-Sabe o que é se sentir a pessoa mais inútil do mundo? Foi exatamente isso que senti naquela hora. E o pior... Eu tive culpa. Ela tinha me dito que não estava bem, mas eu sou burra demais. Na verdade tive culpa desde quando ela nasceu em tudo de desgraça que aconteceu na vida dela. Eu sabia, eu tinha certeza que ela iria sofrer nesse mundo, e mesmo assim, fui inconsequente e engravidei. Sou irresponsável, inútil, repugnante. Eu me desprezo.
Amargurada, a mulher virou mais um gole de pinga.
-Você não tem culpa "Tônia". Como você iria adivinhar? Nem você tem pressão alta... - falou outra bêbada tomando também outro gole.
-Mas ela não se cuidou. Vivia inchada e reclamando de falta de ar, eu escutava ela reclamando, mas eu também não estava nem aí, pensava que era coisa de grávida. Ela não quis mais fazer acompanhamento e eu estava ocupada demais aqui desse mesmo jeito que estou agora. Sabe... Tenho nojo de mim... Eu me odeio! Sou a pessoa mais imunda desse mundo, sempre vivi no buraco, pelo jeito nunca vou sair dele. Nunca tive nada, nunca tive ninguém. Sou ninguém. Minha filha virou uma puta... -Antônia, fez uma pausa e continuou após um baixo arroto - E eu até nisso não me mexi para mudar de vida e evitar essa desgraceira!
A velha começou a chorar copiosamente.
-Chora. Põe suas mágoas para fora, é por isso que estamos aqui! -continuou a outra, quase caindo da cadeira.
Antônia entre uma lágrima e outra com um olhar de rancor e revolta, abaixou a cabeça.
-Naquele dia Eulália, eu tomei nojo não somente de mim. Tive nojo de todo mundo dessa cidade, desse mundo sabe? Deu v*****e de explodir com tudo. Sempre precisei de ajuda e ninguém nunca olhou para mim. Nunca. Eu, naquele frio, desesperada precisando de uma mão e ninguém quis abrir a porta para perguntar o que eu queria... Ninguém. Se antes tinha dúvidas, a partir daquele dia tive a certeza que as pessoas são egoístas e desumanas. A única pessoa que tinha dignidade de verdade era a minha mãe (que Deus a tenha). Ela ajudava até os que a odiavam, não tinha raiva de ninguém, mas quando ela adoeceu a única pessoa que cuidou dela fui eu. Todos os amigos sumiram, todos os colegas desapareceram, todos... Dediquei quase toda a m***a da minha vida por ela, mas ela merecia. Agora o resto... O resto é lixo.
-Eu entendo bem o que você passa. Esse povo nunca deu oportunidade para mudarmos, só nos condenam, humilham, ignoram...
-Ei vocês duas! Falem mais baixo aí, ninguém está a fim de escutar suas lamentações! -reclamou o homem do bar.
As mulheres se calaram e continuaram a beber em silêncio. Antônia olhava fixamente o copo com álcool antes de cada golada, como se cada uma delas representasse uma lamúria de sua vida, uma derrota, um erro, uma culpa.
De repente, um pequeno garotinho de aproximadamente quatro anos com uma roupa encardida e velha apareceu. Era moreno, tinha olhos bem pretos e cabelo castanho liso.
As mulheres se encararam.
-Já comeu algo? - o menino respondeu negativamente - Aquela velha i****a não disse que ia te dar um café da manhã?
-Disse... -respondeu o garotinho com dificuldade ainda aprendendo a falar.
-Está vendo? - disse a mulher retornando o olhar para a amiga - Bando de egoístas. Até para crianças negam ajuda.
O pequeno continuou ali, esperando talvez, que sua avó resolvesse seu problema. A velha respirou fundo contou as últimas moedas que tinha no bolso.
-Acho que não vou poder pagar o próximo drinque! - lastimou ela para amiga - Logo vovó volta para casa.
-Está bem! -respondeu a criança saindo de volta para a rua.
-Pode deixar que eu banco a próxima! -disse a outra.
Antônia deu mais uma golada pensativa.
-Fui uma péssima mãe e estou sendo uma péssima avó. - reconheceu ela -Não sei cuidar nem de mim.
-Mas o molequinho é até bem-educado.
-Posso te confessar uma coisa?
A outra mulher parou de olhar para o copo e voltou-se para a velha.
-Acho que esse menino tem algo muito diferente sabe?! Não sei bem o que é...
-Como assim?
-Quando eu acordo e ele ainda está dormindo, me sinto desanimada, v*****e de morrer como nos dias comuns... Sabe como sei que ele acordou? Quando paro de pensar nessas coisas. É algo muito estranho, não sei explicar isso.
Antônia olhou para a mulher. A outra continuava a observando atentamente.
-Ah deixe... Você nunca vai acreditar em mim.
-Claro que acredito.
-Ele não tem nada nosso... Nada. É uma criança calma, centrada. Parece que entende muito mais que eu, sabe?
Um silêncio se fez por um tempo.
-Eu acho que aconteceu algo muito estranho naquela noite.
Outro silêncio.
-Fora o físico... Não temos nada haver com ele. A cor, os olhos, o cabelo...
-Pode ser do pai.
-O pai é um vagabundo que anda por aí. Deu vinte reais para minha filha e teve r*****o com ela. Não tem nada haver também. Nem se eu quisesse acreditar que na família dele possa existir alguém como o Felipe, não acho isso possível.
-Por que não deixa o garoto com ele?
-Você está louca? O vagabundo é morador de rua, vive aí se metendo em confusão... Não tenho coragem de falar pra ele da existência desse garoto. Preferiria colocá-lo no orfanato primeiro.
-Entendi.
-Sei lá... Acho que se eu tivesse perdido ele e a Isabel, eu já teria terminado com essa vida.
-Não fale uma bobagem dessa Tônia.
-Mas é verdade... Quem me dá força pra seguir, acordar e continuar é esse pequeno aí. Eu preciso apenas de mais forças, sou uma mulher fraca... Quero poder cuidar dele direito, minha filha pediu tanto isso...
A mulher olhou para Antônia por alguns segundos enquanto ela virava seu último copo.