18 - Elijah

1161 Palavras
Elijah Narrando O dia ainda nem tinha engrenado direito quando meu celular vibrou sobre a mesa de vidro do escritório. Número conhecido. Segurança. — Senhor Montgomery, tenho atualizações. Atendi sem cerimônia. — Fale. — Atualização sobre a senhorita Melinda. Ela está trabalhando em uma fábrica de roupas no interior. Ambiente simples. Turno diurno. Segundos depois, a foto chegou. Não era perfeita, estava distante, feita de dentro de um carro, mas era ela. Cabelo preso, roupa simples, concentrada, caminhando com outras funcionárias. Meu peito apertou de um jeito estranho. Não era dor. Era orgulho misturado com raiva do mundo. — Continue acompanhando — ordenei. — À distância. Ninguém chega perto dela. Qualquer movimentação estranha, eu quero saber. — Sim, senhor. Bloqueei a tela e respirei fundo. Melinda trabalhando. Do jeito dela. Sobrevivendo. Forte como sempre. E longe de mim porque alguém achou que podia brincar com a vida dela. Meu pai. Evitei cruzar com ele o máximo possível nos últimos dias. Edgar Montgomery parece ter prazer em rondar meus passos. Provocar. Cutucar. Fingir normalidade. Como se eu não soubesse exatamente quem ele era. Não adiantou. Ele entrou na minha sala sem bater, como sempre fez. — Precisamos falar sobre alguns números do último trimestre — disse, sentando-se sem ser convidado. — E, sua namorada. Não a vi mais. Levantei os olhos devagar. Controle. Frieza. Se ele soubesse o esforço que faço para não quebrar a cara dele ali mesmo. — Meu relacionamento não é assunto corporativo — respondi, seco. Ele sorriu de lado. — Só achei curioso. Apareceu do nada, sumiu rápido. Fechei a pasta que estava lendo. — Ela trabalha com moda. Costura. Não com energia ou petróleo. Não faz sentido estar aqui. O olhar dele escureceu por um microssegundo. Quase imperceptível. Mas eu vi. Sempre vejo. — Entendo — disse ele, levantando-se. — Depois falamos dos números. Saiu como se tivesse vencido alguma coisa. Mäl sabe ele que está andando sobre uma mina prestes a explodir. Minutos depois, meu e-mail apitou. Assunto: Dossiê completo: Edgar Montgomery. Fechei a porta da sala. Tranquei. Abri o arquivo. Página por página, meu sangue ferveu. Desvio de dinheiro de subsidiárias menores. Superfaturamento em contratos de manutenção. Empresas de fachada ligadas a nomes de laranjas. Transferências para contas no exterior. Um apartamento de luxo comprado em nome de terceiros. presente para a amante. Joias. Viagens pagas com dinheiro da empresa. Favorecimento ilícito em licitações internas. E mais. Assédio moral. Ameaças veladas. Uso do sobrenome Montgomery para silenciar funcionários. Tudo documentado. Provas. Datas. Valores. Áudios. E-mails. Ele não era só um pai de mërda. É um criminoso. Peguei o telefone e liguei para o investigador. — Temos material suficiente? — perguntei. — Mais do que suficiente. Isso destrói a reputação dele. — Ótimo. — Como o senhor quer proceder? Apoiei os cotovelos na mesa. — Tudo vai para a imprensa. De forma anônima. Quero vazamentos estratégicos. Nada que respingue na Montgomery como gestão atual. — Entendido. Separar o nome dele da empresa. — Exato. Quero deixar claro que a diretoria executiva não compactua. Vou soltar uma nota oficial reforçando compliance, auditorias internas e tolerância zero. — E a amante? — ele perguntou. Sorri sem humor. — Inclua. O público adora hipocrisia exposta. — Quando? — Hoje à noite. Amanhã cedo isso já tem que estar em todos os portais. A noite caiu pesada sobre o meu apartamento. Luzes baixas, silêncio calculado e um copo de whisky na mão. Gelo batendo devagar no cristal enquanto eu encarava a cidade pela janela, esperando. Não era ansiedade. Era certeza. Quando a desgraça começa, ela não avisa, só explode. Passava da meia-noite quando meu telefone virou um inferno. Vibrou uma vez. Duas. Dez. Ligações. Mensagens. Notificações se atropelando. Tios, primos, conselheiros, números que eu reconhecia e outros que eu ignorava sem remorso. O circo tinha começado. Atendi primeiro minha mãe. — Elijah… — a voz dela tremia. — Estão me humilhando. Isso está em todo lugar. Em todos os portais. Redes sociais. Estão falando de mim como se eu fosse uma idïota. Fechei os olhos por um instante. — Mãe, respira — falei, firme. — Você não fez nada errado. — Seu pai… — ela soluçou. — Eu fui exposta em praça pública. — Quem foi exposto foi ele. E a amante — corrigi. — Ouça bem o que eu vou te dizer agora: peça o divórcio. Imediatamente. — Divórcio? — Sim. Por adultério. Você não perde nada. Ele é quem sai com uma mão na frente e outra atrás. Houve silêncio do outro lado. Depois, um suspiro cansado. — Você já sabia. — ela disse. — Agora não importa como. Importa que você se proteja. — Obrigada, meu filho. Desliguei antes que ela percebesse qualquer coisa além do que eu queria mostrar. A próxima ligação que atendi foi do meu tio Edgar. — Precisamos de uma reunião agora — ele disse, sem rodeios. — Isso saiu do controle. — Não saiu. Só começou — respondi. — Estarei na empresa em trinta minutos. Meu pai ligou em seguida. O nome dele piscou na tela. Edgar Montgomery. Ignorei. Ligou de novo. Ignorei outra vez. Ele não merece ouvir a minha voz. Ainda não. Troquei o copo de whisky por um café forte, vesti o paletó e saí. Às duas da manhã, a Montgomery estava acesa como se fosse meio-dia. Conselho reunido, rostos tensos, seguranças em alerta. Entramos na sala principal. Meu pai chegou. Pisando firme, fora de si. — Isso é um golpe! — ele gritou assim que me viu. — Você armou isso contra mim. — Sente-se, Elvis — ordenou meu tio. — Estamos em reunião. — Eu não vou sentar! — ele berrou. — Isso é uma armação! O clima ficou elétrico. — Armação são os desvios que você fez — meu tio respondeu, a voz dura. — Você é um canalha. Meu pai avançou nele sem pensar. Num segundo, estavam se empurrando, xingamentos ecoando pela sala. — Segura! — alguém gritou. Eu e mais dois primos fomos rápidos. Seguramos os dois antes que aquilo virasse agressão de verdade. — Chega! — falei, alto, frio. — Isso aqui ainda é uma empresa. Respiração pesada. Ódio no ar. Vergonha escorrendo pelas paredes. O conselho decidiu ali, sem demora: afastamento imediato de Elvis Montgomery enquanto durassem as investigações. Sem cargo. Sem poder. Sem acesso. Ele riu. Um riso desequilibrado. — Vocês vão se arrepender. — Não — respondi. — Quem devia ter pensado nisso era você. Saí da sala e fui direto para meu escritório. Abri o notebook e “comecei” a digitar a nota oficial. Fingimento. A nota já estava pronta há horas. Revisada. Aprovada juridicamente. Transparência. Compromisso. Ética. A Montgomery acima de indivíduos. Apertei “enviar”. Do lado de fora, a imprensa começava a uivar. A queda tinha começado. Encostei na cadeira e sorri de canto. — Um por um — murmurei. — Agora é a vez da Maison Carter. E dessa vez, ninguém vai segurar.
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