19 - Melinda

1080 Palavras
Melinda Narrando Meu primeiro dia naquela empresa começou antes mesmo do sol nascer direito. Acordei com o coração acelerado, aquela mistura de nervosismo e esperança que só quem precisa recomeçar do zero entende. Tomei um banho rápido, vesti uma roupa simples, calça jeans, blusa clara e tênis, prendi o cabelo num coque frouxo e desci para o café da manhã da pousada quase sem sentir o gosto das coisas. Eu só pensava: vai dar certo, precisa dar certo. Cheguei à fábrica alguns minutos antes do horário. O prédio é grande, simples por fora, mas pulsava vida por dentro. Máquinas, tecidos, vozes, gente indo e vindo com pressa e costume. Fui encaminhada para o setor de costura intermediária, onde as peças já vinham cortadas e precisavam ganhar forma. Nada de alta-costura, nada de vestidos de gala. Ali eram blusas, vestidos simples, calças, peças que iam vestir mulheres reais, do dia a dia. E, estranhamente, isso me deu um conforto enorme. A supervisora me explicou tudo com paciência. — Aqui a gente trabalha com metas, mas sem desespero — ela disse. — Qualquer dúvida, pergunta. Assenti, respirando fundo, e sentei diante da máquina. Quando meus dedos tocaram o tecido, algo em mim se acalmou. Costurar sempre foi meu refúgio. O barulho ritmado da máquina, o alinhamento das costuras, o cuidado com cada detalhe, era como se o mundo ficasse menos assustador. As horas passaram rápidas. O trabalho era intenso, mas organizado. Às doze em ponto, o apito soou anunciando o almoço. A empresa tem refeitório próprio. Comida simples, caseira, daquelas que abraçam o estômago. Sentei com outras costureiras, ouvi histórias, ri de coisas bobas. Pela primeira vez em dias, não me senti tão sozinha. — Primeiro dia é sempre puxado — uma delas comentou. — Mas você pega o ritmo rápido — disse outra. Sorri, agradecida, mesmo cansada. Foram oito horas certinhas de trabalho. Quando o expediente terminou, meus ombros doíam, mas meu coração estava inteiro. Cansado, sim. Mas inteiro. Voltei para a pousada ao anoitecer. Tomei um banho demorado, deixando a água quente levar embora o peso do dia. Vesti uma roupa confortável, desci para o jantar e comi em silêncio, observando as pessoas ao redor. Depois subi novamente para o quarto. Só então lembrei do celular. Na fábrica não pode usar telefone, então eu deixo sempre na pousada. Peguei o aparelho em cima da mesa de cabeceira e liguei. Ele demorou alguns segundos para encontrar sinal. Quando encontrou foi como abrir uma comporta. Notícias. Muitas. Manchetes. Fotos. O nome da Madame Maison estava em todo lugar. Escândalos. Brigas. Caso com um grande empresário. Desvio de dinheiro. E então o nome que fez meu peito apertar. Montgomery. Meu Deus. Li tudo com atenção, com as mãos tremendo. Cada linha confirmava aquilo que eu vivi, aquilo que me feriu, aquilo que me fez fugir. E agora, estava exposto. Descoberto. O medo que eu carregava sozinha não era mais só meu. As lágrimas vieram antes que eu percebesse. Chorei de alívio. De cansaço. De justiça. — Acabou. — sussurrei para o quarto vazio. Rolei a tela mais um pouco e então vi a foto dele. Elijah. Sério, elegante, impecável. Ao lado, uma nota sobre a seriedade da empresa, o compromisso com a ética e a transparência. Tão ele. Tão firme. Tão único. Meu coração apertou de um jeito doce e dolorido ao mesmo tempo. — Eu te amo, Elijah — falei baixinho, como se ele pudesse ouvir. Encostei o celular no peito, abraçando aquele pedaço de vidro como se fosse ele. Como se aquele gesto pudesse diminuir a saudade, a distância, o medo que ainda morava em mim. Fechei os olhos. Pela primeira vez desde que fugi, dormi com a sensação de que talvez… só talvez… eu não estivesse errada em acreditar que a justiça tarda mais não falha. Os dias começaram a passar de um jeito curioso. Não rápidos, mas também não parados. Eles simplesmente aconteciam, um depois do outro, e eu fui me encaixando neles como quem aprende um novo ritmo de respiração. Acordar cedo já não era tão difícil. Meu corpo começou a entender o horário, mesmo que meu coração ainda demorasse a acompanhar. Banho rápido, roupa simples, cabelo preso do jeito que desse, café da manhã na pousada, quase sempre pão, café forte e alguma fruta e depois o caminho até a fábrica. Já conhecia o trajeto de cor, já cumprimento o porteiro, já sabia qual máquina era a minha. No setor de costura, fui ganhando confiança. Minhas mãos sabiam o que fazer antes mesmo de eu pensar. As metas deixaram de me assustar, as colegas viraram rostos conhecidos, algumas até amigas de conversa curta no intervalo. O barulho das máquinas já não me incomodava; pelo contrário, me dava uma sensação estranha de segurança. Enquanto eu costurava, minha mente descansava. Almoço no refeitório, sempre no mesmo horário. Às vezes eu ria, às vezes ficava quieta. Às vezes pensava demais. Outras, quase nada. O expediente acabava, eu voltava para a pousada, tomava banho, jantava e subia para o quarto. Uma rotina simples. Modesta. Mas minha. À noite, quase sempre, eu ligava o celular. Acompanhar o escândalo virou um hábito silencioso. As notícias sobre a Madame Maison não paravam. Novas denúncias, mais detalhes, mais sujeira vindo à tona. Cada atualização era um misto de alívio e tristeza. Alívio por saber que a verdade apareceu. Tristeza por imaginar o impacto disso tudo. A irmã Carmem, com certeza, já sabia. Pensei nela mais de uma vez. No convento, nas notícias chegando como sussurros atravessando muros antigos. Meu coração apertava ao imaginar o olhar preocupado dela, talvez rezando por mim sem saber onde eu estava. Prometi a mim mesma que, quando tudo estivesse mais calmo, eu darei um jeito de mandar notícias. Os dias seguiram assim. Trabalho, pousada, silêncio, pensamentos. Hoje, quando me deitei, o quarto estava especialmente quieto. O ventilador girava devagar, espalhando o ar morno. Fechei os olhos e, sem pedir licença, Elijah apareceu na minha mente. O jeito sério. O sorriso contido. O cuidado disfarçado de praticidade. Dois meses. Faltam dois meses para o Natal. Meu peito apertou com uma saudade que não pedi para sentir. Fiquei olhando para o teto, imaginando como ele estaria. Trabalhando demais, com certeza. Frio por fora, mas com aquele silêncio cheio de coisas não ditas por dentro. — Como será que você está? — murmurei no escuro. Não tive resposta. Só o som do ventilador e um coração que, mesmo longe, ainda batia por ele.
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