Capítulo 21 – A Primeira Mentira
Isis narrando
O silêncio daquela manhã foi diferente.
Não era o silêncio das madrugadas vazias, nem o da mansão nos dias de paz. Era o tipo de silêncio que precede uma tragédia — denso, gelado, tão cortante que parecia preencher todos os cômodos como uma névoa.
Levantei da cama sem despertador. Não dormi. Passei a noite encarando o teto, revezando entre chorar sem som e lembrar, detalhe por detalhe, do que meu pai havia dito.
A partir de hoje, vocês são estranhos.
Vesti o roupão devagar, sentindo o tecido gelado contra a pele quente. Meus olhos estavam inchados, mas não me dei o trabalho de esconder. Se alguém perguntasse, eu diria que era alergia. Ou um m*l-estar qualquer.
Mas ninguém perguntou.
Desci as escadas em passos lentos, como quem descia para a própria execução. Cada degrau pesava mais do que o anterior. E quando cheguei no último, vi.
Sebastian estava ali.
De pé, ao lado da porta da sala de jantar, conversando com Íris em voz baixa. Usava uma camisa escura de linho, mangas dobradas, cabelo preso num coque desleixado. Tinha olheiras profundas, e sua postura... estava mais rígida do que nunca.
Ele me viu.
E, como combinado, não reagiu.
Nenhum gesto.
Nenhuma mudança nos olhos.
Como se eu fosse... qualquer pessoa.
— Bom dia. — falei, baixo.
Íris me lançou um olhar rápido. Sebastian apenas assentiu, frio.
Entrei na sala.
Melissa já estava sentada à mesa, tomando chá e lendo documentos. Não me olhou. Não falou comigo.
Rodrigo ainda não havia chegado.
Sentei em silêncio. Um prato já me aguardava. Pão com manteiga, suco, frutas. Comida demais para quem não tinha fome.
Quando Sebastian entrou e se sentou na outra extremidade da mesa, meu corpo reagiu involuntariamente. Os pelos do braço se arrepiaram. Meu estômago se contorceu.
E mesmo assim, continuei imóvel.
— Rodrigo vem para o almoço. — Melissa anunciou, sem levantar os olhos. — E seu pai quer que você esteja perfeita. Haverá fotos para circular entre os aliados. O “casal feliz” precisa se tornar uma imagem crível.
Ela usou as palavras com frieza cirúrgica.
“Casal feliz.”
Ri, sem som.
Sebastian não demonstrou nada.
— Entendido. — respondi.
[...]
Depois do café, subi para o quarto e encarei meu guarda-roupa como se estivesse diante de uma fila de armas.
Tudo ali gritava “Isis Donatello”: vestidos vermelhos, saltos agressivos, lingerie cara. Mas naquele dia, vesti algo que me anulasse. Um vestido branco simples, de tecido leve. Sem decote. Sem f***a. Um figurino para quem precisa fingir pureza — ou submissão.
Íris apareceu na porta sem bater.
— Bonito. — disse. — Parece uma santa.
— É isso que eles querem, não é?
Ela se aproximou devagar.
— Você está bem?
— Não. Mas estou respirando. Por enquanto.
Íris me entregou uma caixa pequena.
— Sua aliança de noivado. Chegou hoje cedo. Mamãe mandou te entregar. Tem o brasão dos Mancine gravado por dentro.
- É, mamãe, nunca mais me tratou como filha.
- Já não tratava ne minha irmã, mas sempre seremos nós duas. ~ Ela me abraça
- pelo menos você ficou madura, tá mais a cara da família, aceitando tudo isso.
- sobrevivência, minha irmã! ~ ela fala e isso me parte o peito, minha irmã mais nova que já não parece mais tão nova.
Segurei a caixa por um momento. Depois a joguei sobre a penteadeira.
— Você acha que algum dia vou me acostumar a isso?
— Acho que você é uma Donatello. E a gente não se acostuma. A gente sobrevive.
Olhei para ela.
— E você? Vai sobreviver?
Ela sorriu com tristeza.
— Eu? Eu estou especialista nisso.
[...]
O almoço foi um espetáculo grotesco.
Rodrigo chegou com flores, sorrisos e uma nova versão de si mesmo. Estava tentando. Não por mim — mas por ele, por seu nome, por sua sobrevivência.
— Trouxe suas favoritas. — disse, entregando um buquê de lírios.
Peguei, agradeci com um sorriso ensaiado, e coloquei as flores em um vaso que nunca usei.
Sebastian estava sentado à mesa com meu pai, lendo um relatório sobre exportações clandestinas no leste europeu. Conversava como sempre: articulado, sério, eficiente.
Eu o ouvia de longe, e cada frase era uma faca em minha garganta.
— O armazém de Antuérpia precisa de reforço. Um dos navios foi parado com carga incompleta. — ele disse, apontando algo no papel.
— Você cuida disso. — meu pai respondeu.
E pronto. Era como se nada tivesse acontecido.
Como se Sebastian não tivesse quase morrido por mim.
Como se eu não tivesse implorado pela vida dele de joelhos.
Como se tudo fosse só… rotina.
Rodrigo puxou minha cadeira. Sentou ao meu lado. Tocou meu joelho.
Sebastian não olhou.
Meu pai levantou a taça.
— À união das famílias Donatello e Mancine. — brindou.
Todos ergueram as taças.
Incluindo Sebastian.
E eu? Eu engoli a vontade de vomitar e brindei também.
Ao preço do perdão.
Ao teatro da honra.
Ao túmulo onde sepultei meu coração.
[...]
Após o almoço, vieram as fotos.
Fomos ao jardim da ala norte da mansão, onde o sol batia melhor e as flores criavam uma moldura perfeita para o “casal do ano”.
Rodrigo segurava minha cintura. Eu sorria com a boca, mas não com os olhos.
Sebastian estava por perto. Supervisando a segurança. Era parte do teatro.
— Inclina um pouco a cabeça, Isis. Isso. Assim. Agora segure a mão dele. — dizia o fotógrafo da família.
E eu obedecia.
Segurava a mão de Rodrigo enquanto sentia o peso do olhar que não se atrevia a me encarar.
Cada flash era um soco.
Cada clique, uma lembrança do que perdemos.
Em um momento, tropecei no salto. Rodrigo me segurou.
— Está tudo bem?
Assenti, forçando o sorriso.
Mas quando olhei de relance, Sebastian estava parado perto da estufa. Rígido. Imóvel.
E, pela primeira vez, nossos olhos se encontraram.
Por apenas dois segundos.
Foi o suficiente.
Vi o homem que me amava.
O homem que fingia.
O homem que resistia.
E por dentro, agradeci por ele ainda estar ali. Mesmo que o mundo dissesse que não podíamos ser.