Entre Taças e Trincheiras

1151 Palavras
Capítulo 22 – Entre Taças e Trincheiras Isis narrando A mansão Mancine era dourada por fora, mas cinza por dentro. Não importava quantos lustres cintilassem nos tetos ou quantas taças de cristal fossem erguidas: aquela casa sempre me pareceu uma jaula luxuosa, uma cova coberta por sedas finas. Naquela noite, eu era o enfeite da cerimônia. A noiva perfeita, a peça de propaganda que uniria duas das famílias mais poderosas da Europa sob um pacto de aliança, sangue e silêncio. Só que ninguém sabia a verdade por trás do brilho. Nem os convidados. Nem os aliados. Nem mesmo o próprio Rodrigo. Meu pai havia deixado claro: aquela noite era para selar a imagem de que tudo estava bem. Que o noivado seguia firme. Que a filha Donatello havia voltado a ser uma Donatello. E, acima de tudo... que Sebastian não era nada. Mas ele estava lá. Como segurança. De preto, discreto, posicionado na entrada do salão como se fosse parte da mobília. Mas meu corpo o sentia. Meus sentidos sabiam onde ele estava, mesmo quando meus olhos se esforçavam para ignorá-lo. — Você está linda. — Rodrigo disse, sorrindo para mim. Ele usava um terno azul-marinho e uma rosa presa à lapela. Me ofereceu o braço, e eu aceitei. Porque não podia dizer não. O salão estava repleto de rostos conhecidos. Capos de famílias secundárias, herdeiros em formação, aliados, informantes e até juízes comprados. Todos vestidos para o baile, todos sorrindo, todos observando. Eu sorri também. Mas meu sorriso era uma trincheira. Quando passamos pelas portas principais, Sebastian desviou o olhar. Mas eu vi — os dedos dele se fecharam em punho ao lado do corpo. Por um segundo. Um reflexo. Depois, voltou à sua pose de sombra obediente. — Vamos brindar à nossa união. — Rodrigo disse, já puxando duas taças da bandeja de um garçom. Peguei a taça com a mão esquerda. A aliança pesava mais do que o ouro que a formava. — Aos nossos destinos. — ele disse. — E às mentiras bem contadas. — pensei. [...] A primeira hora da noite passou em câmera lenta. Fomos cumprimentados por todos os convidados. Recebemos elogios, promessas, conselhos. Ouvi coisas como: — “Vocês são perfeitos juntos.” — “Essa aliança vai selar a paz definitiva.” — “Você tem sorte de ter encontrado um homem como Rodrigo.” Cada frase era um tiro no meu estômago. Rodrigo sorria, agradecia, era cordial. Tão correto que beirava o insuportável. Havia algo em sua postura que me dava náuseas. Talvez porque ele parecia acreditar de verdade naquele papel. Ou talvez porque não fazia ideia de que meu coração estava a poucos metros dali... em um homem que fingia ser apenas segurança. Olhei discretamente para Sebastian durante uma pausa. Ele conversava com um dos seguranças dos Mancine, apontando possíveis rotas de evacuação. Sua voz era baixa. Seus gestos, contidos. Mas seu olhar... perdido. E mesmo assim, em momento algum, me olhou. Ele era bom nisso. Muito melhor do que eu. [...] Mais tarde, fomos chamados ao centro do salão para o discurso. Rodrigo agradeceu às famílias. Citou o nome do meu pai, dos antepassados, da honra. Falou de mim como se eu fosse uma bênção que caiu no colo dele por milagre. Me chamou de “dama de ferro com coração de ouro”. Todos aplaudiram. E eu sorri. Por fora. Quando ele me beijou na bochecha, vi flashes de câmeras. Fotógrafos oficiais, aliados sorrindo, brindes erguidos. Mas minha pele sentiu o frio. E eu quis estar morta. — Fale algo. — ele sussurrou. Subi ao microfone com a garganta seca. Olhei para aquela plateia faminta por estabilidade e poder. Pensei em falar algo sobre amor. Mas não consegui. — Obrigada por estarem aqui esta noite. — disse. — Tenho certeza de que esta união trará grandes frutos... para todos nós. A fala foi calculada. Neutra. Um blefe. Meu pai sorriu de longe. Melissa observava atenta. Íris, de braços cruzados, parecia prestes a explodir. E Sebastian… não se moveu. Mas eu o sentia. Como uma ausência que grita. Na pista de dança, Rodrigo me puxou para a primeira valsa. Coloquei a mão sobre seu ombro. Ele segurou minha cintura. Fomos lentos, cuidadosos, bem coreografados. — Está sendo difícil para você, não é? — ele murmurou. Fiquei em silêncio por um segundo. — O quê? — Fingir. — ele respondeu, sério. — Sei que não sou o que você queria. E, honestamente, acho que você também não é o que eu sonhei. Mas estamos presos nisso. E temos que sobreviver. O encarei por um instante. — Eu não pedi nada disso, Rodrigo. — Eu sei. Nem eu. As palavras foram honestas. Pela primeira vez, vi o homem atrás do herdeiro. E por um momento, desejei que ele fosse um inimigo. Mas ele era apenas mais uma vítima da guerra que nossos pais começaram. — Vai continuar me odiando? — ele perguntou. — Eu não te odeio. — respondi. — Só não consigo te amar. — E ele? Engoli seco. — O que tem ele? Rodrigo deu uma pequena risada, amarga. — Isis… você olha para ele como se o mundo inteiro não existisse. E ele… se recusa a olhar de volta porque se fizer isso, vai m***r alguém. A valsa terminou. A música continuou, mas nós nos afastamos. Ele me soltou com gentileza. — Vamos sobreviver a isso. Juntos. Ou fingindo que sim. Fui ao banheiro e fiquei alguns minutos sozinha. Me encarei no espelho. Meu reflexo me devolveu a imagem de uma mulher que tinha tudo. Mas eu sabia: por dentro, estava em ruínas. Quando voltei ao salão, percebi algo estranho. Sebastian não estava mais no lugar de antes. Meus olhos vasculharam cada canto com disfarce. Até que o vi. Do lado de fora, no jardim, de costas. Saí em silêncio pela porta lateral. Atravessei o corredor em passos leves, como quem foge de si mesma. Quando cheguei até ele, fiquei em silêncio por um tempo. Apenas olhando. Ele sabia que eu estava ali. Mas não se virou. — O vestido é bonito. — ele disse, por fim. — É branco demais. — Talvez pra esconder a sujeira que nos obrigaram a carregar. Apertei os lábios. — Por que não me olha? Ele virou o rosto, lentamente. — Porque se eu olhar... vou esquecer de tudo que prometeram me tirar. As palavras foram uma lâmina. Me aproximei. Ficamos a meio passo de distância. Bastava um gesto. Um toque. — Estou sufocando. — sussurrei. — Eu também. — Eu te amo, Sebastian. Ele fechou os olhos. — Eu sei. O som da porta do salão se abrindo nos fez recuar. Passos se aproximavam. Era Íris. — Vocês têm que voltar. As pessoas estão perguntando. Sebastian se afastou. Engoliu a dor. Voltou ao papel de sombra. E eu… voltei para o baile. Como uma noiva feliz. Como uma mentira bem vestida.
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