POV – MAYA DUARTE LOMBARD
O canteiro de obras estava silencioso sob a luz alaranjada do entardecer. Eu havia ficado até mais tarde para conferir a chegada dos novos equipamentos de ressonância magnética que seriam instalados na ala hospitalar. Como médica do clã, eu era responsável por garantir que aquele lugar não fosse apenas uma base, mas um santuário de cura e tecnologia.
Caminhei em direção ao meu carro, distraída com um relatório no tablet, quando o silêncio foi cortado pelo som de pneus cantando. Dois utilitários pretos, sem placas, bloquearam minha saída.
Meu coração disparou. Eu não era uma combatente como o Lucas, eu era a cura.
— Mas o que é isso? — murmurei, recuando.
Quatro homens mascarados desceram, armados. Não eram ladrões comuns; moviam-se com a precisão de mercenários. Eles queriam o trunfo do Conselho. Queriam a médica.
— Venha conosco, Dra. Lombard. Sem barulho e ninguém se machuca — um deles rosnou, avançando.
Eu gritei, mas antes que a mão dele tocasse meu braço, um vulto saltou de trás de uma pilha de vigas de aço.
POV – VINÍCIUS ORTEGA VITALE
Eu estava apenas observando. Tinha prometido à Vittoria que apenas checaria o perímetro da segurança do tal Lucas Duarte. Mas quando vi os mercenários cercando a médica, meu sangue de Vitale ferveu. Meu pai sempre disse: um homem que permite que uma mulher seja tocada à força não merece o ar que respira.
Eu não pensei. Eu agi.
Aterrissei no asfalto com um rolamento perfeito e, antes que o primeiro homem pudesse reagir, acertei um chute na base do seu joelho, ouvindo o estalo satisfatório. Desarmar o segundo foi fácil; eu treinei com Gustavo Ortega desde os cinco anos.
— Fique atrás de mim! — ordenei para a médica, cuja expressão de terror estava sendo substituída por um choque puro.
Os outros dois avançaram. Eu usei o treinamento da Academia de Guarda-Costas. Era uma dança brutal de cotoveladas e desvios. Eu era mais jovem, mais rápido e muito mais furioso. Desferi um soco que nocauteou o terceiro, mas o último mercenário, em um ato de desespero, tentou me atropelar com o carro enquanto recuava.
Eu empurrei Maya para longe do trajeto, mas o paralamas do carro atingiu meu ombro e minha perna, jogando-me contra o chão de cascalho com violência.
POV – MAYA DUARTE LOMBARD
Tudo aconteceu em segundos. O rapaz, que parecia um anjo vingador de jaqueta de couro, tinha acabado com três homens em um piscar de olhos. Quando o carro o atingiu, eu perdi o fôlego.
— Cuidado! — gritei, correndo em sua direção enquanto os criminosos restantes fugiam, temendo a chegada da segurança do Conselho que já devia estar a caminho.
Eu tropecei no cascalho, a adrenalina fazendo minhas pernas tremerem, e acabei caindo exatamente por cima dele. Minhas mãos espalmaram em seu peito sólido, e meu rosto parou a milímetros do dele.
Ele era lindo. Uma beleza bruta, com olhos que brilhavam com uma intensidade selvagem. O impacto da queda, o susto e a proximidade súbita criaram um curto-circuito em meus sentidos. Nossos lábios se tocaram. Não foi um beijo planejado; foi um choque, um selinho acidental que durou um batimento cardíaco longo demais.
Eu me afastei rapidamente, o rosto queimando. — E-Eu sinto muito! Você está ferido!
— Eu já estive pior... — ele resmungou, tentando se levantar, mas soltando um gemido de dor ao segurar o ombro.
— Não se mexa! Eu sou médica — eu disse, recuperando meu instinto profissional. — Você salvou minha vida. Deixe-me cuidar de você.
POV – LORENZO ROSSI
Cheguei ao local com Lucas e cinco seguranças em menos de três minutos após o alarme de Maya ser acionado. Meu sangue gelou ao ver os homens caídos no chão e Maya ajoelhada ao lado de um rapaz que eu reconheci instantaneamente. Era o irmão da mulher do leilão.
— MAYA! — gritei, correndo até ela. — Você está bem? O que aconteceu?
No mesmo instante, um carro esportivo freou bruscamente e Vittoria saltou de dentro dele, seus olhos de tempestade varrendo o cenário até encontrarem o irmão ferido.
— Vinícius! — ela gritou, correndo para o lado dele, ignorando todos os guardas armados ao redor.
O encontro de olhares entre eu e Vittoria foi como uma explosão. A tensão do leilão estava lá, mas agora havia algo mais: preocupação e uma desconfiança mútua que queimava o ar.
— O que o seu irmão estava fazendo aqui, Vittoria? — perguntei, a voz dura, embora eu estivesse aliviado por Maya estar ilesa.
— Ele salvou a sua médica, Rossi! — ela rebateu, ajudando Vinícius a se sentar. — Deveria estar agradecendo em vez de interrogar.
POV – MAYA DUARTE LOMBARD
— Lorenzo, pare! — eu disse, levantando-me. — Ele me protegeu. Lutou contra quatro homens sozinho. Ele está ferido por minha causa.
Olhei para Vittoria e depois para o rapaz, Vinícius. Eu ainda sentia o formigamento nos meus lábios. — Vamos para a nossa mansão. É perto daqui e temos todo o equipamento necessário para tratar o ombro dele. Eu não vou deixar que ele vá embora assim.
Lorenzo hesitou. A possessividade dele em relação ao Conselho era enorme, mas a dívida de gratidão por Maya era maior.
— Tudo bem. Lucas, limpe a área. Vittoria, Vinícius... sigam-nos.
POV – VITTORIA ORTEGA VITALE (Na Mansão dos Herdeiros)
A mansão onde os dez herdeiros viviam era uma fortaleza de luxo e sofisticação. Mas o que me impressionou foi a organização. Enquanto Maya levava Vinícius para uma sala médica equipada com tecnologia de ponta, Lorenzo me guiava pela sala de estar, seus olhos nunca saindo de mim.
— Vocês têm uma empresa de segurança? — Lorenzo perguntou, cruzando os braços. Ele ainda não sabia da máfia, mas estava ligando os pontos sobre a habilidade de Vinícius.
— A maior academia de guarda-costas e segurança privada do país — respondi, omitindo a parte em que treinamos soldados para a guerra. — Meu pai, Enzo Vitale, preza pela proteção acima de tudo. Vinícius apenas seguiu o instinto.
Na sala ao lado, eu via Maya limpando o corte na testa de Vinícius. Havia uma tensão estranha entre eles. Vinícius, que sempre foi um arrogante indomável, estava quieto, observando Maya com uma curiosidade que eu nunca tinha visto.
— Ele é bom — ouvi Lucas Duarte comentar com Lorenzo. — O jeito que ele imobilizou aqueles caras... é técnica de elite. Coisa de quem vive para isso.
Lorenzo se aproximou de mim, reduzindo o espaço entre nós. A proximidade me fazia querer recuar e avançar ao mesmo tempo.
— Por que vocês estão realmente em Chicago, Vittoria? — ele sussurrou. — Primeiro o leilão, agora o resgate da minha irmã/prima... parece conveniente demais.
— Acredite no que quiser, Arquiteto — olhei no fundo dos olhos azuis dele. — Mas se quiséssemos o m*l de vocês, a Dra. Lombard não estaria ali agora fazendo curativos. Estaria em um vôo para fora do país.
POV – VINÍCIUS ORTEGA VITALE
Maya era delicada. O cheiro dela era de baunilha e antisséptico, um contraste estranho que me deixava tonto. Quando ela passou o algodão no meu ombro, nossos olhos se encontraram.
— Por que se arriscou por mim? — ela perguntou, a voz suave. — Você nem me conhece.
— Eu conheço o tipo de homem que tentou te levar — respondi, a voz rouca. — E eu não suporto o tipo. Além disso... — dei um sorriso de canto, lembrando do esbarrão nos lábios — ...acho que recebi um adiantamento pelo serviço.
Maya ficou vermelha instantaneamente, desviando o olhar para o curativo. — Aquilo foi um acidente.
— Foi o melhor acidente da minha semana, Doutora.
POV – LORENZO ROSSI
Eu observava a interação entre eles e o modo como Vittoria se portava em minha casa. Ela não parecia uma convidada; parecia uma conquistadora avaliando o terreno.
— Sua família tem recursos, Vittoria. E nós temos a estrutura — eu disse, quebrando o silêncio. — Talvez o Conselho deva considerar uma parceria com a sua empresa de segurança. O ataque de hoje provou que nossas defesas técnicas têm falhas que a força bruta pode preencher.
Vittoria sorriu, aquele sorriso que me tirava o chão. — Uma parceria, Lorenzo? Ou você só quer me manter por perto para descobrir meus segredos?
— Talvez os dois — confessei, a honestidade me escapando.
Naquele momento, eu só sabia de uma coisa: os Vitale não eram apenas empresários. Havia um poder obscuro neles que me atraía e me repelia. E enquanto olhava para Vittoria e via o modo como Vinícius olhava para Maya, percebi que a arquitetura do Conselho dos Herdeiros acabava de sofrer uma alteração estrutural permanente.
Os Vitale tinham entrado na nossa casa. E eu sentia que, em breve, eles entrariam em nossas vidas de uma forma que nenhum de nós poderia controlar.