POV – O VELHO DO RIO (Localização Desconhecida)
O som do Rio Mississippi batendo contra as vigas de madeira do velho galpão abandonado era um metrônomo constante. Eu não precisava de luxo, nem de arranha-céus de vidro. O poder real não se exibe; ele se esconde nas frestas do tempo.
Olhei para as fotografias espalhadas sobre a mesa de carvalho maciço. Lorenzo Rossi. Ele tinha o olhar do avô, mas a arrogância de quem acredita que o mundo pode ser reduzido a plantas baixas e cálculos matemáticos. Ao lado dele, Vittoria Ortega Vitale. Uma força da natureza, como a mãe, mas com uma perigosidade que nem ela mesma compreendia totalmente.
— Eles acham que estão crescendo — murmurei, minha voz saindo como o raspar de pergaminho velho. — Eles acham que recrutar "pares" os tornará imbatíveis. m*l sabem que estão apenas facilitando o meu trabalho.
Eu fui o arquiteto original. Antes de Lorenzo existir, eu era quem desenhava as rotas de fuga nas selvas brasileiras e nos portos de Chicago para os primeiros Rossi e Vitale. Eu vi o nascimento do pacto de sangue. E eu vi quando eles decidiram que eu era "instável demais" para continuar no círculo interno. Tentaram me apagar da história. Tentaram me enterrar. Mas o Rio sempre devolve o que foi jogado nele.
Meu plano era simples, mas devastador. Eu não queria apenas matar os herdeiros. A morte é rápida e misericordiosa. Eu queria que eles vissem o império que construíram desmoronar peça por peça, até que não restasse nada além de cinzas e o arrependimento de terem tentado me esquecer.
— Os Vanchini são apenas marionetes — disse para a escuridão da sala. — Eles servem para sangrar o Conselho, para mantê-los ocupados enquanto eu preparo o palco principal.
O Conselho de 20 era a minha criação indireta. Ao pressioná-los, eu os forcei a se unirem. E ao se unirem, eles criaram um único ponto de falha. Quando os 20 estiverem reunidos, quando todos os "pares" estiverem sob o mesmo teto, eu cortarei a cabeça da serpente. E Chicago voltará às mãos de quem realmente sabe governar pelo medo, não pelo "amor".
POV – LORENZO ROSSI (Base do Conselho)
Eu estava na biblioteca secreta da base, cercado por arquivos que não eram digitais. Eram papéis amarelados, diários de couro que pertenceram ao meu avô. O interrogatório do atirador não saía da minha cabeça. "O Velho do Rio". O nome ecoava nos cantos mais obscuros da minha memória de infância, como um aviso sussurrado por Sebastian em noites de tempestade.
Vittoria entrou, movendo-se com uma graça que escondia a dor do ferimento no ombro. Ela trazia dois copos de uísque.
— Você está procurando por um fantasma, Lorenzo — ela disse, entregando-me o copo.
— Fantasmas não contratam snipers profissionais, Vittoria — respondi, abrindo um mapa datado de 1985. — O Velho do Rio era o homem de confiança dos nossos fundadores. Ele era o estrategista. Mas ele sumiu depois de uma purga interna. Meu avô escreveu sobre ele: "O homem que conhece o caminho da água conhece o caminho do sangue".
— Se ele conhece as nossas fraquezas, ele sabe que a nossa união é o que nos protege agora — Vittoria sentou-se na mesa, observando os documentos. — Por que ele iria querer que completássemos os 20 membros?
— Porque ele é um purista — conclui, sentindo um calafrio. — Ele acredita que o Conselho se tornou "suave". Ele quer provar que a nova geração é fraca. Ele quer nos reunir para nos destruir em um único evento catastrófico. Ele não quer apenas Chicago; ele quer o extermínio da linhagem.
Olhei para o mapa. Havia anotações em vermelho que eu nunca tinha notado antes. Coordenadas que batiam com antigos esconderijos no Brasil e pontos estratégicos em Chicago que a nossa engenharia moderna ignorou.
— Ele está planejando um cerco, Vittoria. Ele vai usar os Vanchini como distração para um ataque de dentro para fora. Ele conhece as passagens secretas desta base que nem eu, como Arquiteto, fui capaz de encontrar. Este lugar foi construído sobre as fundações que ele desenhou.
POV – O VELHO DO RIO
Acendi um charuto, observando o monitor à minha frente. Eu tinha acesso a uma das câmeras de segurança periféricas da base. Eu via os jovens herdeiros se movendo, cheios de confiança. Vi Vinícius e Maya compartilhando um momento de ternura no jardim. Vi Helena e o Moretti trocando segredos.
— Pobres crianças — sorri, a fumaça do charuto obscurecendo minha visão. — Eles acham que o amor é um escudo. O amor é apenas um alvo mais brilhante.
Meu próximo passo já estava em movimento. Eu não atacaria a base diretamente — ainda não. Eu atacaria os pilares externos. Caleb Sterling achava que controlava as marés? Eu ia mostrar a ele quem comandava o fundo do oceano. Julian Vane achava que a lei o protegia? Eu ia mostrar a ele que a justiça é cega, mas a vingança enxerga no escuro.
— Amanhã — murmurei — o primeiro pilar vai rachar. E o Lorenzo vai perceber que, por mais que ele desenhe muros altos, eu já estou dentro de sua casa.
Abri uma gaveta e tirei uma velha medalha de prata com o brasão das três famílias fundadoras. Estava manchada de sangue seco. O meu sangue, do dia em que me expulsaram.
— O Conselho de 20 será o seu funeral, Lorenzo Rossi. E eu serei o único convidado a sorrir diante do seu caixão.
POV – VITTORIA ORTEGA VITALE
A noite avançava e o silêncio na biblioteca era pesado. Lorenzo estava obcecado. Ele analisava cada milímetro dos projetos originais do prédio. Eu podia ver o brilho da inteligência dele lutando contra o medo primordial de ser superado por alguém que veio antes dele.
— Lorenzo, descanse um pouco — pedi, aproximando-me e massageando seus ombros tensos. — Nós temos o Vinícius, temos o Dante, temos a Katerina. Somos uma força que ele nunca enfrentou.
— Ele não precisa nos enfrentar, Vittoria — Lorenzo se virou, e seus olhos estavam escuros de preocupação. — Ele só precisa nos observar. Ele sabe como cada um de nós reage sob pressão. Ele sabe que se ele atingir um de nós, o resto virá correndo. E é aí que ele nos pega.
Lorenzo levantou-se e foi até a janela, olhando para a escuridão do rio que cortava a cidade.
— O Velho do Rio não é apenas um inimigo. Ele é o passado voltando para cobrar uma dívida que não fomos nós que fizemos. Mas somos nós que teremos que pagar.
— Então vamos pagar com o sangue dele — respondi, minha voz fria e decidida. — Se ele quer o Conselho de 20, ele vai ter. Mas ele vai descobrir que a nova geração não é apenas feita de herdeiros. Somos sobreviventes. E nós não temos medo de fantasmas.
Lorenzo me puxou para um abraço apertado. Eu sentia a batida acelerada do coração dele. A vulnerabilidade que ele mostrou após o meu ferimento ainda estava lá, mas agora estava sendo temperada com uma fúria calculada.
— Vamos dobrar a vigilância — Lorenzo ordenou. — Ninguém entra ou sai sem uma varredura completa. E avise ao Arthur: eu quero que ele rastreie qualquer movimentação financeira ligada a propriedades antigas na beira do rio. Se esse homem está aqui, ele está perto da água. Ele sempre esteve.
POV – O VELHO DO RIO
Eu ouvia as ordens dele através da escuta que instalei na biblioteca anos atrás, oculta dentro da própria estrutura de madeira. Lorenzo era previsível em sua busca por ordem.
— Procure na água, Arquiteto — ri baixinho, desligando o monitor. — Procure o quanto quiser. Enquanto você olha para o rio, eu estarei olhando para as suas costas.
O plano estava na fase dois. A discórdia seria semeada. O Conselho de 20 seria preenchido, mas nem todos os pares seriam o que pareciam. Eu tinha meus próprios infiltrados prontos para serem "recrutados". A confiança deles seria a corda com a qual eu os enforcaria.
— A contagem regressiva começou — sussurrei para o retrato dos fundadores que eu mantinha guardado. — O Conselho vai cair. E eu vou ver o brilho nos olhos de cada um deles desaparecer quando perceberem que o Velho do Rio nunca foi embora. Ele estava apenas esperando o momento certo para voltar para casa.
O som do rio Mississippi parecia aumentar, uma sinfonia fúnebre para os herdeiros de Chicago. A guerra não era mais apenas contra os Vanchini. Era uma guerra contra a própria origem. E no tabuleiro do Velho do Rio, o xeque-mate já estava desenhado antes mesmo de o primeiro peão se mover.