Pré-visualização gratuita O bilhete
O sol castigava o campo de futebol naquela tarde. A grama parecia ainda mais amarela sob o calor, e o ar carregava o cheiro de poeira misturado com o suor dos jogadores. O barulho da bola batendo no chão e os gritos do treinador dava para ser escutado por todo espaço daquele campo, era como se só existisse a voz dele.
Gregório Silveira estava no gol.
Com luvas firmes nas mãos e o uniforme verde colado ao corpo, ele se movia rápido, atento, como se cada defesa fosse uma decisão de vida ou morte. Os colegas corriam, chutavam forte, e ele se lançava sem medo, ignorando a dor nos joelhos e a ardência do sol na pele.
Para Gregório, aquilo não era apenas treino.
Era o seu futuro.
Era destino dele que estava ali.
Do outro lado do campo, escondida atrás de uma árvore grande, Verônica observava em silêncio. O coração dela batia rápido, quase como se estivesse correndo com os jogadores. Ela apertava um caderno contra o peito e respirava fundo, tentando controlar a ansiedade.
Ela não estava ali por acaso.
Ela estava ali por ele.
Verônica tinha dezessete anos, cabelos curtos e loiros, e um olhar tímido que sempre fugia quando alguém encarava por muito tempo. Mas, quando olhava para Gregório, parecia esquecer o mundo inteiro.
Aquele era o garoto que ela amava desde a adolescência.
Desde o primeiro dia em que o viu correndo no pátio da escola, com a mochila jogada no ombro e o sorriso fácil no rosto. Desde então, tudo mudou. Ela nunca teve coragem de dizer em voz alta, mas escrevia sobre ele. Escrevia como se as palavras pudessem fazer o impossível acontecer.
E talvez pudessem.
— Você vai ficar aí parada até quando? — Leandra perguntou, surgindo ao lado dela com um sorriso malicioso.
Verônica se assustou.
— Leandra! Você me deu um susto…
A amiga riu.
— Eu sabia. Você está aqui de novo, né? Olhando-o como se fosse uma novela.
Verônica corou, apertando ainda mais o caderno.
— Eu só… queria ver ele jogar.
Leandra estava com os braços cruzados, observando a cena.
— E o bilhete? Você escreveu ou não escreveu?
Verônica hesitou. Abriu o caderno devagar e arrancou uma folha dobrada com cuidado. A letra dela era delicada, bem desenhada, como se cada palavra carregasse um pedaço do coração.
Leandra pegou o bilhete e olhou por cima.
— Está perfeito. Agora só falta entregar.
— Eu não consigo… — Verônica sussurrou.
— Consegue sim. E se não conseguir, eu entrego.
Verônica arregalou os olhos.
— Você?
— Eu mesma. Alguém precisa fazer esse amor andar, né?
Antes que Verônica respondesse, Leandra já estava atravessando o campo com passos firmes. Gregório estava no meio do treino, suado, respirando pesado, irritado com os erros do time.
O treinador apitou.
— Intervalo! Cinco minutos!
Gregório caminhou até a sombra de uma árvore e pegou uma garrafa de água. Quando levantou o olhar, viu Leandra se aproximando.
Ele franziu a testa.
— O que foi agora?
Leandra sorriu sem graça, mas continuou.
— Greg, isso é para você.
Ela estendeu o bilhete.
Gregório pegou sem interesse, como se aquilo fosse só mais um papel qualquer.
— Valeu — respondeu, seco.
Leandra não disse nada. Apenas virou as costas e saiu rápido.
Verônica assistia tudo de longe, com as mãos tremendo.
Gregório abriu o bilhete sem pressa. Leu apenas as primeiras palavras, depois soltou um suspiro impaciente.
— Mais um… — murmurou.
Com a mesma facilidade com que agarrava uma bola difícil, ele amassou o papel e jogou na lata de lixo ao lado do banco.
Verônica sentiu o peito apertar.
A garganta travou.
Era como se, junto do bilhete, ele tivesse jogado fora tudo o que ela guardava há anos.
E ela ficou ali, parada, tentando não chorar… enquanto o apito do treinador anunciava que o jogo continuava.
Ela decidiu que não pensaria mais nele. Nem escreveria mais. Seria um amor esquecido, um adolescente que só existia dentro dela. Era hora de esquecer.
Com o coração apertado e os olhos marejados, Verônica se afastou do campo apressada, sem olhar para trás. Na pressa, deixou o livro de Química cair perto da árvore onde costumava se esconder… e nem percebeu.
O treino estava encerrado. O treinador Cláudio dava as últimas orientações, pois o próximo jogo seria no final de semana: a grande final.
— Quero foco total! — ele dizia, sério. — Nada de distração. A vitória depende de vocês.
Em seguida, solicitou que os jogadores e os dois goleiros fossem para o vestiário tomar banho e se prepararem para ir para casa.
Enquanto o time se dispersava, Rodolfo e Lucas ficaram responsáveis por auxiliar o treinador a recolher as bolas espalhadas pelo campo.
Foi então que Rodolfo avistou algo caído perto da árvore.
— Ei, Lucas… Olha isso.
Ele se aproximou e pegou o livro.
Era um livro de Química.
Rodolfo folheou rapidamente e viu o nome escrito na primeira página, com uma letra delicada e bem desenhada. Ele franziu a testa, reconhecendo que aquilo era de alguma aluna.
Minutos depois, já no vestiário, Rodolfo entrou segurando o livro e foi direto até Gregório.
— Greg… encontrei isso perto da árvore. É de uma aluna do terceiro ano. Acho que é da sua sala.
Gregório pegou o livro sem muita atenção, mas no mesmo instante seus olhos pararam na capa. A letra era conhecida. Ele já tinha visto aquela escrita em trabalhos, provas… e até em bilhetes.
Ele respirou fundo.
— Tá… devolvo amanhã — respondeu, tentando parecer indiferente.
Rodolfo deu de ombros e foi se trocar.
Gregório também pegou sua mochila e foi para o banho, mas algo dentro dele parecia inquieto. Como se uma lembrança insistisse em voltar.
Gregório não imaginava que o bilhete fosse dela.
Verônica sempre foi tímida, sempre mais na dela. Na sala de aula, era calada, discreta, concentrada nos deveres e nas atividades escolares. Enquanto as outras meninas riam alto, cochichavam e tentavam chamar sua atenção, ela permanecia em silêncio, como se Gregório nem existisse.
E talvez fosse exatamente isso que o intrigava.
Gregório a observava com curiosidade… e, às vezes, até com admiração. Verônica era bonita, mas não parecia se importar com olhares ou elogios. Ela não o encarava nos olhos por muito tempo. Nem dava indiretas, muito menos fazia brincadeiras. Apenas fazia o que precisava ser feito, falava o necessário, era a certinha do grupo.
Aquela postura o deixava confuso. Pois teve uma vez que fizeram um trabalho juntos. Verônica foi direta e objetiva. Falou apenas o necessário, mas tudo com tanta clareza que Gregório não teve do que reclamar. Pelo contrário… ele se surpreendeu. Ela era inteligente, organizada e parecia sempre saber exatamente o que dizer.
Já Leandra era completamente diferente.
Leandra era intensa, falava o que pensava, ria alto, não tinha vergonha de nada. Do tipo que entrava em qualquer lugar e já se sentia dona do ambiente. Por isso, quando ela apareceu no campo e entregou o bilhete, Gregório teve certeza de que era dela.
De quem mais seria?
Mas, quando Rodolfo entrou no vestiário segurando o livro de Química e disse que o havia encontrado perto da árvore, Gregório pegou o material sem muita atenção… até seus olhos caírem no nome escrito na capa.
Verônica Santana.
A letra era delicada, já que reconhecia aquela grafia, nas provas, trabalhos e atividades. A mesma letra que ele já tinha visto tantas vezes.
O coração dele falhou por um segundo. Como fora i****a. Então, engoliu em seco. Verônica… aquela menina quieta. A aluna é exemplar. A garota que sempre tirava boas notas. A única que nunca tentou chamar sua atenção.
Então… era ela.
Era ela quem gostava dele.
A ideia parecia absurda, mas, ao mesmo tempo, fazia sentido de um jeito que ele não sabia explicar. Era como se todas as peças se encaixassem de repente.
Gregório guardou o livro na mochila, tentando disfarçar a inquietação. Mas, por dentro, estava completamente tomado pela ansiedade.
Ele só queria uma coisa:
Que todos fossem embora logo.
Porque, agora, ele precisava descobrir o que aquele bilhete dizia de verdade.
Ele esperou todos os jogadores irem embora.
Quando o vestiário ficou vazio e o silêncio tomou conta do lugar, Gregório caminhou devagar até o campo, se aproximou da lixeira. Por alguns segundos, ficou parado, olhando para ela.
Então, como se estivesse lutando contra o próprio orgulho, se aproximou.
Abriu a tampa.
E recolheu o bilhete amassado.
Ele desdobrou o papel com cuidado, alisando as marcas, e começou a ler de verdade.