Pré-visualização gratuita O rei de coração gelado
Capítulo 1 — O Rei de Coração Gelado
O Reino de Asteria era conhecido por sua grandeza.
Suas muralhas de pedra branca erguiam-se majestosamente sob o céu, protegendo cidades prósperas, campos férteis e um povo que vivia em paz. Mas, apesar da prosperidade, uma sombra pairava sobre todo o reino.
Essa sombra tinha um nome.
Rei Kael.
Sentado em seu trono de obsidiana n***a, Kael observava silenciosamente o salão real. Os nobres discutiam assuntos do reino, generais apresentavam relatórios e conselheiros pediam sua opinião.
Porém, o rei permanecia em silêncio.
Como sempre.
Os longos cabelos negros caíam sobre seus ombros, contrastando com a única mecha branca que atravessava sua franja. Seus olhos azuis escuros eram frios e profundos, incapazes de revelar qualquer emoção.
— Majestade, os comerciantes do sul solicitam uma redução nos impostos — disse um dos ministros, nervoso.
Kael ergueu o olhar.
— n****o.
Apenas uma palavra.
Curta. Fria. Definitiva.
Ninguém ousou contestá-lo.
Há muito tempo, o rei deixara de demonstrar sentimentos. Não sorria. Não se irritava. Não ria. Apenas governava.
Quando a reunião finalmente terminou, todos deixaram o salão rapidamente.
Todos, exceto Alaric, o conselheiro mais antigo do reino.
— Majestade — disse o velho homem com cautela. — Faz cinco anos.
Kael não respondeu.
— O reino prospera, mas o senhor continua vivendo sozinho.
O rei apertou discretamente os dedos sobre o braço do trono.
— Retire-se, Alaric.
— Ainda acredita que ela voltará?
O silêncio que se seguiu pareceu congelar o ambiente.
Por alguns segundos, Kael não pareceu um rei.
Pareceu apenas um homem ferido.
— Saia.
Alaric suspirou e inclinou a cabeça antes de partir.
Quando ficou sozinho, Kael levantou-se e caminhou pelos longos corredores do castelo.
Seus passos o levaram, como acontecia todas as noites, até uma torre isolada.
Ninguém tinha permissão para entrar naquele lugar.
Ao abrir a porta, uma brisa suave percorreu o aposento.
Tudo permanecia exatamente igual.
As flores secas sobre a mesa.
Os livros cuidadosamente organizados.
O vestido azul pendurado próximo à janela.
Nada havia sido tocado desde aquela noite.
Kael aproximou-se lentamente da janela.
Na pequena mesa de madeira repousava um medalhão de prata.
Ele o segurou com cuidado.
Dentro havia um retrato.
Liora.
Seu sorriso parecia tão vivo quanto no dia em que a conheceu.
Kael fechou os olhos.
A lembrança daquela noite continuava tão clara quanto se tivesse acontecido ontem.
A tempestade.
O vento.
O grito.
E então...
Nada.
Liora simplesmente desaparecera.
Nenhum corpo.
Nenhuma pista.
Nenhuma explicação.
Durante anos, Kael enviou soldados, magos, caçadores e espiões pelos quatro cantos do mundo.
Ninguém a encontrou.
Ainda assim, ele nunca desistiu completamente.
Porque, no fundo de seu coração, algo lhe dizia que Liora ainda existia.
De repente, três batidas apressadas ecoaram na porta.
Kael abriu os olhos.
— Entre.
Um guarda entrou, claramente ofegante.
— Perdoe-me pela interrupção, Majestade, mas... há alguém nos portões do castelo.
— Resolva.
— Já tentamos, Majestade. Mas a visitante se recusa a partir.
Kael franziu levemente a testa.
— Quem é?
O guarda hesitou.
— Uma criança.
Pela primeira vez em muitos anos, uma expressão de surpresa cruzou o rosto do rei.
— Uma criança?
— Sim, Majestade. Uma menina. Ela afirma que precisa vê-lo imediatamente.
— E quem a acompanha?
— Ninguém.
O silêncio voltou a preencher o aposento.
Uma criança sozinha diante do castelo real era algo incomum.
Muito incomum.
Kael guardou o medalhão.
— Levem-me até ela.
Sem imaginar, o Rei de Coração Gelado estava prestes a encontrar alguém que mudaria seu destino para sempre.