Melinda Narrando
Já são dias nessa rotina de procurar emprego, andar de um lado pro outro com a pasta de currículos debaixo do braço e o coração sempre um pouco mais cansado que as pernas. Consegui duas entrevistas até agora, o que pra quem chegou sem conhecer ninguém já é quase uma vitória. Mesmo assim, acordo todos os dias com aquela mistura de esperança e medo apertando o peito.
Acordei cedo hoje. O quarto da pousada ainda estava silencioso, só o barulho distante de algum caminhão passando na avenida. Levantei devagar, fiz minha higiene, lavei o rosto com água fria pra espantar o sono e tentei me animar diante do espelho. Prendi o cabelo num coque simples, passei um pouco de pó no rosto e um batom discreto. Vesti uma calça preta de tecido leve, uma blusa branca de mangas curtas e um cardigan azul claro. Não era nada sofisticado, mas estava limpa, arrumada e confortável. Calcei uma sapatilha preta já um pouco gasta, mas inteira. Respirei fundo antes de sair. Era uma entrevista numa fábrica de lingerie.
Eu não sou especialista nessa área. Sempre trabalhei mais com costura fina, ajustes, vestidos, peças únicas. Lingerie exige outro olhar, outro cuidado, outra técnica. Mas nada que eu não possa aprender. Costura é costura. Linha, agulha, paciência e amor pelo que se faz.
Cheguei à fábrica alguns minutos antes do horário. Um prédio simples, organizado, cheiro forte de tecido novo misturado com produto de limpeza. Fui atendida por uma moça do RH, jovem, cabelo preso num räbo de cavalo impecável e sorriso treinado.
— Bom dia, Melinda, pode me acompanhar?
— Claro — respondi, apertando a pasta contra o peito.
Sentamos numa sala pequena. Ela folheou meu currículo com atenção, fez perguntas sobre minha experiência, pediu pra eu falar de mim. Falei da costura, do que sei fazer, do que ainda estou disposta a aprender. Fui sincera. Sempre fui.
— Você nunca trabalhou diretamente com lingerie, certo? — ela perguntou.
— Não diretamente, mas aprendo rápido — respondi. — E sou muito cuidadosa com acabamento.
Ela assentiu, anotou alguma coisa.
— Gostei do seu perfil. Vamos analisar e qualquer coisa a gente te liga, tudo bem?
— Tudo bem — sorri, mesmo já sabendo como essa frase costuma terminar.
Saí da fábrica com um peso estranho no peito. Aquela sensação de que não vão ligar coisa nenhuma. Caminhei devagar até a pousada, tentando não me deixar afundar demais.
Arrumei meu quarto assim que cheguei. Dobrei as roupas, organizei os livros, arrastei a cadeira pra debaixo da mesa. Aqui, perdir a faxineira não é pedido, é solicitação, e vem com taxa extra. Não posso me dar a esse luxo.
Depois do almoço, resolvi sair. Andar ajuda a clarear a cabeça. A cidade é um charme. Ruas limpas, lojas pequenas, vitrines caprichadas. Em várias delas, os manequins já vestiam roupas vermelhas, verdes, douradas. Looks de Natal. Luzinhas sendo penduradas. Senti um aperto no peito tão forte que precisei parar.
— Natal.
Comprei um sorvete de máquina numa lanchonete da praça. Sentei num banco, observando as pessoas passarem, as vitrines brilhando, a cidade se preparando pra uma data que sempre foi sobre família. O sorvete gelado escorria devagar, contrastando com a lágrima quente que caiu sem pedir licença.
Pensei no Elijah. Pensei no cheiro dele, no sorriso torto, na forma como ele dizia meu nome. Apertei os lábios, respirei fundo e limpei o rosto com as costas da mão.
Eu preciso ser forte. Mesmo com o coração doendo. Mesmo sozinha. Mesmo sentindo falta demais.
Acordei antes do despertador, de novo. Mais uma noite mäl dormida, virando de um lado pro outro, encarando o teto e tentando silenciar pensamentos que não me obedecem. O ventilador fazia aquele barulho contínuo, quase um sussurro, e mesmo assim o quarto parecia grande demais pra mim. Levantei com o corpo pesado, mas a mente em alerta. Hoje era o dia da segunda entrevista. Eu precisava que desse certo.
Fui direto para o banheiro, lavei o rosto demoradamente, como se a água pudesse levar embora o cansaço acumulado. Tomei um banho morno, deixei a água cair nas costas por alguns minutos a mais, respirando fundo. Prendi o cabelo em um r**o de cavalo baixo, simples. Escolhi uma roupa mais segura: calça jeans escura, blusa de tecido leve bege e uma sapatilha confortável. Nada chamativo, nada errado. Passei um perfume suave, quase imperceptível. Olhei meu reflexo no espelho e falei baixinho comigo mesma que ia dar certo. Mesmo sem acreditar cem por cento.
Desci para o café da manhã. Comi pouco, como sempre quando estou nervosa. Um pão, café com leite e uma fruta. Peguei minha pasta de documentos, conferi os documentos mais uma vez e saí. O ar da manhã estava fresco, a cidade acordando devagar. Caminhei até a fábrica sentindo o coração bater rápido, mas firme. Aquela sensação estranha de quem não tem mais plano B.
A fábrica de roupas era maior que a de lingerie. Mais movimento, mais gente entrando e saindo. Fui recebida por uma senhora do RH, mais velha, olhar atento e postura séria. Ela me levou até a sala e pediu que eu falasse da minha experiência. Contei tudo com calma, falei da alta costura, dos ajustes, do cuidado com acabamento, da disciplina com prazos. Ela ouviu sem me interromper.
— Aqui a gente trabalha com produção, Melinda. Ritmo, repetição, atenção aos detalhes — disse ela.
— Eu sei — respondi. — E eu gosto disso. Gosto de ver uma peça nascer certa, do início ao fim.
Ela me pediu pra acompanhar até o setor de costura. Me mostrou máquinas, peças em andamento, perguntou se eu sabia operar alguns modelos. Respondi que sim, outros eu aprenderia rápido. Ela me observou por alguns segundos longos, daqueles que fazem a gente prender a respiração.
— Você começa amanhã — disse, finalmente.
Eu pisquei, sem entender de imediato.
— Como é que é? — perguntei, a voz saindo mais baixa do que eu queria.
— Está contratada. Precisamos de alguém com sua experiência.
Meu peito se encheu de ar e emoção ao mesmo tempo. Senti os olhos arderem, mas segurei. Sorri. Um sorriso grande, verdadeiro, quase esquecido.
— Muito obrigada — falei, sentindo a voz tremer. — Eu não vou decepcionar.
Saí da fábrica flutuando. O sol parecia mais quente, a cidade mais bonita. Pela primeira vez desde que cheguei, senti algo diferente do medo: alívio. Segurança. Um chão firme debaixo dos pés. Ainda doía. Ainda faltava alguém. Mas agora eu tinha trabalho. E isso, naquele momento, era tudo.