POV – VINÍCIUS ORTEGA VITALE
A chuva de Chicago não era como a de Curitiba; era ácida, fria e parecia carregar o peso da fuligem industrial. Eu estava voltando de uma verificação de perímetro em um dos armazéns da zona portuária que os Vanchini costumavam usar. O Conselho precisava de inteligência limpa, e eu preferia fazer esse tipo de reconhecimento sozinho. A arrogância é um pecado que a máfia pune com a morte, e naquela noite, eu quase paguei o preço.
Eu estava a duas quadras do meu SUV quando o mundo explodiu em estilhaços.
O primeiro tiro de sniper não me atingiu por centímetros, ricocheteando no poste de ferro ao lado da minha cabeça. Joguei-me atrás de uma caçamba de entulho, o instinto assumindo o controle antes mesmo de o som do disparo chegar aos meus ouvidos.
— Emboscada! — rosnei para mim mesmo, sacando minha pistola personalizada.
Eu não estava enfrentando amadores. Eram seis homens, movendo-se com tática militar, fechando o ângulo da rua sem saída. Eles sabiam quem eu era. Sabiam que, se derrubassem o braço armado dos Vitale, o Conselho perderia seu cão de guarda mais feroz.
O tiroteio foi seco e violento. Eu me movia como uma sombra entre as carcaças de carros abandonados. Consegui abater dois deles com tiros precisos, mas a desvantagem numérica era c***l. Senti um impacto violento no meu ombro esquerdo — não a dor imediata, mas o choque que desloca o osso e trava o músculo. Uma bala de grosso calibre.
— Merda... — minha respiração ficou pesada. O sangue quente começou a encharcar minha jaqueta de couro, misturando-se à água gelada da chuva.
Eu estava perdendo muito sangue, e a visão começava a oscilar nas bordas. Recuei para um beco estreito, usando minha última granada de efeito moral para ganhar segundos preciosos. Com a mão direita trêmula, alcancei o rádio tático preso ao meu colete.
— Aqui é o Vinícius... — minha voz saiu mais fraca do que eu gostaria. — Emboscada no setor 4... ferimento por arma de fogo no ombro... múltiplos atacantes eliminados... mas eu... eu não vou conseguir dirigir.
POV – LUCAS DUARTE
Eu estava na sala de monitoramento da base, ajustando os satélites, quando a voz de Vinícius rasgou o silêncio. Meu coração deu um solavanco. No Conselho, somos todos irmãos, mas o Vinícius era o cara que sempre estava lá para segurar a linha de frente.
— Vinícius! Mantenha a linha! — gritei, enquanto meus dedos voavam pelo teclado para triangular a posição dele. — Davi, pegue o carro blindado! Lorenzo, o Vinícius caiu!
A base virou um caos organizado em segundos. Vi Lorenzo correr pelo corredor com uma expressão de fúria assassina que eu nunca tinha visto. Mas minha prioridade era outra. Peguei o telefone e disquei o número que eu sabia que mudaria o destino daquela noite.
— Maya? — eu disse, assim que ela atendeu. — É o Vinícius. Ele sofreu um atentado. Estamos indo buscar o que sobrou dele agora. Prepare a UTI privativa. Ele está perdendo muito sangue.
O silêncio do outro lado da linha durou apenas um segundo, mas pareceu uma eternidade. Então, ouvi a voz dela: firme, fria, a Dra. Lombard assumindo o controle, embora eu pudesse sentir o tremor escondido nela.
— Traga-o para cá, Lucas. Se você deixar ele morrer antes de chegar aqui, eu mato você.
POV – MAYA DUARTE LOMBARD
Minhas mãos não tremiam enquanto eu preparava o campo cirúrgico, mas minha mente era um furacão. Emboscada. Sangue. Ombro. As palavras de Lucas ecoavam como sentenças de morte. Eu já tinha visto centenas de feridos, já tinha costurado soldados em zonas de guerra, mas a ideia de ver Vinícius em uma maca era algo que eu não conseguia processar.
O som dos pneus cantando no asfalto da garagem da base ecoou pelo prédio. Corri para a baia de desembarque junto com dois enfermeiros de confiança que meu tio Sebastián havia contratado.
Quando a porta do SUV blindado se abriu, o cheiro de ferro e pólvora me atingiu. Lorenzo e Davi carregavam Vinícius. Ele estava pálido, a pele oliva agora acinzentada, a jaqueta de couro rasgada e ensopada de um vermelho escuro e viscoso.
— Coloquem-no na maca! Agora! — ordenei, minha voz saindo num tom que nem eu reconhecia.
— Ele perdeu muito sangue, Maya — Lorenzo disse, seus olhos azuis fixos no irmão/aliado. — Ele apagou no caminho.
Eu não respondi. Comecei a cortar a roupa dele, expondo o estrago. O tiro tinha atravessado o ombro, estraçalhando parte da clavícula. Era um milagre ele ainda estar vivo.
— Vinícius, olhe para mim! — gritei, pressionando a gaze sobre o ferimento enquanto as luzes da sala de cirurgia brilhavam sobre nós. — Vinícius! É a Maya. Você não tem permissão para morrer hoje, entendeu? Você me ouviu?
Ele abriu os olhos por um breve segundo. Aquele olhar dourado e selvagem estava turvo pela dor, mas quando ele focou em mim, um pequeno sorriso torto apareceu no canto de sua boca ensanguentada.
— Sabia... que você... viria... — ele sussurrou, antes de desmaiar novamente.
— Levem-no para a cirurgia! — gritei para a equipe.
Passei as seis horas seguintes lutando contra a morte. Cada fragmento de bala que eu retirava, cada vaso sanguíneo que eu cauterizava, era uma prece silenciosa. Eu não era apenas a médica do Conselho naquela noite; eu era uma mulher lutando para manter vivo o único homem que tinha conseguido atravessar minhas defesas.
POV – VITTORIA ORTEGA VITALE
Eu estava parada do lado de fora da sala de cirurgia, minhas mãos fechadas em punhos tão fortes que minhas unhas cortavam as palmas. Lorenzo estava encostado na parede oposta, a mandíbula travada.
— Quem fez isso vai queimar, Lorenzo — eu disse, minha voz baixa, mortal. — Não vai sobrar um Vanchini para contar a história.
— Eu sei — Lorenzo respondeu, olhando para as portas duplas onde Maya lutava pelo seu irmão. — Mas agora, a única coisa que importa é se a Maya vai conseguir trazê-lo de volta.
O Conselho estava todo ali. Arthur, Aurora, Isabella, Benjamin... todos em silêncio, formando uma guarda de honra no corredor. Éramos uma máquina, sim, mas naquela noite, éramos uma família em vigília.
Quando a luz da cirurgia finalmente apagou, Maya saiu. Ela estava exausta, o jaleco manchado, o cabelo desarrumado. Ela olhou para todos nós e, finalmente, seus olhos pararam em Lorenzo.
— Ele está estável — ela disse, a voz falhando pela primeira vez. — A cirurgia foi um sucesso, mas ele teve uma parada cardíaca na mesa. Tivemos que trazê-lo de volta duas vezes. Ele é forte... mas vai precisar de tempo.
Eu vi o alívio percorrer o corredor como uma onda. Maya se encostou na parede, fechando os olhos. Eu me aproximei dela e coloquei a mão em seu ombro.
— Obrigada, Maya. Você salvou o meu irmão.
— Eu fiz o meu trabalho, Vittoria — ela respondeu, mas eu vi a mentira em seus olhos. Ela não tinha feito apenas o trabalho dela. Ela tinha colocado sua alma naquela sala cirúrgica.
POV – MAYA DUARTE LOMBARD (Madrugada)
Todos já tinham ido descansar ou planejar a retaliação. A base estava em um silêncio sepulcral. Eu estava sentada na poltrona ao lado da cama de Vinícius, na UTI privativa. O som rítmico do monitor cardíaco era a única música que importava agora.
Observei o rosto dele, agora um pouco mais corado graças à transfusão. Sem a máscara de guerreiro, ele parecia quase jovem, quase vulnerável. Toquei sua mão, que estava ligada ao soro. A pele dele estava quente.
— Você quase me matou de susto, seu i****a — sussurrei para o quarto vazio. — Você não pode fazer isso. Não depois daquele beijo. Não depois de me fazer acreditar que existe algo mais do que apenas missões e sangue.
Senti um aperto leve nos meus dedos. Olhei para cima e vi que Vinícius estava com os olhos entreabertos, observando-me com uma intensidade que cortou o que restava da minha resistência.
— Eu disse... que não morreria fácil... — ele murmurou, a voz rouca.
— Shh... não fale. Você precisa descansar — disse, levantando-me para verificar os sinais dele, mas ele não soltou minha mão.
— Fica aqui — ele pediu. — Não como médica. Fica aqui comigo, Maya.
Naquele momento, as paredes que eu construí ao redor do meu coração durante anos de estudo e disciplina começaram a desmoronar. Eu não era mais a Dra. Lombard. Eu era apenas uma mulher que quase perdeu o homem que amava antes mesmo de admitir que o amava.
Acomodei-me novamente ao lado dele, sentindo o peso da exaustão e da emoção. A guerra lá fora continuava, o Conselho estava pronto para a destruição, mas ali, naquele pequeno quarto, o tempo tinha parado. E eu sabia que, quando o sol nascesse, nada mais seria igual entre nós.