Elijah Narrando
Não consegui dormir. Passei a madrugada inteira rolando na cama, virando de um lado para o outro, com o peito apertado e a cabeça cheia demais. O cheiro dela ainda estava em tudo. No travesseiro. Nos lençóis. No ar. Era um perfume leve, quase imperceptível, mas que agora parecia gritar a ausência dela em cada canto do apartamento.
Fechei os olhos e respirei fundo.
— Por que você fez isso, Melinda? — murmurei no escuro.
Não era raiva. Era desespero.
Eu precisava de respostas. Precisava saber para onde ela foi. Precisava entender o que tinha acontecido naquele atelier, porque aquela demissão não fazia sentido algum. Quanto mais eu pensava, mais certeza eu tinha de uma coisa: a fuga dela tinha tudo a ver com isso.
O dia amanheceu sem que meu corpo descansasse um segundo sequer. Levantei antes do despertador, como sempre, mas dessa vez com o cansaço pesando nos ombros. Fiz minha rotina matinal no automático. Banho frio. Barba. Camisa. Gravata. Tudo impecável por fora, completamente desorganizado por dentro.
Saí de casa com o sol ainda baixo no céu.
No carro, fui direto ao ponto. Peguei o celular e enviei um novo e-mail ao investigador.
Assunto: Urgente.
Pedi prioridade máxima. Paradeiro da Melinda Torres. Motivo real da demissão. Qualquer detalhe. Eu precisava disso antes que a ansiedade me devorasse por inteiro.
Cheguei à empresa cedo demais. O prédio ainda acordava lentamente. Cumprimentei a segurança, subi direto para minha sala e mergulhei no trabalho como quem se joga em água fria para não pensar.
A manhã passou rápido.
Reuniões estratégicas, análise de contratos, conferência de fluxo de caixa, aprovação de pagamentos altos demais para erros pequenos. Ser diretor administrativo exigia foco absoluto. Eu coordenava departamentos inteiros, tomava decisões que movimentavam cifras absurdas, negociava com bancos, investidores, conselhos.
Normalmente, isso me bastava.
Hoje, não.
Meu celular ficou ao lado do computador o tempo inteiro. Cada vibração falsa era uma frustração nova. Ignorei o horário de almoço. Não tinha fome. Pedi apenas um café forte e continuei trabalhando.
A tarde veio pesada.
Mais reuniões. Mais relatórios. Mais assinaturas. Mais responsabilidades. Tudo funcionava como deveria, menos eu. Minha mente insistia em voltar para Melinda. Para o jeito silencioso dela. Para os olhos claros cheios de coisas não ditas. Para a forma como ela se encolhia quando algo a machucava.
Ela não fugiria sem motivo. Eu sei disso.
Já estava no fim do expediente quando o e-mail chegou.
Abri na mesma hora.
O relatório era detalhado, frio, objetivo. Cada palavra parecia um golpe.
Maison Carter.
Dona do atelier onde Melinda trabalhava.
Histórico profissional limpo, mas relações pessoais questionáveis.
Continuei lendo.
Relacionamento extraconjugal confirmado com Edgar Montgomery.
Engoli seco, Edgar Montgomery. Meu pai.
Meu maxilar travou. O sangue ferveu.
Então foi ele.
Foi o meu pai quem mandou demitir a Melinda.
Segui lendo, com o peito cada vez mais apertado. Não havia motivo técnico para a demissão. Nenhuma reclamação. Nenhum erro. Nenhum atraso. Pelo contrário. O relatório deixava claro: Melinda Torres era considerada a melhor costureira do atelier. Produtiva, dedicada, talentosa.
Não existia justificativa.
Só ordem.
Minha mão fechou em punho sobre a mesa.
Ele a ameaçou. Eu não precisava de provas para saber disso. O olhar dele naquela noite, distante, pesado. O desconforto dela. A pressa em ir embora. Tudo se encaixava de forma crüel.
Continuei lendo.
Destino identificado:
Cidade do interior do estado. Pequena. Polo têxtil regional.
Chegou sozinha, hospedou-se em uma pousada no centro.
Ela estava viva.
Sozinha.
Tentando recomeçar.
Fechei os olhos por um segundo.
— Você não devia ter passado por isso. — murmurei.
Abri os olhos de novo, agora frios.
Primeiro, Edgar Montgomery.
Depois, Melinda.
Meu pai achou que podia usar poder e medo para afastá-la. Achou que eu aceitaria isso calado. Achou errado.
Vou lidar com ele primeiro. Com calma. Com precisão. Do jeito que eu sei fazer melhor. Edgar vai entender, finalmente, que existem limites que nem dinheiro nem sobrenome permitem ultrapassar.
Depois disso, vou atrás da Melinda.
Vou encontrá-la. Vou trazê-la de volta. Não importa quanto tempo leve, não importa a resistência dela. Ela não vai mais fugir sozinha.
E a Maison Carter…
essa mulher que espere.
Eu vou passar por cima dela como um demolidor.
Porque ninguém, tira de mim a única coisa que, sem perceber, se tornou meu essencial.
Liguei para o investigador ainda dentro da minha sala, a porta fechada, a cidade lá fora funcionando como se o meu mundo não estivesse prestes a virar do avesso.
— Quero tudo — falei direto, sem rodeio. — Tudo sobre o Edgar Montgomery. Empresas, contas, amantes, acordos sujos, favores políticos. Nada fica de fora.
Houve um breve silêncio do outro lado da linha.
— E a Maison Carter — continuei, a voz dura. — Levanta até o que ela escondeu debaixo do tapete. Essa vagabünda se acha intocável, mas ninguém é. A imprensa vai adorar esses escândalos.
— Entendido, senhor Montgomery — ele respondeu. — Vai ser um dossiê completo.
— Ótimo. Quero material suficiente pra derrubar reputações.
Desliguei sem esperar mais nada. Apoiei as mãos na mesa e respirei fundo.
Em seguida, peguei o celular novamente e liguei para o meu advogado.
— Preciso que você levante absolutamente tudo sobre o atelier Maison Carter — ordenei. — Documentação fiscal, registros trabalhistas, contratos, alvarás, processos antigos. Tudo.
— Algum problema específico? — ele perguntou.
— Todos — respondi seco. — Quero esse lugar virado do avesso. Se tiver uma irregularidade mínima, eu quero saber.
— Vou acionar minha equipe agora mesmo.
— Faça isso. E me mantenha informado a cada avanço.
Desliguei outra vez. Olhei ao redor da sala ampla, silenciosa, fria. Quantas decisões importantes já tinham sido tomadas ali? Quantas quedas começaram naquela mesa? Mais uma não faria diferença.
Terminei meu dia sem falar com mais ninguém. Ignorei ligações. Recusei convites. Não passei em nenhuma sala. Deixei que pensassem o que quisessem. Que acreditassem que venceram. Que achassem que eu estava acuado.
O silêncio também é uma arma.
Antes de sair do prédio, chamei um dos meus seguranças de confiança.
— Quero você viajando hoje ainda — falei. — Cidade do interior. Você vai acompanhar uma mulher chamada Melinda.
Ele franziu a testa, atento.
— De longe — completei. — Nada de contato. Nada de abordagem. Só observa. Garante que ninguém se aproxime, que ninguém tente se aproveitar dela.
Passei todas as informações, e mostrei a foto da Melinda, só para ele recordar.
— Entendido, senhor.
— Qualquer coisa fora do normal, você me liga. A qualquer hora.
Ele assentiu e saiu para resolver tudo.
Entrei no carro sentindo o cansaço finalmente pesar, mas a mente continuava afiada. Eles acham que ganharam. Acham que afastaram a Melinda e que eu vou seguir minha vida como sempre. E o meu pai tá achando que vai se tornar CEO, ele reze, porque se estiver devendo algo. Vai assumir seu lugar de traidor da Família no xadrez.
Não sabem com quem mexeram.
Isso ainda está só começando.