CAPÍTULO 27: O Arquiteto das Sombras

1491 Palavras
POV – LORENZO ROSSI Sentado na biblioteca, sob a luz âmbar que fazia as sombras dançarem nos arquivos antigos, eu mantinha minha expressão de preocupação. Eu sabia que estava sendo observado. Eu sentia o peso do olhar eletrônico oculto na madeira entalhada de 1920. — Ele está ouvindo, Vittoria — sussurrei, mas não com a voz, e sim através de um transmissor táctil que vibrava no pulso dela, um código que apenas nós dois conhecíamos. Fisicamente, eu continuei folheando os mapas, fingindo frustração. — Se ele conhece as passagens secretas, estamos vulneráveis aqui dentro — eu disse em voz alta, para que o microfone captasse cada palavra. — Precisamos reforçar o setor leste. É o ponto mais fraco. Era uma mentira. O setor leste era, na verdade, a nossa zona de contenção mais letal. Anos atrás, quando assumi a liderança e comecei a reforma desta base, encontrei as escutas originais. Eu poderia tê-las arrancado, mas um estrategista não destrói os ouvidos do inimigo; ele escolhe o que o inimigo vai ouvir. Eu criei um "fantasma digital". Tudo o que o Velho do Rio via através daquelas câmeras era o que eu permitia que o software de simulação projetasse. Ele via Vinícius e Maya relaxados, via a base "vulnerável", quando, na verdade, cada centímetro estava sendo transformado em uma armadilha de pressão. Vittoria, entendendo o jogo, aproximou-se de mim, encostando a cabeça no meu ombro. Para quem assistia, era um momento de fraqueza e consolo. Para nós, era a confirmação do abate. — Vamos pegá-lo, Lorenzo — ela disse em voz alta, com um tremor fingido na voz. — Só precisamos de tempo. — Tempo é a única coisa que não temos — respondi, fechando o mapa com força cinematográfica. POV – VITTORIA ORTEGA VITALE Saímos da biblioteca e caminhamos pelos corredores. Assim que entramos no elevador — o único lugar que eu tinha certeza de que Lorenzo havia limpado de qualquer interferência externa e isolado com um inibidor de sinal — minha postura mudou. A palidez fingida desapareceu, substituída por um sorriso afiado. — Ele caiu como um patinho, não foi? — perguntei, cruzando os braços. — Ele está viciado na própria arrogância, Vittoria — Lorenzo respondeu, ajustando as abotoaduras. — Ele acha que somos crianças brincando com os brinquedos dele. Ele não imagina que eu mapeei a frequência da escuta dele no primeiro dia em que entrei nesta casa. Eu o deixei lá, como um animal de estimação que acredita ser o dono da casa. — E os outros? — indaguei. — Estão todos avisados. O Conselho de 20 está operando em duas camadas. A camada que o Velho vê: um grupo de jovens ricos e apaixonados tentando se organizar. E a camada real: uma unidade de extermínio coordenando um cerco silencioso ao redor das propriedades dele no Mississippi. O elevador parou no subsolo 4 — a verdadeira central de comando, onde o sinal do Velho não chegava. POV – VINÍCIUS ORTEGA VITALE Lá embaixo, o clima era de prontidão total. Maya estava ao meu lado, mas em vez de jaleco, ela usava o traje tático completo. Ela estava verificando o estoque de toxinas paralisantes que seriam usadas nos drones de invasão. — O Velho acha que eu sou apenas o "cão de guarda" apaixonado — eu disse, rindo enquanto limpava meu rifle de precisão. — Ele viu a simulação da câmera ontem? Aquele momento em que eu "esqueci" de trancar a porta da garagem? — Ele deve ter adorado — Maya respondeu, com um brilho malicioso nos olhos. — Julian e Isabella já preparam os mandados de busca retroativos. No momento em que Lorenzo der o sinal e o Velho se revelar, legalmente ele será apagado da existência antes mesmo de chegar ao tribunal. — Ele subestimou a nova geração — Helena comentou, surgindo das sombras com Dante ao seu lado. — Ele acha que minha obsessão pelo Dante é uma distração. Ele não sabe que usamos o rastreamento que ele fez sobre nós para localizar os servidores de onde ele envia o sinal. Dante sorriu, aquele sorriso que deixava qualquer um desconfortável, menos Helena. — Nós já sabemos onde ele está, Lorenzo. Ele está naquele galpão no setor portuário sul, exatamente como você previu. Ele acha que está escondido, mas nós já temos snipers térmicos apontados para cada saída daquele buraco. POV – LORENZO ROSSI Caminhei até o centro da mesa tática, onde um holograma real — e não a versão falsa que o Velho via — brilhava. — Ele quer nos colher como uma "safra" — eu disse, observando os rostos dos meus aliados. — Ele quer o Conselho de 20 reunido para nos destruir de uma vez. Pois bem, daremos a ele o que ele quer. A Noite de Investidura dos novos membros será a nossa armadilha final. Eu olhei para cada um deles. Vinícius, Maya, Vittoria, Vitor, Katerina, Helena, Dante, Davi, Sloane, Caleb, Aurora, Arthur, Isabella, Julian, Lucas. Estávamos quase completos. Cada par era uma peça de uma máquina de guerra que o Velho não conseguia computar. — Ele acha que nos conhece porque conhece nosso sangue — continuei. — Mas ele não conhece nossa tecnologia, não conhece nossa união e, acima de tudo, ele não conhece o meu ódio por quem tenta tocar no que é meu. Virei-me para a tela que mostrava a transmissão que o Velho estava recebendo naquele exato momento. Na imagem falsa, eu parecia estar dormindo debruçado sobre os mapas, exausto e derrotado. — Aproveite o show, Velho — sussurrei para a tela, sabendo que ele não podia me ouvir, mas saboreando a ironia. — Durma bem acreditando que você venceu. Porque quando você acordar, o mundo que você conhece não existirá mais. POV – O VELHO DO RIO (Galpão no Porto) Eu observava as telas com satisfação. Lorenzo Rossi estava acabado. Eu o via na biblioteca, a cabeça baixa, a imagem da derrota. Vittoria parecia fragilizada pelo ferimento. Os outros estavam distraídos em seus romances e pequenas disputas de ego. — Tão fácil — suspirei, tragando meu charuto. — A arrogância da juventude é o meu melhor soldado. Eu não percebi que o loop de vídeo que eu estava assistindo tinha uma microfalha de 0.001 segundos a cada dez minutos. Eu não percebi que o sinal de áudio que eu captava estava sendo filtrado por um equalizador que removia as frequências subsônicas de comunicação que o Conselho estava usando para se coordenar. — Preparem os homens — ordenei ao meu segundo em comando, um Vanchini que tremia na minha presença. — No dia da Investidura, entraremos pelos túneis que o Lorenzo "esqueceu" de selar. Acabaremos com a linhagem Rossi de uma vez por todas. Eu me sentia no topo do mundo. Eu era o fantasma que finalmente voltaria para a luz como o novo Rei de Chicago. POV – LORENZO ROSSI De volta à biblioteca real, após desligar os inibidores de sinal e voltar para o "palco" que o Velho observava, eu me sentei na poltrona e abri um livro de poesias. Vittoria sentou-se no chão, encostando a cabeça no meu joelho. Para a câmera do Velho, éramos um casal buscando conforto no meio da crise. — Lorenzo... — ela sussurrou tão baixo que nem o microfone mais potente pegaria. — Quando isso acabar, eu quero que você me leve para longe de Chicago por um tempo. — Eu te levarei para onde você quiser, minha Rainha — respondi, passando a mão pelos cabelos dela, mantendo o olhar fixo no livro, mas a mente focada no m******e que eu estava prestes a liberar. O Velho do Rio achava que sabia quem eu era. Ele achava que eu era o herdeiro que herdou o poder. Ele não entendia que eu não herdei o Conselho; eu o reconstruí do zero, peça por peça, para ser indestrutível. Ele achava que o Rio era o seu aliado, mas ele esqueceu que o Rio sempre flui para onde a gravidade manda. E neste momento, a gravidade de Chicago estava sendo controlada por mim. Enquanto ele planejava sua entrada triunfal pelos túneis, meus homens já estavam instalando explosivos de carga direcionada e sistemas de gás neurotóxico em cada milímetro daquela rota. A Investidura não seria o funeral do Conselho. Seria o funeral do passado. — Sinta-se em casa, Velho — pensei, enquanto fechava o livro. — O Arquiteto está esperando por você. E minha casa será o seu túmulo. A noite em Chicago era silenciosa, mas sob as ruas, nos nervos eletrônicos da cidade, o Conselho de 20 pulsava como um coração furioso. Estávamos prontos. A armadilha estava armada. E o Velho do Rio, em sua gloriosa ignorância, estava caminhando direto para a boca do lobo, acreditando ser ele quem carregava a coleira. Lorenzo Rossi não era mais apenas o líder do Conselho. Ele era a tempestade que o Velho nunca viu chegar. E quando o relâmpago atingisse, não sobraria nada além do silêncio absoluto.
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