15 - Melinda

1049 Palavras
Melinda Narrando Eu comprei a primeira passagem que apareceu no guichê. Não perguntei muito. Não quis escolher demais. Só apontei para o destino no visor eletrônico e entreguei o dinheiro, com as mãos ainda tremendo. Uma cidade pequena, no interior do estado. Eu já tinha ouvido falar dela uma vez ou outra, principalmente por causa das fábricas de roupas espalhadas pela região. Nada de alta-costura. Nada de glamour. Mas, naquele momento, isso já não importava. O que importava era sumir. Sumir de verdade. Deixar o caminho do Elijah livre, sem tropeços, sem ameaças, sem riscos por minha causa. Ele estava louco para casar, para assumir a empresa, para receber a herança. Ele merecia uma mulher elegante, segura, da classe dele. Alguém que não carregasse medo nos olhos nem um passado tão frágil. Eu não cabia naquele mundo. Nunca coube. O ônibus saiu ainda de madrugada. Escolhi um assento perto da janela, coloquei a caixa de livros no chão, abraçada à mala, como se fossem minha única âncora. Quando o motor começou a roncar e a rodoviária ficou para trás, senti um aperto forte no peito. Doeu. Doeu deixar. Doeu fugir. Doeu amar alguém que eu precisava abandonar para sobreviver. A viagem foi longa. Doze horas de estrada. O dia nasceu, cresceu e começou a morrer enquanto o ônibus avançava por paisagens que eu nunca tinha visto. Estradas longas, campos abertos, pequenas cidades surgindo e desaparecendo. O tempo parecia diferente ali dentro, como se eu estivesse suspensa entre quem eu fui e quem eu ainda não sabia ser. Houve paradas estratégicas. Rodoviárias pequenas, com cheiro de café forte e chão gasto. Pessoas desciam, outras subiam. Vidas cruzando sem saber. Em uma dessas paradas, senti meu estômago reclamar. Eu não tinha comido nada desde o dia anterior. Desci do ônibus, comprei um café e um sanduíche simples. Me obriguei a comer, mesmo sem fome. Meu corpo precisava continuar. Sentei em um banco de plástico, observando o movimento. Ninguém me conhecia ali. Ninguém sabia quem eu era, de onde vinha, o que eu tinha perdido. Aquilo trouxe um alívio estranho. Voltei para o ônibus e segui viagem. Quando finalmente chegamos ao destino final, já era noite. Desci com cuidado, puxando a mala e equilibrando a caixa de livros. A rodoviária era pequena, simples, quase silenciosa. Olhei em volta, respirando fundo. Meu celular vibrou uma última vez, procurando sinal. Nada. Sorri de leve e desliguei. Melhor assim. Perguntei a um senhor onde havia uma pousada no centro. Ele apontou a rua logo à frente. — Tem uma ali, moça. Bem arrumadinha. Caminhei alguns minutos até encontrá-la. A pousada era um charme inesperado. Fachada antiga, bem cuidada, com luzes amareladas e vasos de plantas na entrada. Parecia acolhedora, como um abraço discreto. Entrei sentindo um cheiro leve de limpeza misturado com comida caseira. Fui atendida por uma moça simpática, de sorriso fácil. — Boa noite! Precisa de quarto? — Sim, respondi. — Por um mês. Ela arregalou um pouco os olhos, surpresa, mas sorriu. — Claro! Temos disponibilidade. O café da manhã está incluso. Perfeito. Paguei o mês inteiro adiantado. Precisava de segurança. Precisava de um lugar fixo, mesmo que temporário. Outra moça me acompanhou até o quarto, subindo as escadas estreitas. — Você veio a trabalho? perguntou, curiosa. — Sou costureira, respondi. — Vim procurar emprego. Ela abriu um sorriso animado. — Então veio ao lugar certo! Aqui o que mais tem é fábrica precisando de costureira. Sorri, aliviada pela primeira vez em horas. O quarto era simples e aconchegante. Uma cama de casal bem arrumada, mesa de cabeceira, um guarda-roupa de duas portas, televisão pequena, frigobar e um banheiro limpinho. Olhei em volta e senti algo próximo de gratidão. Gostei. Tomei um banho quente, longo, deixando a água levar o cansaço, o medo e um pouco da dor. Vesti uma roupa confortável, prendi o cabelo de qualquer jeito e desci. No meio da escada, fui atingida por um cheiro maravilhoso. Comida. Havia um refeitório simples, mas cheio de gente. Pessoas conversando, rindo baixo, jantando juntas. Aproximei-me de uma funcionária. — Como funciona o jantar? — É só pagar ali no caixa. Paguei e me sentei sozinha em uma mesa pequena. Fui servida com comida quente, simples e deliciosa. Comi tudo. Cada garfada parecia me devolver um pouco de energia, um pouco de vida. Depois, voltei para o quarto. Liguei o ventilador, deitei na cama e abracei um travesseiro. Meus livros estavam empilhados ao lado, como velhos amigos fiéis. O cansaço venceu antes que eu pudesse pensar demais. Adormeci sem perceber. Exausta. Sozinha. Mas, pela primeira vez em muito tempo, segura o suficiente para continuar. Acordei cedo, mesmo depois de uma noite pesada de viagem e emoções. Meu corpo ainda doía, mas minha mente estava clara demais para voltar a dormir. Levantei devagar, fiz minha rotina matinal em silêncio, como se estivesse tentando não acordar o próprio passado. Tomei um banho rápido, me vesti com uma roupa simples e prendi o cabelo, botei os óculos. Desci para o café da manhã. A pousada estava tranquila, com poucas pessoas espalhadas pelas mesas. Peguei uma xícara de café quente, pão fresco, um pouco de manteiga e frutas. Comi devagar, observando o ambiente. Tudo era simples, mas acolhedor. Havia algo reconfortante naquela rotina que ainda não era minha, mas poderia vir a ser. Depois do café, subi rapidamente ao quarto, peguei minha pasta com os currículos, bem organizados, impressos com cuidado e respirei fundo antes de sair. A cidade era um charme. Ruas estreitas, casas antigas, lojas pequenas, pessoas caminhando sem pressa. O ritmo era outro, mais humano. Passei por algumas fábricas de confecção, boutiques locais, ateliês modestos. Em cada porta, deixava um currículo, sorria, explicava que era costureira, que tinha experiência. Alguns olhares foram curiosos, outros acolhedores. Alguns prometeram retorno. Outros apenas agradeceram. Enquanto caminhava, meu pensamento insistia em voltar para Elijah. Eu tentava afastar a imagem dele, mas era impossível. O jeito sério, o cuidado silencioso, o sorriso curto que aparecia só para mim. Perguntei-me se ele já tinha encontrado a carta, se estava com raiva, se estava magoado. Meu coração apertou. Mas eu continuei andando. Porque, mesmo pensando nele a cada esquina, eu sabia que essa cidade e esse novo começo, eram a única escolha que eu tinha para continuar viva por dentro.
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