Max Vladi
Estava no meu quarto, sentado sobre a cama apenas de bermudas moletom, fazia um frio bom, mas mesmo assim permaneci sem camisa, meu quarto estava um pouco solitário, tivemos um janta em família depois de eu ter passado a tarde toda resolvendo coisas pra o lançamento do novo livro, como meu último capitulo foi aprovado, estava decidindo capas entre outras coisas, como alguns brindes e autógrafos para as primeiras cem copias vendidas, essa é a parte que não em meu trabalho, mas tenho que fazer, afinal quero que todos os meus livros sejam perfeitos, seja do modo que foram escritos ao mínimo detalhe em sua capa e folhas.
Pesco meu celular na mesa de cabeceira e abro o aplicativo de mensagem, abrindo a conversa com Murilo, vou relendo algumas mensagens, tem mais provocações que outra coisa, ele me mostrando alguns tecidos para suas peças de roupas, fotos dele perto de algo fofo que ele via na rua, fotos dele com os sobrinhos e até mesmo uma foto dele com sua duas mãe, a mãe biológica e a mãe de Bruno que ele a considera também, compartilhamos cada momento quando não estávamos juntos, seja algo pequeno á uma conquista grande, como quando finalmente sua loja ficou pronta, ele mandou foto arrumando já algumas roupas nas araras, roupas essas que restarão apenas as cinzas.
Saio das mensagens e vou para a sua foto de perfil, ele sorri para a câmera, atrás dele está os livros da biblioteca, eu mesmo tirei essa foto, quando fomos lá mais uma vez para passear e ver os livros. Seus olhos brilhosos numa felicidade fizeram meu peito apertar ao imaginar que tirei esse sorriso bonito dele.
Como posso continuar vivendo sabendo que ele pode nunca mais sorrir para mim assim?
Desligo o celular e o jogo na cama me levantando depressa quando sinto que posso voltar a chorar, fico ao pé da cama encarando o celular jogado sobre o colchão, devo mandar mensagem para ele hoje? Devo mandar agora? Será que ele me responderia? Bufo, indo em direção a poltrona atrás de mim e de frente para a cama, me sento e apoio os cotovelos nas cochas, as duas mãos cobrindo meu rosto e eu curvado para frente. Está sendo difícil decidir o que fazer.
— Ligo ou não? — Penso alto.
Tiro meu rosto de minhas mãos e deito a cabeça no encosto da poltrona, olho para o teto branco e fico ali, apenas parado, absorvendo tudo que aconteceu. Omitir algo e perdi alguém especial.
Devo voltar rastejando o pedindo perdão? Serei eu a dar o primeiro passo? Tem que ser, ele com toda certeza não iria me mandar uma mensagem do nada, ele está magoado, sofrendo, deve estar pensando em como se livrar do Diogo, ou até mesmo com medo dele. Me levanto da poltrona me sentindo em pânico.
— Eles se encontraram? Não pode ser, que isso não tenha acontecido. Se Murilo estiver nesse momento se sentindo apavorado por ter o ex b****a perto dele? Ele sabe que ele está na cidade? Como eu queria que esse cara sumisse dessa terra. Sou capaz de m***r esse desgraçado se ousou aparecer na frente de Murilo.
Escuto o barulho de notificação vindo do meu celular, isso me distrai dos meus pensamentos e vou atrás do aparelho, quando desbloqueio já está no aplicativo de mensagem, então fico em choque quando vejo quem fez meu celular apitar, quase não consigo responder por meus dedos estarem tremendo. Uma pequena mensagem sem sentindo fez meu coração se acelerar em esperança.
Murilo, meu pônei;
731
Fico ali olhando aqueles números aleatórios na mensagem, me perguntando o que pode ser aquilo, será que ele mandou errado? Sem querer? Minhas mãos suam quando vou digitando uma resposta.
Eu;
O que isso significa exatamente?
Murilo, meu pônei;
Que eu quero conversar com você.
Eu;
Ainda está com raiva?
Não resistir em perguntar, sua resposta demora a vir mais do que as outras.
Murilo, meu pônei;
Onde você está?
Eu;
Em casa, na casa dos meus pais.
Me pergunto o que ele quer. Se aquela tristeza e decepção saiu de seus olhos.
Murilo, meu pônei;
Pode me receber agora?
Olhei e reli aquela mensagem mais de dez vezes, olhei no relógio e passa das vinte e três horas da noite.
Eu;
Posso, ficarei no jardim te esperando.
Murilo, meu pônei;
Me passe seu endereço.
Lhe mandei todas as informações necessárias, me tremia inteiro de ansiedade do que ele teria para falar comigo, coloquei uma camisa cinza simples de maga comprida e calcei meus chinelos, iria demorar pelo menos uns quarenta minutos para ele chegar, meu coração martelava em meu peito e minhas mãos suavam, rodei o quarto inteiro, mexi o celular, até mesmo tentei ler um livro, mas parece que as horas não passavam, faltando uns quinze minutos para que ele chegasse eu desci as escadas com cuidado e fui até a porta da entrada, a abrir e vi as luzes do jardim acesa, fui logo no portão e o deixei aberto sem a chave, mande a mensagem com as informações avisando disso também, tinhas várias flores por ali e o cheiro delas chegaram até meu nariz, foi gostoso e me acalmei um pouco, sou um adulto, os dois somos, então iremos conversar como tal.
Olhava incansavelmente para o portão mais a frente, parecia um louco, me virei de costas e tentei me manter firme e não nervoso, quando sinto uma mão em meu ombro esquerdo, então uma dor aguda do lado direito, bem abaixo do meu tórax era como se estivessem arrancando algo de mim. Agora sentia um objeto gelado em contato com minha pele e no lugar onde doía, meio aturdido tentei entender o que se passava ali, olhei para baixo e vi mão estranhas em volta do cabo de uma faca, e a lâmina estava completamente enfiada em minha barriga, senti algo se engasgar em minha garganta, tossi e o sangue jorrou por minha boca, melando minha camisa e pescoço. Estava em choque, a dor começava a ficar insuportável quando a faca foi retirada e começava a sentir o sangue quente escorrendo por minha barriga e ensopando meus shorts, levei as duas mãos ao ferimento e tentei estancar como pude o ferimento, minhas pernas vacilaram e cair de joelhos no chão coberto de grama, vi quando sapatos sociais apareceram em meu campo de visão, o sujeito se abaixou em minha frente e vi seu rosto, os olhos cheios de ódio. Diogo!
— Eu disse que você não sabia do que eu era capaz de fazer para me vingar, depois de ter mentido ele marca para encontrar com você? Que pena que quando ele chegar verá apenas seu corpo sem vida. — As lágrimas queriam descer por pensar em Murilo me vendo nesse estado, ou pior, me vendo morto, eu não podia deixar isso acontecer. Tentei falar, mas apenas saiu mais sangue da minha boca.
— Você nunca vai ter ele, Murilo será para sempre meu, eu serei o ombro que ele vai procurar quando ver com aqueles olhos brilhantes seu corpo sem vida. — Como pode existir alguém doente nesse nível? Como ele pode ser tão maluco ao ponto de m***r alguém para ter uma pessoa para ele? Pessoa essa que ele machucou e abusou psicologicamente, como? Como ele pode vencer dessa forma? Eu irei morrer pelas mãos desse desgraçado maluco? Não posso acreditar que morrerei sem ter o perdão de Murilo, sem saber o que ele tinha para me falar hoje.
— Eu vou te ma-m***r. — A minha voz não passa de um sussurro. Ele se inclina para frente e coloca a mão em concha no ouvido.
— O que falou? Eu não ouvi direito. Escuto apenas sua vida se esvaindo aos poucos de seu corpo. — Ele sorri para mim, um sorriso nojento e diabólico, vejo a loucura em seus olhos e me pergunto como alguém maravilhoso como Murilo teve esse homem em seu caminho. Ele devia ter apenas o melhor, não um louco psicopata. — Tenho que ir, aproveite seus últimos momentos solitários. Tenha uma boa morte.
Ainda tento agarrar suas calças, mas isso apenas faz com que onde fui atingido doa mais e mais, me sinto tonto com a dor, então pressiono a ferida sentindo o sangue quente por entre meus dedos, não ouço mais nada ao meu redor e tenho certeza de que ele foi embora me deixando aqui para morrer, claro que ele deixaria, essa era sua intenção.
Meus olhos estão quase se fechando, sinto que não posso aguentar mais.
— So-co-rro. — Minha voz sai tão baixa que choro, sentindo dor, me sentindo impotente, nem aos menos consigo salvar minha vida, eu sou um m***a. Vou morrer sem ao menos ter o perdão do meu amor, meus soluços saem baixo e sofrido.
Sinto mãos em meus ombros e penso que o louco voltou, mas quando a pessoa se abaixa a minha frente vejo os olhos esverdeados mais lindos desse mundo, ele me olha com aparente estranheza, deve estar se perguntando o porquê de eu estar ali de joelhos no chão.
— Max. — Sua voz, como é bom escutar sua voz, vou ter ao menos isso enquanto morro, vou poder ir estando nos braços dele. Fecho meus olhos e sorrio, quando os abro seus olhos estão arregalados e sua boca vidrada na minha. — O que aconteceu, está melado de sangue? — Apesar das luzes pelo jardim acessas, ainda era um pouco escuro aqui fora, seus olhos me analisaram inteiro e vi quando seu corpo congelou ao notar minhas mãos em minha barriga e toda melada de sangue. — O que? — Seus olhos enchem logo de lágrimas e ele grita enquanto seu choro aumenta. — SOCORRO. POR FAVOR SOCORROOO. Max, Max o que aconteceu, como isso aconteceu.
Tento falar mais acabo tossindo e colocando mais sangue para fora, que cai no meio de nós dois e ele me olha em choque. Desculpe que tenha que ver isso meu amor, com cuidado ele vem para o meu lado e coloca minha cabeça em suas pernas, ele está de joelhos sentado sobre seus calcanhares, seu choro daí sofrido enquanto ele coloca sua mão sobre as minhas que está em cima da ferida.
— Eu es-tou bem. — Falo engasgado e baixinho.
— Não se esforce, por favor. — Ele pede chorando, nesse momento as luzes da casa começam a se acender, parecendo ter um momento de lucidez seus olhos se desviam do meu e ele pega o celular do bolso, começa a falar com alguém do outro lado dando nosso endereço, talvez chamando uma ambulância. Seus olhos focam no meu, as lágrimas descem pelo seu rosto em cascata, me sinto culpado por fazer ele chorar desse jeito. — Fica comigo, por favor, ‘tá’? Não me deixa. Eu vim te dizer que te amo, que não consigo viver sem você, fui muito duro em minhas palavras ao saber a verdade, não poderia ter reagido daquela forma, me perdoa, por favor amor, me perdoa e volta para mim, ok?
— Eu te am-o. — Minhas lágrimas descem, fazendo o mesmo caminho que as suas.
Escutamos um barulho em direção a porta da frente.
— AQUI! POR FAVOR AQUI! — Ele grita e chora copiosamente. Papai e mamãe aparecem por trás de Murilo, eles parecem assustados com os gritos quando vem para perto, saindo de trás das costas do meu amor, viro meu rosto para eles e mamãe chora olhando minhas mãos.
— Meu filho! — Ela chora e se ajoelha ao meu lado.
— O que p***a aconteceu aqui? Quem é você e porque meu filho está assim? — Papai fala apavorado encarando meu amor com ódio. O corpo de Murilo treme e ele me aperta mais.
— Papai, el-e é me-u namo-rado. — Falo, me sentindo cansado, escuto sirenes ao longe, o olhar de papai suaviza e ele se ajoelha ao lado da mamãe, a abraçando enquanto ela desaba num choro sofrido.
— Eu v-ou... — As sirenes soam bem em nossa porta, meu corpo vai ficando leve e minhas pálpebras se fechando, Murilo da umas batidinhas em meu rosto que não surte efeito.
— Amor! Amor! — Ele começa a chorar desesperado. — Não dorme, não fecha os olhos. AMOR!
Seu grito apavorado foi a última coisa que ouvi.