POV – LORENZO ROSSI
O som foi quase sinfônico. Dez bipes sincronizados ecoaram pela sala de comando da base em Chicago. Um fenômeno raro. Olhei para o meu aparelho sobre a mesa de carvalho; o nome na tela não aceitava "não" como resposta: Tio Sebastián Rossi.
Ao meu redor, vi meus primos e irmãos reagirem da mesma forma. Arthur parou de analisar os gráficos, Aurora largou o tablet de eventos e Isabella interrompeu uma chamada de vídeo jurídica.
— O meu é da mamãe, Beatriz — murmurou Maya, olhando para os irmãos Lucas e Davi.
— O meu também — disse Vitor, trocando um olhar com Helena. — Bianca quer a gente em casa.
— É uma convocação oficial — anunciei, levantando-me. A postura de líder nunca me abandonava. — Festa em família na mansão Duarte Rossi, em Curitiba. Sebastián e Olívia estão exigindo a presença dos dez.
Vittoria e Vinícius, que estavam em um canto revisando os novos protocolos de segurança tática, permaneceram em silêncio. Seus celulares não tocaram. Eles eram os "fantasmas" na engrenagem.
— Vocês não vão nos deixar aqui — Vittoria disse, levantando-se com aquela elegância predatória que fazia meu sangue ferver. — Se somos um Conselho de doze, o Conselho viaja completo. Chicago pode sobreviver sem nós por um fim de semana, mas o seu Tio Sebastián precisa conhecer quem realmente protege os sobrinhos dele.
— Eles não sabem de vocês — adverti, sentindo uma pontada de ansiedade. — Meus pais e tios pensam que ainda somos apenas os "meninos prodígios" dos negócios. Se eu aparecer com a herdeira da Máfia Vitale e o futuro Dom...
— Então será uma surpresa inesquecível, Arquiteto — Vittoria sorriu, guardando a adaga na bota. — Prepare o jato. Vamos para o Brasil.
POV – VITTORIA ORTEGA VITALE
O jato executivo cruzava os céus rumo a Curitiba. O clima lá dentro era de uma tensão silenciosa. Eu observava os dez herdeiros originais. Eles pareciam diferentes agora; longe de Chicago, a responsabilidade do império pesava em seus ombros, mas havia também a sombra do passado.
— Nervosa, Vi? — Vinícius sentou-se ao meu lado, limpando uma mancha invisível em sua jaqueta.
— Eu não fico nervosa, Vinícius. Eu fico atenta — respondi. Olhei para o fundo do avião, onde Maya estava concentrada em um livro de medicina avançada. Meu irmão não parava de olhar para ela, mas mantinha a distância que eu havia ordenado. — Lembre-se, ninguém em Curitiba sabe que você é um soldado. Para eles, somos apenas "parceiros de negócios" do Lorenzo.
— Vai ser difícil fingir que eu não sei quebrar um pescoço em três segundos — ele resmungou.
Olhei para Lorenzo, que estava sentado na poltrona de comando, revisando os detalhes da chegada. Ele era filho de Bianca Rossi, mas o amor de Sebastián por ele era lendário. Ele era o herdeiro do coração daquela família. E eu pretendia ser a dona desse coração.
POV – LORENZO ROSSI (Curitiba - Mansão Duarte Rossi)
O ar de Curitiba era mais fresco, e a Mansão Duarte Rossi cheirava a história e poder consolidado. Quando os três carros blindados pararam em frente à escadaria principal, eu senti o peso da farsa que estávamos prestes a encenar.
As portas da mansão se abriram. Olívia Duarte, a rainha daquele lar, estava impecável ao lado de Sebastián Rossi. Ao lado deles, minha mãe, Bianca, e as tias Beatriz e Sofia, acompanhadas de seus maridos. Era a velha guarda. Os leões que abriram caminho para nós.
— Meus meninos! — Olívia exclamou, abraçando Aurora e Arthur primeiro.
Eu desci do carro, e Sebastián veio ao meu encontro. O abraço dele era forte, de um pai para um filho. — Lorenzo, meu rapaz. Chicago está te deixando mais sério a cada dia.
— O trabalho exige, tio — respondi, tentando manter a calma.
Foi quando Vittoria e Vinícius desceram do último carro. O silêncio caiu sobre o jardim como um manto de gelo. A presença deles era impossível de ignorar. Vittoria exalava uma aura de autoridade que batia de frente com a de Olívia.
— Lorenzo... — Olívia disse, seus olhos de águia escaneando Vittoria de cima a baixo. — Você disse que viriam os dez. Quem são esses jovens magníficos?
Antes que eu pudesse inventar uma desculpa corporativa, Olívia abriu um sorriso astuto. — Oh, entendi. Uma moça tão linda... Lorenzo, você finalmente trouxe sua namorada para casa?
— Não! — respondi rápido demais, a negação saindo quase como um reflexo de defesa. — Vittoria é apenas uma parceira de negócios, tia. Nada mais. É uma aliança estratégica.
Vittoria deu um passo à frente, estendendo a mão para Olívia com uma confiança que fez meus primos prenderem a respiração.
— Muito prazer, Sra. Olívia. Sou Vittoria Ortega Vitale. E o Lorenzo está sendo... técnico, como sempre — ela disse, lançando-me um olhar que prometia perigo. — Por enquanto, ele n**a. Mas eu sou uma mulher de muita paciência e grandes expectativas. Eu espero que, em breve, a resposta dele mude.
Sebastián soltou uma gargalhada que ecoou pelo jardim, enquanto minha mãe, Bianca, trocava olhares curiosos com Beatriz.
— Uma Vitale? — Sebastián perguntou, seus olhos brilhando. — Conheço o nome. Sangue forte. Entrem, todos vocês! A festa está apenas começando.
POV – VINÍCIUS ORTEGA VITALE
A mansão em Curitiba era diferente da nossa em Chicago. Havia uma alma ali, mas eu me sentia um peixe fora d'água. Maya caminhava ao meu lado enquanto entrávamos no grande salão de jantar.
— Se comporte — ela sussurrou, sem olhar para mim. — Minha mãe, Beatriz, percebe tudo. Se ela notar o modo como você me olha, Lorenzo terá que explicar muita coisa.
— Eu não estou olhando de jeito nenhum, Doutora — menti, sentindo a tensão vibrar entre nós. — Só estou garantindo que o perímetro interno da sua família seja seguro.
— Você é impossível — ela sorriu, um sorriso pequeno que quase me fez esquecer que estávamos em uma missão de diplomacia familiar.
POV – LORENZO ROSSI
O jantar foi uma prova de resistência. Arthur falava de ações com Sebastián, Isabella discutia leis com seu pai, Gabriel, e Lucas tentava não falar sobre armas com Fabrício.
Eu estava sentado entre minha mãe e Vittoria. Podia sentir o perfume de sândalo dela competindo com o cheiro do jantar caro.
— Então, Vittoria — minha mãe, Bianca, disse, inclinando-se para frente. — Lorenzo sempre foi muito focado. Ele nunca nos falou de uma parceira tão... presente.
— Ele gosta de manter a ordem, Sra. Bianca — Vittoria respondeu, tomando um gole de vinho tinto. — Mas o mundo lá fora está mudando. O Conselho dos Herdeiros agora é maior do que Curitiba imagina.
Olhei para ela, um aviso silencioso nos olhos. Não fale demais.
Vittoria apenas sorriu e colocou a mão sobre a minha, por baixo da mesa. O toque foi como um choque elétrico. Eu queria afastar, mas meus dedos se fecharam sobre os dela por um breve segundo antes de eu me recompor.
— Curitiba é linda — Vittoria continuou, voltando-se para Olívia. — Mas Chicago tem um ritmo que combina mais com a ambição do seu sobrinho. Nós estamos construindo algo... invencível.
— Eu não duvido — Olívia disse, seus olhos fixos nos de Vittoria. — Mas lembre-se, minha querida: nesta família, a união é o que nos mantém vivos. Se você está no Conselho, você é uma de nós. E nós protegemos os nossos com garras e dentes.
O jantar prosseguiu, mas a tensão era quase palpável. A velha geração sentia que algo havia mudado. Eles viam dez herdeiros, mas sentiam o poder de doze. E enquanto Vittoria me provocava silenciosamente durante toda a noite, eu percebi que Curitiba não era mais o meu porto seguro.
O meu mundo agora era onde quer que Vittoria Vitale estivesse, transformando minha ordem em um caos que eu começava a desejar mais do que a própria paz.