INTRODUÇÃO

433 Palavras
INTRODUÇÃO Desafiei-me a tecer um xaile. Um xaile sagrado. Um xaile que representa a minha vida. Despertar a tecelã que habita em mim, que habita o interior de cada mulher. E a verdadeira tecelã é aquela que encontra os fios perdidos, as pontas soltas e que, com as suas agulhas, os transforma numa linda obra. Propus-me encontrar os fios perdidos, as pontas soltas que não consegui domar ou que nem sequer consegui perceber e transformá-los num lindo xaile, tecendo assim a minha própria vida. Cada cor, cada quadrado, uma memória, uma emoção, um sentimento, uma etapa. Um xaile que me representa. Para mim é um duplo desafio. Criar um xaile é não só uma viagem ao meu interior, curando, perdoando, integrando e ressignificando memórias, vivências e experiências, mas também a própria criação material do mesmo, que é, só por si, um desafio. Nunca teci nada na minha vida. Nunca fui ligada a costura, crochet, tricot. Tenho alguns dons e talentos, mas os trabalhos manuais não são seguramente nenhum deles. Nunca tive jeito, nem sequer apetência ou motivação para as artes manuais. Pelo contrário, a simples ideia de o fazer já é um grande salto, pois é o oposto do que me define como pessoa, o oposto da identidade que construí. A Psiquê não tem jeito para nada que seja manual. A Psiquê é mais virada para o lado intelectual. Pregar um botão é uma coisa que nunca me passou pela cabeça. Mas viajar ao meu interior, encontrar respostas, tecer a minha própria existência, para mim, já faz todo o sentido. Nisso revejo a Psiquê. Criar o xaile é enfrentar os nossos demónios, os nossos medos, as nossas memórias, conquistas e fracassos, para renascer inteira, completa, resolvida, consciente e um ser humano melhor. Por isso, inscrevi-me na oficina para criar o meu xaile sagrado. A minha jornada não é feita sozinha, mas na companhia de outras mulheres, cada uma desfiando, criando, tecendo a sua própria vida. Numa irmandade do xaile sagrado, numa irmandade de mulheres tecelãs. Como vivemos tempos estranhos, vivemos o tempo da pandemia, os nossos encontros, as nossas reuniões não poderão ser presenciais, pelo que serão, como quase tudo neste novo normal, via internet, via zoom. Vamos ter o nosso primeiro encontro, pelo que a Hécate, a organizadora da oficina, pediu-nos para pensarmos em como nos queremos apresentar. Isso fez-me pensar. Quem sou eu? Sim. Quem sou Eu? Apresentamo-nos sempre num registo do que fazemos e onde estamos, isto é, profissão, local de residência, estado civil. Mas é isso que nos define? É isso que nós somos verdadeiramente?
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