Após o jantar descontraído, as risadas dos adultos ecoavam pela enorme sala de estar, enquanto as pizzas quase acabavam. Mas Adrian e Eleonora estavam quietos, cada um recolhido em um canto ele ainda sentado na poltrona, ela mais afastada no sofá.
A mãe de Adrian, animada, bateu palmas:
— Querido, por que não mostram a Eleonora o novo jardim interno? Reformamos recentemente. É lindo à noite e Eleonora ama flores.
O pai dele completou:
— Isso, Adri! Leve Eleonora pra ver.
Os dois jovens congelaram por um segundo.
— Não precisa — Eleonora apressou-se a dizer, forçando um sorriso. — Eu posso ver amanhã de manhã.
— Ora, besteira! — sorriu a mãe de Adrian. — Vão lá, é rapidinho. Aproveitem que ainda está cedo.
Eleonora olhou para Adrian.
Adrian olhou para Eleonora.
Nenhum dos dois queria.
Nenhum dos dois sabia como recusar.
E, estranhamente… nenhum dos dois queria parecer infantil na frente dos pais.
O jardim interno,alguns minutos depois
A porta de vidro se fechou atrás deles com um clique suave.
O jardim era realmente belo: luzes amareladas pendiam como pequenos vagalumes artificiais, iluminando samambaias, jasmins e pequenas fontes que sussurravam água.
Mas o silêncio entre eles era tão denso que abafava até o som da água.
Adrian colocou as mãos no bolso.
Eleonora, à frente, passou os dedos por uma flor branca, sem olhar para ele.
— Você não precisava me defender — ela disse, quebrando o silêncio, a voz baixa mas firme.
Adrian ergueu o rosto, surpreso.
Ela continuou:
— Meus pais… exageram. Eu sei. Mas eu dou conta. Não preciso que ninguém fale por mim.
Ele respirou fundo.
— Eu sei disso — respondeu. — Mas você ficou desconfortável. Só quis evitar que ficasse pior.
Eleonora soltou uma pequena risada sem humor.
— Você sempre acha que sabe o que é “melhor” pra mim.
A frase vinha carregada de mágoa antiga.
Ele sentiu na hora.
— Eu não disse isso — Adrian rebateu, tenso. — Não estou tentando controlar nada.
Ela virou-se, finalmente encarando-o.
Os olhos azuis reluziam sob as luzes do jardim.
— Adrian, eu não sou mais aquela menina que você podia mandar calar a boca porque estava “falando demais” — ela disse num sussurro afiado. — Nem aquela que largava tudo pra te seguir quando você dizia que queria brincar em outro lugar.
Ele piscou, atingido por algo inesperado.
— Eu nunca mandei você—
— Mandou sim — ela cortou, com voz firme, porém baixa. — Você só não percebeu. Porque era o jeito que você lidava comigo: decidia sozinho, e eu… ia atrás. Até parar de ir.
O silêncio caiu pesado.
Adrian engoliu seco.
Porque, pela primeira vez…
Ele viu aquilo como ela via.
Eleonora desviou o olhar e passou a mão no próprio braço, nervosa.
— Só… não faça isso de novo — murmurou. — Eu consigo me defender. De qualquer pessoa. Até dos meus pais.
Ele deu um passo à frente, devagar.
— Eu sei que consegue.
Ela não respondeu.
O barulho da fonte preencheu o ar entre eles, tenso, elétrico, quase íntimo.
O Adrian de sempre teria cortado a tensão com uma provocação.
Uma farpa.
Uma frase afiada.
Mas agora…
Ele apenas olhou para ela.
Longo demais.
Profundo demais.
E Eleonora, percebendo, desviou o olhar rapidamente as bochechas coradas pela luz suave do jardim.
— Vamos voltar — disse ela, antes que algo escapasse. — Eles devem estar esperando.
E saiu andando, passos rápidos.
Adrian ficou alguns segundos parado, observando a sombra dela se afastar.
Seu peito apertou como se algo dentro dele tivesse entendido algo tarde demais.
Depois, lentamente, seguiu atrás.
Mais tarde, na mesma noite.
A chuva começou como um murmúrio distante… e em poucos minutos virou um tambor brutal contra o telhado da mansão. Os trovões vinham em estampidos fortes, fazendo tremer levemente as janelas.
No quarto de hóspedes, Eleonora estava deitada, os lençóis até o peito, os olhos arregalados para o teto escuro.
Outro trovão explodiu.
Ela fechou os olhos com força, respirou fundo e murmurou consigo mesma:
— Ridículo… isso é ridículo… já tenho dezessete, não sou mais uma criança…
Mas o corpo reagia sozinho. Cada estrondo fazia os ombros dela tensionarem.
Finalmente, sem paciência com o próprio nervosismo, levantou-se. Vestindo apenas um shorts de dormir leve e uma camiseta larga, pegou o celular, colocou os fones e ativou uma playlist qualquer música alta, para abafar o mundo.
Saiu do quarto e desceu as escadas silenciosas rumo à cozinha.
No quarto de Adrian…
Adrian folheava um livro, mas já não estava lendo.
O primeiro trovão não o incomodou.
O segundo fez o pensamento surgir automaticamente:
Eleonora.
Ele lembrou-se de anos atrás, quando ela enfiava a cabeça debaixo do cobertor, segurando a mão dele num aperto desesperado enquanto fingia não estar com medo.
Lembrou também de como ela odiava que alguém percebesse esse medo.
Um terceiro trovão cortou o céu como um rugido.
Adrian fechou o livro e suspirou.
— Só vou checar… por precaução — murmurou para si mesmo, tentando justificar o impulso.
Levantou-se, pegou o celular e saiu do quarto em silêncio, descendo as escadas.
A cozinha
O ambiente estava iluminado apenas pela luz fraca da geladeira aberta.
Eleonora estava ali, sentada na bancada central, uma perna dobrada, a outra pendendo para baixo, copo d’água na mão, os fones no ouvido. O cabelo loiro solto caía em ondas sobre os ombros, a camiseta grande escorregando um pouco por um lado, revelando o ombro delicado.
Ela estava tentando tentando muito, parecer normal.
Mas quando a luz da geladeira iluminava o rosto dela nos momentos entre músicas, Adrian viu claramente:
Os olhos estavam ligeiramente apertados.
Os ombros, tensos demais.
E em cada trovão que ecoava, ela se encolhia quase imperceptivelmente.
Adrian parou na porta, observando.
Ele não ia perguntar.
Não ia tocar no assunto.
Ela odiava parecer vulnerável.
Então apenas entrou devagar, como se não tivesse notado nada.
— Também não consegue dormir? — perguntou com a voz baixa, para não assustá-la.
Eleonora virou-se bruscamente, surpresa, ela não tinha ouvido os passos dele por causa da música.
Ela tirou um lado do fone.
— Adrian? O que você está fazendo aqui?
Ele deu de ombros, indo até o armário e pegando um copo.
— A chuva está forte. Quis pegar uma água.
Ele não olhou diretamente para ela.
E ela percebeu.
Percebeu, e isso a deixou… estranhamente aliviada.
— Ah… eu também — respondeu, tentando manter a voz firme.
Eleonora o observou encher o copo. O trovão mais forte da noite sacudiu a casa, a luz tremeu, e o corpo dela reagiu antes que conseguisse controlar um sobressalto involuntário.
Adrian fingiu estar concentrado na água.
Ela engoliu seco, constrangida, virando o rosto.
Ele deu alguns passos, aproximando-se com calma.
— Quer companhia? — ele perguntou, sem encará-la diretamente, como se oferecesse algo banal.
Mas a delicadeza do tom… traía a intenção real.
Eleonora hesitou.
Muito.
Ela podia dizer não.
Devia dizer não.
Orgulho, teimosia… tudo empurrava para isso.
Mas a janela tremeu com outro trovão e o orgulho dela se dissolveu por um segundo.
— …Pode ficar — respondeu, quase num sussurro.
Adrian se sentou ao lado dela na bancada.
Sem tocar.
Sem olhar diretamente.
Só… ficando ali.
A música ainda tocava em um dos fones.
A chuva caía forte lá fora.
E, pela primeira vez em muito tempo, o silêncio entre eles não parecia hostil.
Parecia… seguro.
Tranquilo.
E quase íntimo.