Capítulo 23 – Inimigos de Silêncio
Isis narrando
Fazia três dias desde o baile.
Três dias fingindo sorrisos. Três dias ao lado de Rodrigo, ouvindo promessas vazias sobre casamento, viagens e filhos.
Três dias sorrindo para câmeras, apertando mãos de aliados, sendo chamada de “a nova dama da máfia” — enquanto por dentro, eu morria um pouco mais a cada hora.
Sebastian e eu não trocávamos palavras. m*l trocávamos olhares.
Era como se ele tivesse se tornado o conhecido de outra mulher.
Mas eu sabia.
Ele continuava me vendo. Me protegendo. Sofrendo em silêncio.
E era esse silêncio que me matava.
Foi numa manhã abafada de sexta que tudo mudou.
Rodrigo me chamou para conversar no jardim.
Não era raro ele fazer isso. Fazia parte do show — o noivo atencioso, gentil, apaixonado.
Mas naquela manhã, havia algo diferente no tom de sua voz.
— Vem comigo. Só nós dois. — disse, com um meio sorriso.
Assenti. Fui.
Sentamos em um dos bancos de mármore perto da fonte antiga.
Ele ficou em silêncio por um tempo.
— Você tem sido forte. — disse, por fim.
— Eu sou uma Donatello. — respondi.
Ele sorriu de canto.
— Mas você não é tão boa de fingir quanto acha que é.
Virei o rosto devagar.
— Do que está falando?
— Estou falando do seu olhar cada vez que Sebastian entra na sala. Estou falando da forma como sua respiração muda, como seu corpo endurece quando ele está perto... e, principalmente, da forma como ele evita te olhar.
Fiquei gelada.
— Você está delirando.
Ele riu. Um riso baixo, c***l.
— Não estou. Eu sei. — disse. — Desde o início. Só estava esperando o momento certo.
O mundo parou por um instante.
— O quê?
— Eu sei que vocês dormiram juntos. Sei que tentaram fugir. Sei que seu pai os pegou. E sei o quanto isso te destrói.
Minha garganta travou. As mãos suaram.
— Você... você não sabe o que está dizendo...
Rodrigo tirou um envelope do bolso do paletó. Me entregou.
Dentro, uma foto.
Eu. Sebastian. Na estufa. Antes da tentativa de fuga. Um momento íntimo. Um beijo. Claramente captado de longe, por alguém escondido.
Senti o sangue sair do meu rosto.
— Como você...
— As paredes da mansão Donatello têm olhos, Isis. E eu sou um dos que os comandam.
Eu o encarei.
— Foi você quem enviou as cartas.
Ele assentiu, sem culpa.
— Queria ver até onde vocês iriam. Precisava de provas. Queria derrubar o trono de Wallace. Queria mostrar que nem ele conseguia controlar sua própria filha.
— Você traiu a família.
— Eu apenas revelei a verdade. E guardei para mim. Até agora.
Minha respiração estava acelerada. O coração pulsava nos ouvidos.
— Por que agora?
Rodrigo se inclinou para frente.
— Porque agora, eu sou seu noivo. E porque agora, você depende de mim para que o segredo continue sendo segredo.
Fiquei imóvel.
Então era isso.
Ele queria controle.
— E o que você quer, Rodrigo?
— Quero que continue fingindo. Mas com mais entusiasmo. Sem recusar minha mão em público. Sem desviar o rosto dos beijos. Sem olhar para Sebastian como se ele ainda fosse seu. E que entenda que após o casamento todo o comando será meu, eu sou o rei da máfia e você será apenas uma boa fingida.
— E se eu não obedecer?
Ele sorriu.
— Então essa foto chega ao cartel E, desta vez, Sebastian não escapa com um exílio informal.
[...]
Voltei para o quarto como se estivesse pisando em cacos de vidro.
Tranquei a porta. Arremessei o envelope contra a parede. Sentei no chão.
Chorei.
Mas não foi choro de dor.
Foi choro de ódio.
Rodrigo era o traidor.
Rodrigo era o rato dentro da casa Donatello.
Rodrigo… estava me manipulando.
E por instinto, pensei em Sebastian.
Em como ele me protegeria se soubesse.
Em como ele agiria sem pensar.
Em como isso... o mataria.
Então decidi.
Não ia contar pra ele.
Ainda não.