emocionou-se.
—Peço desculpa. Mas hoje estou um pouco em baixo, porque tive de levar a minha gata ao hospital veterinário, pois estava com dificuldades respiratórias. E teve mesmo de ficar internada. É minha companheira há já onze anos e estou com receio que seja algo grave.
—Neste momento- continuou- nós somos como o bebé que já fomos um dia. Vamos aprender tudo do zero. E á medida que aprendemos a pegar na agulha e a fazer as rosetas que compõem o xaile, vamos aprender e descobrir muito, não sobre o mundo lá fora, mas sobre o mundo que é cada uma de nós. Vamos ao encontro da criança que ainda mora dentro do nosso coração e vamos resgatar a nossa criança interior. Vamos ao encontro da nossa verdadeira essência. Fez uma ligeira pausa e continuou. - O nosso próximo encontro é daqui a três dias, domingo de manhã. Não se esqueçam de terem à mão as agulhas e as lãs, para iniciarmos o nosso xaile.
Seguiram-se as apresentações. A irmandade do xaile é formada por treze mulheres. A Hécate, a organizadora, tem cabelo liso, castanho-claro, abaixo dos ombros. É uma mulher bonita, elegante e feminina. Veste uma camisola branca de algodão. Tem um fio de ouro ao pescoço, com uma medalha que não consigo identificar. Tem um sorriso franco, uma expressão doce, voz meiga que inspira confiança. Está sentada ao computador na mesa da sala. Na parede do fundo, encontra-se um aparador elegante, de madeira castanho-escura. Sobre o aparador, um candelabro com velas e, por cima, pendurada na parede, vê-se uma mandala. Uns lindos cortinados brancos, com reposteiros bordeaux, compõem a imagem. É uma sala elegante, sóbria, mas, ao mesmo tempo, moderna. Tem cinquenta e dois anos, nasceu em Lisboa e, atualmente, reside em Vila Nova de Gaia. É casada, pela segunda vez, e tem um filho. Desta segunda relação não tem filhos. Vive em Gaia, porque, segundo a própria, deu um verdadeiro salto de fé. Deixou Lisboa, e a vida toda organizada que tinha, para vir viver com o homem que amava. Mudou-se com o filho pequeno de apenas três anos. Mudou-se para uma cidade onde não conhecia ninguém e começou de novo. Correu bem. Está casada há quinze anos. Foi o primeiro, mas não o único, salto de fé da sua vida. É técnica superior de Farmácia, trabalhou vinte e sete anos numa multinacional, tinha uma vida estável, tanto profissional como financeiramente, mas sentia que aquele não era o seu caminho. Já não se sentia feliz e realizada profissionalmente. Queria mudar. Deu o segundo salto de fé. Seguiu o seu coração e deixou o emprego. Pela segunda vez, seguiu o seu coração para ser feliz. Foi para Glastonbury. Esteve dois anos a tirar o curso de sagrado feminino. Passou a dedicar-se à área do desenvolvimento pessoal e tornou-se terapeuta. Abriu, no ano passado, a Academia Florescer do Ser, no mês anterior a começar a pandemia, e passou a dedicar-se profissionalmente a esta área.
A seguir apresenta-se a Ísis, amiga da Hécate. Tem cabelo ondulado ruivo e curto. Veste uma camisola azul-água com uma linda écharpe azul-marinha sobre os ombros. Fio e brincos de ouro, está também, sentada na mesa da sala. Ao fundo, um grande quadro de uma natureza morta, por baixo, um aparador. Sobre o aparador, peças em cristal e uma jarra com flores naturais. Uns grandes vasos com plantas compõem a imagem. Tem cinquenta anos, um sorriso lindo e uma expressão doce. Também vai no segundo casamento e tem dois filhos. Tal como a Hécate, também deu um salto de fé, mudou de cidade para ir viver com o homem que amava, mas isto apenas há três anos. Os filhos são do segundo casamento, do primeiro não teve filhos. Acompanhou a Hécate na sua viagem por Glastonbury, fizeram juntas o curso de sagrado feminino. No passado, noutra vida, trabalhou muitos anos numa área que não tem nada que ver com este campo, aliás, refere que já fez muita coisa na vida. Hoje não trabalha, mas quer mudar, está à procura do seu caminho.
A Afrodite tem trinta e quatro anos, é casada e tem dois filhos. Vive em Gondomar. Não se alonga na apresentação. Não gosta de falar pela internet. Preferia que as reuniões fossem presenciais, mas como, infelizmente, agora isso não é possível, participa nestes encontros online. É linda a Afrodite. Tem um lindo cabelo ruivo cheio de caracóis que lhe rodeiam a face redonda e caiem revoltos sobre os ombros. Tem um ar saudável, um aspeto desportista. Uma simpática ruiva, hippie chic. Veste uma camisola cinza, usa umas lindas argolas nas orelhas e no pulso várias pulseiras. Está confortavelmente sentada num sofá amarelo acastanhado, com as pernas por cima do mesmo, e vê-se, por cima, um quadro de cortiça, repleto de fotos. Ao meio, uma linda fotografia de uma floresta tropical sob um sol cintilante.
A Hera não está a falar de um computador, mas sim de um telemóvel. Não dá para ver onde está. A imagem dela preenche todo o ecrã. Parece estar sentada num sofá preto. Cabelo preto curto, tem um ar pesado e sofrido. O contraste com a Afrodite não podia ser maior. Tem quarenta e oito anos e apresenta-se numa posição encolhida, parece tensa e nervosa. Veste um kispo preto. Teve um ano difícil. O ano passado foi um ano difícil. Teve de lidar com duas perdas, a morte do pai e o fim do seu casamento. O seu objetivo é aprender a viver sozinha. Aprender que se basta a si mesma, que não precisa de um homem como muleta para ser feliz. Se no campo pessoal está difícil, no campo profissional não está melhor. Tem uma empresa de catering, que, por causa da pandemia, está muito m*l. No passado já deu formação de cozinha, mas nem isso agora a ajuda, pois, neste momento, não há cursos a funcionar. Engasga-se a falar, voz trémula e chorosa, as lágrimas escorrem-lhe pela face.
Segue-se a Bandonga. A Bandonga está de pé, no meio do que parece ser uma sala despida, onde não se consegue perceber nada, apenas paredes brancas. Veste uma camisola vermelha e amarela aos quadrados, usa uns grandes óculos que lhe preenchem as feições. Tem quarenta e cinco anos e vive em Guimarães. Tem um ar misterioso a Bandonga, uma expressão estranha onde não se consegue descortinar qualquer tipo de emoção, o que lhe dá um ar enigmático. Magra, cabelo castanho curto, cara redonda. Neste momento, está desempregada por opção. Casada, anda em busca de se conhecer.
A Brigitte tem cabelo liso, castanho, meio acobreado, ligeiramente abaixo dos ombros. Tem quarenta e cinco anos e um lindo sorriso. Voz doce, surge na imagem em pé, num canto de uma sala com parede bege, à meia-luz. Num canto, vê-se uma pequena mesinha de apoio com um candeeiro por cima. Traz ao pescoço um fio de bijutaria. Veste uma camisola bege e, por cima, um casaco de malha castanho. Está numa fase de mudança na vida, decidiu mudar de vida e trabalhar com o pai, é motorista de táxi e tem a particularidade de carregar nos “rrs”.
Agora é a vez da Deméter. Tem cinquenta e cinco anos e cabelo curto, loiro. Está confortavelmente afundada num canto de um belo sofá de pele preta, com uma manta aos quadrados escoceses em cima das pernas. Nas mãos, uma xicara de chá, que, de quando em quando, leva aos lábios. Camisola de gola alta branca e um lindo xaile sobre os ombros. Sobre o sofá, em cima, na parede, um grande quadro de uma natureza morta. Alegre e muito risonha, o seu discurso é entrecortado por umas belas e sonoras gargalhadas. Vive em Lisboa, é casada e tem duas filhas. As filhas são a sua maior alegria e a sua maior realização é ter as duas já formadas e encaminhadas na vida. A sua maior satisfação é as suas filhas serem duas jovens mulheres bem formadas e felizes. Se as filhas estão felizes, ela está feliz. Considera-se de bem com a vida, muito alegre e otimista. Sorriso aberto e gargalhada fácil. Agora com a pandemia é que está um bocado mais em baixo. A pandemia sim, está a custar-lhe. Custa-lhe não poder conviver como antes. Precisa do convívio, precisa dos outros, de sair, de viajar, de ser livre. Custa-lhe estar fechada em casa, por isso, anda mais deprimida.
A Hathor é uma mulher elegante e muito bonita. Uma mulher charmosa, com classe. Parece-me ser alta, magra, cabelo liso, comprido, preto. Tem quarenta e sete anos, é socióloga e vive no Pinhão, numa quinta que transformou num projeto de turismo rural, onde produz vinho do Porto. Diz que teve uma vida cheia. Já viveu em várias cidades, para aí umas quarenta e sete, diz, a rir. Viveu três anos em Londres, viveu na Índia, e em mais cidades do mundo. Por isso, já perdeu a conta às vezes que mudou de casa. Teve uma vida cheia e intensa. Ligada às artes, já foi bailarina, já foi professora de dança, entre outras coisas. Divorciada há quatro anos, tem três filhos, um dos quais vive em Londres. Usa uma pequena écharpe preta sobre uma camisola vermelha. Está numa sala muito ampla, ao estilo rústico, com um grande pé direito. Ao fundo, num canto, consegue ver-se uma salamandra. Está sentada perante uma grande e nobre mesa de madeira maciça. Vêem-se ainda grandes vasos com plantas. Considera-se uma mulher muito sensível.