13 - Melinda

1272 Palavras
Melinda Narrando Desde o momento em que entrei naquele salão enorme, iluminado demais e cheio de gente elegante demais, senti que precisava aprender a respirar de novo. Tudo era bonito, luxuoso, impressionante, mas eu não me sentia pertencente àquele mundo. Eu me sentia exposta. Os olhares vinham de todos os lados. Alguns curiosos, outros claramente avaliadores. Mulheres me analisando como se eu fosse um vestido novo em vitrine. Homens olhando com interesse descarado. Eu tentava manter o sorriso no rosto, a postura ereta, lembrando o tempo todo que aquilo fazia parte de um acordo. Era só um papel. Um namoro de mentira. Mas havia um olhar específico do qual eu tentava fugir desde que entramos. Um olhar que eu conhecia bem demais. O amante da Madame. Assim que nossos olhos se cruzaram, meu estômago revirou com força. O mesmo arrepio de nojo percorreu minha espinha. Era impossível não reconhecer aquele jeito de olhar, lento, invasivo, como se ele estivesse me despindo ali mesmo, no meio de todos. Meu corpo reagiu sozinho. Virei um pouco de costas, dei um passo para mais perto de Elijah, como se a presença dele pudesse me proteger. Funcionou. Um pouco. Até Elijah se inclinar levemente e falar no meu ouvido, num tom baixo e casual demais para o impacto que causou: — Aquele ali é meu pai. Eu perdi o chão. Juro que senti minhas pernas ficarem fracas. Meu coração disparou de um jeito errado, descompassado. Olhei de novo, esperando estar enganada, esperando que fosse só uma coincidência absurda. Mas não era. Era ele. O mesmo homem que frequentava o apartamento da Maison. O amante da minha ex-chefe. O homem que sempre me olhou como se eu fosse um objeto. O homem que agora, era o pai do Elijah. Meu Deus. O pai do meu namorado de mentira. É esse desgraçado. Sorri. Não sei como consegui sorrir. Acho que foi puro instinto de sobrevivência. Continuei ali, fingindo normalidade, conversando, rindo quando precisava. Aproveitei o máximo que consegui, mas sempre virando um pouco o corpo, evitando ficar de frente para ele. Então veio o anúncio. Elijah subiu ao palco com aquela segurança que só quem nasceu naquele mundo tem. A voz firme, o olhar confiante. Quando ele disse meu nome, quando falou que eu era sua namorada, senti algo estranho apertar meu peito. E quando a mãe dele pediu o beijo… Foi ali. Meu primeiro beijo de verdade. Mesmo sendo em um relacionamento de mentira. Minhas mãos tremiam, mas eu acompanhei o ritmo dele. Foi rápido, elegante, doce. Os lábios dele tinham um sabor suave, quente. Por alguns segundos, eu esqueci tudo. O salão, o medo, o homem nojento. Só existia o Elijah. A mãe dele parecia genuinamente feliz. Ela é gentil, calorosa, tinha um sorriso fácil. Boa demais para ser casada com aquele homem. Isso só piorava tudo. Depois do jantar precisei ir ao banheiro. Eu precisava respirar longe de todos. Molhei a nuca, respirei fundo, apoiei as mãos na pia e encarei meu reflexo. Eu estava linda. De vermelho. Parecia confiante. Forte. Mas por dentro, eu estava em pedaços. Quando abri a porta para sair, dei de cara com ele. Meu corpo congelou. — Então é você. — ele disse, com um sorriso torto, que me deu vontade de vomitar. — A nova distração do meu filho. Tentei passar por ele, desviando. — Com licença. Ele segurou meu pulso. Forte. Dolorido. — Eu não mandei você sair. — Por favor, me solta, pedi, tentando manter a voz firme. — Você acha mesmo que eu não sei o que está acontecendo? Ele se aproximou, abaixando o tom, venenoso. — O Elijah sempre gostou de me desafiar. Mas isso aqui. — ele riu baixo. — Isso é um joguinho patético. — Eu não sei do que o senhor está falando. — Sabe sim. — ele respondeu, apertando ainda mais meu pulso. — Você é só uma garota sem sobrenome, sem família, sem nada. Uma órfã brincando de namorada perfeita. E o meu filho que é bem esperto, vai usar você para se tornar o CEO. Aquilo doeu mais do que o aperto. As lágrimas arderam nos meus olhos. — Você tem vinte e quatro horas. — ele continuou, frio, — para desaparecer da vida do meu filho. — E se eu não desaparecer? — perguntei, com a voz falhando. O olhar dele escureceu. — Você vai se arrepender. Ele me olhou de cima a baixo, lento, crüel. — Eu posso acabar com você sem levantar suspeitas. Posso fazer você perder qualquer emprego, qualquer chance, qualquer dignidade. Ele sorriu. — Quem sentiria falta de uma costureirinha órfã? Meu corpo tremia. — Não encosta mais em mim, consegui dizer. Ele soltou meu pulso com força. A pele ficou vermelha, ardendo. — Faça a escolha certa. — disse antes de se afastar, como se nada tivesse acontecido. Fiquei ali parada, tentando não desmoronar. Quando consegui andar, corri de volta para o salão, o coração batendo tão forte que parecia querer sair do peito. Encontrei Elijah conversando. Toquei o braço dele. — A gente pode ir embora? — Aconteceu alguma coisa? — Meu estômago, menti. — Tá doendo muito. O que doía era meu coração, pesado de medo. Em casa, Elijah cuidou de mim. Trouxe água, remédio, falou baixo. Eu agradeci, sorri fraco, fui para o quarto. Quando ele apagou a luz e saiu, virei para o lado e chorei em silêncio. Chorei pela humilhação. Pelo medo. Pela sensação de nunca estar segura. De nunca poder ter algo bom sem que alguém tente tirar. E foi ali, naquela cama confortável demais para a minha realidade, que eu decidi. Eu vou fugir. Pra longe. Ainda não sabia pra onde. Mas amanhã, assim que o dia amanhecer, eu vou para a rodoviária. Comprarei a primeira passagem possível. Porque, às vezes, a única forma de sobreviver… é desaparecer antes que te destruam. Não consegui dormir. O quarto estava silencioso demais, mas não era um silêncio vazio. Era preenchido pelo cheiro do Elijah, um perfume discreto, amadeirado, misturado com algo que eu já reconhecia como conforto. Eu sabia que ele estava ali, no sofá do quarto, pertinho da cama. Essa certeza me acalmava e, ao mesmo tempo, apertava meu peito. Fechei os olhos, tentando forçar o sono, mas minha mente não obedecia. Cada vez que eu respirava fundo, pensava nele. No cuidado, na forma como me olhou mais cedo, preocupado. E então pensava no outro. No pai dele. Na mão apertando meu pulso. Nas palavras frias, calculadas, ditas com tanta certeza que pareciam sentença. Eu não posso acusar. Essa frase martelava na minha cabeça como um castigo. É o pai dele. Mesmo que eu contasse, quem acreditaria? Uma órfã sem sobrenome, sem família, sem proteção, contra um homem poderoso, respeitado, marido de uma socialite importante. Eu já conseguia imaginar os olhares desconfiados, as perguntas atravessadas, o silêncio constrangedor depois. Eu seria a errada. A interesseira. A garota que confundiu as coisas. Isso me destruía por dentro. As lágrimas escorriam silenciosas pelo meu rosto, molhando o travesseiro. Eu mordi o lábio para não soluçar. Não queria que Elijah ouvisse. Ele não merecia isso. Ele não merecia carregar um problema que não era dele. Aproximei o rosto do travesseiro, tentando capturar melhor o cheiro dele, como se aquilo fosse um abraço invisível. Doía pensar que, mesmo sendo um relacionamento de mentira, ele tinha se tornado real demais para mim. Real demais para eu arriscar. Real demais para eu permitir que aquele homem fizesse mäl a ele, por minha causa. Foi ali, no escuro, com o coração apertado e os olhos ardendo, que aceitei o que já tinha decidido.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR