-Voltamos logo! - avisou Beto saindo do carro seguido de dois outros homens que estavam no banco de trás. Felipe concordou com a cabeça calmamente parecendo estar com pensamentos distantes dali.
Assim sempre foi ele. Sua frieza e indiferença sobre as coisas que aconteciam ao seu redor era interpretada de várias formas pelas pessoas que convivia. Raríssimas vezes esboçou sentimentos e emoções. Poucas vezes sorriu, nunca o viram chorar. Seus colegas de trabalho o respeitavam devido aquela sensação de dúvida de até onde seria capaz de ir para manter-se como estava. Tudo que lhe era pedido, era feito, sem meio tempo, sem demora, sem tremeluzir. Não se enturmava em festas, ficar sozinho era seu melhor momento, não criava vínculos apesar de atrair muitas pessoas.
De repente, seu olhar perdido se fixou no retrovisor do carro e pela primeira vez em tantos anos aparentou uma certa tensão, veemência evidente. Sem palavras, engoliu seco tentando não perder o foco e não se deixar levar pelo que subitamente tomou-lhe os pensamentos.
Uma jovem moça saiu de uma loja próximo onde ele estava estacionado. Felipe não sabia e não entendia o porquê mas tinha algo nela que nunca viu em nenhuma outra pessoa. Sentiu uma energia como se a conhecesse, como se não pudesse deixá-la ir pois jamais teria outra chance de reencontrá-la. Era a única coisa que vinha em mente naquele momento. Meio atordoado e nervoso como nunca havia estado, ajeitou-se no banco e tentou se controlar retirando os olhos que insistiam em observá-la.
Clarice destravou o alarme do carro e entrou nele com uma outra colega, ligando-o.
Felipe suou frio, piscou os olhos mais vezes que o normal, estava lutando contra seus próprios pensamentos. O que fazer?
A moça saiu no carro passando por ele. O rapaz olhou para a porta onde os colegas haviam entrado, olhou para a rua. Não acreditando no que fazia, ligou o carro e a seguiu.
Após alguns quilômetros pelas ruas, quase perdendo a visão dela pelo trânsito, o rapaz chegou a um bairro nobre da cidade. A garota acionou o botão para abrir o portão automático de uma enorme mansão e entrou com o automóvel.
Felipe se sentindo nervoso, permaneceu dentro do carro olhando fixamente para a residência sem saber bem o que o fez indo até ali. Não queria ir embora, era como se depois de tantos anos finalmente havia encontrado o que tanto procurava.
De repente se assustou com o celular tocando.
-Oi.
-Cara, onde está? Estamos aqui fora.
-Estou chegando... Pensei que iam demorar, fui comprar umas coisas para mim, já chego aí.
-Quanto tempo?
-Uns vinte minutos.
-Tudo isso? Aonde foi cara? Não é uma boa hora para compras...
-Eu sei... Pensei que iam demorar, mas já estou saindo. Não tem nada interessante aqui.
O rapaz desligou o telefone e observou por mais alguns segundos a casa antes de seguir caminho.