01 - Elijah

1097 Palavras
PRÓLOGO — Elijah Narrando Eu devia ter imaginado que minha avó deixaria o mundo pegando fogo, era bem a cara dela. Mas nem nos meus piores pesadelos corporativos eu teria previsto uma coisa dessa. A sala do advogado estava cheia do cheiro de madeira antiga, perfume caro e tensão m*l disfarçada. Meu pai, meus tios, meus primos, todo mundo impecavelmente vestido, como se fosse uma reunião de diretoria permanente. Do lado de fora, as luzes de Natal começavam a ser acesas pela cidade, mas ali dentro, ninguém tinha espírito natalino suficiente pra iluminar nada. Eu me ajeitei na cadeira, batendo o dedo no braço de couro enquanto o advogado, o velho Sinclair, ajeitava os óculos e pigarreava. Sempre odiei esse som. Era o prelúdio de problemas. — Agora, sobre a sucessão da presidência da Montgomery Industries. O ar pareceu se condensar. Era o momento. Meu momento. Eu já sabia que aquele cargo era meu desde que aprendi a falar: lucro líquido. Trabalhei a vida toda para isso. Enquanto meus primos se ocupavam com festas, carros, viagens e decisões estúpidas, eu estudava, liderava projetos, multiplicava números. Era o favorito. O filho-prodígio, o neto brilhante, o nome óbvio para assumir a cadeira principal. Até Sinclair abrir a boca de novo. — Conforme instruções deixadas por Lillian Montgomery — ele pausou, como se gostasse de ver a gente sofrer — o cargo de CEO será transferido para Elijah Montgomery assim que ele cumprir a cláusula final. Senti o estômago contrair. Cláusula final? Eu não lembrava de cláusula final. — Como assim? — perguntei, tentando manter o tom calmo. Meu pai bufou do meu lado como se estivesse achando graça. Sinclair continuou: — Para assumir oficialmente a presidência, o beneficiário Elijah Montgomery deve estar legalmente casado até o dia 24 de dezembro deste ano. Silêncio absoluto. Desses que fazem até o barulho do ar-condicionado parecer um rugido. Eu arquejei. — Casado? — repeti, porque claramente eu tinha ouvido errado. — Até o Natal? — Exatamente — Sinclair confirmou, folheando papéis. — Restam Sessenta dias. Sessenta, Eu. Casado. Era quase cômico. Tipo filme r**m. Tipo pegadinha. Tipo loucura de Natal que só minha avó, com seu amor por romance e tradições, seria capaz de inventar. Minha família explodiu em um burburinho histérico. Meus tios riram. Meus primos começaram a murmurar apostas. E meu pai… ah, meu pai. Ele cruzou os braços, inclinou a cabeça e riu alto. — Sessenta dias? Elijah não segura nem namorico de três semanas. — Pai — rosnei. — Vamos ser sinceros: você não acredita em amor, não gosta de compromisso, seu único relacionamento duradouro é com a planilha de orçamento anual. Mais risadas. Mais apostas. Meu primo Gregory levantou a mão: — Cem dólares que ele não chega nem perto de noivar. — Duzentos que ele vai fugir pro exterior antes do Natal. — disse meu tio Edgar. E então meu pai, sempre disposto a ser a estrela da palhaçada, completou: — E ó, não vale casamento por contrato! A mamãe falava disso direto, então se ela estivesse viva, deixaria claro: tem que ser casamento de verdade. O advogado pigarreou. — Não há nada no testamento proibindo contratos matrimoniais. A sala inteira virou para ele. E em seguida virou para mim. Eu senti o coração dar um salto. Um daqueles que avisam que você acabou de ter uma ideia estúpida, mas genial. Eu não havia pensado em casamento por contrato até aquele exato segundo. Mas quando Sinclair falou que não havia proibição, algo dentro de mim clicou. Como quando uma empresa concorrente vacila e você vê a oportunidade de comprar metade das ações. Meu pai encarou Sinclair, depois olhou pra mim com um sorriso torto. — Nem pense nisso. É baixo até pra você. Eu sorri. Ou quase sorri. Engoli o sorriso antes que transbordasse, jogando uma máscara neutra no rosto. Porque a verdade é simples: Era exatamente isso que eu iria fazer. Eu não acredito em amor. Nunca acreditei. Cresci em uma casa onde o afeto era substituído por cheques, presentes caros e desculpas vazias. Onde o silêncio gritava mais alto que qualquer “eu te amo”. Onde brigas, traições e gritos eram parte da rotina. Amor? Pra mim era só mais um produto, uma moeda emocional manipulável. Mas contrato? Contrato eu entendo. Contrato eu sei cumprir. Só preciso da mulher certa. Uma que não quisesse nada além de dinheiro, estabilidade ou ajuda. Uma que não pedisse meu coração, só minha assinatura. Enquanto o burburinho continuava, eu me recostei na cadeira, cruzando as pernas com todo o controle que ainda tinha do meu corpo. Mas a verdade é que meus pensamentos já estavam mil passos à frente. Sessenta dias, Casamento, Cláusula.Trono corporativo. Tudo se encaixava com perfeição gritante. Só faltava a peça principal: a noiva. Sinclair fechou a pasta e suspirou, encerrando a reunião. — Qualquer dúvida, senhor Elijah, estarei à disposição. Mas recomendo resolver essa questão o quanto antes. O Natal chega rápido. Eu me levantei. Minha família ainda ria, apostava, duvidava. Meu pai passou por mim, deu um tapinha no meu ombro e disse: — Desiste, filho. Você não nasceu pra casamento. — Veremos — respondi, gelado. Ele riu de novo. — Aposto mil dólares que você não consegue nem achar alguém que aceite essa loucura. Eu o encarei de frente. — Aceito a aposta. O silêncio caiu como neve pesada. Meu pai ergueu a sobrancelha, surpreso com minha ousadia. Eu peguei meu paletó, arrumei a gravata e caminha até a porta sem olhar para trás. Porque por dentro, eu já tinha decidido. Eu serei o CEO. Eu encontrarei alguém. Eu casaria antes do Natal. E se minha família queria ver milagre natalino, então eles teriam um. Ao sair no corredor iluminado pela decoração de dezembro, eu puxei o celular e abri minha agenda cheia de compromissos. Reuniões, viagens, eventos, jantares corporativos, nada disso importava agora. Eu precisava de outra coisa. De alguém totalmente fora da minha bolha. De alguém que não soubesse quem eu era. De alguém simples, acessível e dispensada do caos do meu mundo. Alguém real. Alguém como… Não sei. Ainda não. Mas uma coisa é certa: Eu vou encontrá-la. Porque para salvar meu trono, para honrar minha avó e, mais secretamente ainda, para provar ao meu pai que ele estava errado, eu farei qualquer coisa. Casamento por amor? Nunca. Mas casamento por contrato? O som perfeito para minha ascensão. Sorri sozinho, pela primeira vez naquela manhã, sentindo meu coração bater com propósito. Sessenta dias. Um CEO desesperado. Uma cláusula impossível. E um Natal chegando. Que começassem os jogos.
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