Pré-visualização gratuita Capítulo 1
O despertador toca às cinco em ponto.
Damian abre os olhos no primeiro toque. Não tem botão soneca na vida dele. O quarto está escuro, mas a cidade lá fora já pulsa. Ele se senta na cama, passa a mão no rosto e respira fundo.
Mais um dia.
Levanta, dobra o lençol com a mesma precisão que usa para fechar contratos e segue para o banheiro. A água do chuveiro cai gelada, cortando qualquer resquício de sono. Ele não reclama. Gosta da sensação de controle que vem com o desconforto escolhido.
Depois do banho, vai para a academia particular na cobertura da mansão. Esteira, barra, socos no saco de pancadas. Cada movimento é medido, repetido, cronometrado. Sem música, sem distrações. Só ele, o som da própria respiração e o barulho ritmado dos impactos.
Uma hora depois, volta ao quarto. Veste a pele do dia: cueca preta, camisa branca engomada, gravata escura, terno impecável. Sapatos lustrados, relógio caro, cabelo penteado para trás. Quando se olha no espelho, vê o que todos vêem: um Ceo perfeito.
O que ninguém vê é o vazio atrás dos olhos.
Na cozinha, o café já o espera: forte, sem açúcar, temperatura exata. Ele bebe sem pressa, lendo os primeiros relatórios no tablet. A agenda do dia está lotada. Reunião com investidores, videoconferência com a filial da Europa, almoço com um político importante, chamada “social”. Nada é social na vida de Damian Sgriccia.
— Carro às sete, senhor — o segurança informa, à distância respeitosa.
Damian apenas assente. Não desperdiça palavras quando um gesto basta.
O prédio da Sgriccia Corporation domina uma das avenidas mais caras de Nova York. Vidro, aço e espelhos. Ao entrar no lobby, o clima muda. Conversas baixam de volume, passos desaceleram. Todos sabem: ele chegou.
O elevador sobe até o último andar. Assim que as portas se abrem, a equipe da diretoria se ajeita. Assistentes, diretores, secretárias. Ninguém respira alto sem permissão.
— Bom dia, senhor Sgriccia — um coro quase sincronizado.
Damian caminha pelo corredor largo com a pasta na mão e o olhar firme. Nenhum papel fora do lugar. Nada de quadros tortos, plantas murchas, copos esquecidos. Ele repara em tudo.
Thomaz já o espera na porta da sala de reuniões, com o tablet em mãos.
— Relatório da Ásia atualizado, reunião com o conselho confirmada, e o advogado mandou o contrato revisado às seis e quarenta e dois — ele informa, enquanto acompanha Damian até a sala envidraçada.
— Alguma surpresa? — Damian pergunta, sem desacelerar.
— Só o diretor financeiro tentando empurrar um parceiro problemático. Já cortei antes de chegar em você.
Damian solta um “hm” curto. Confia em Thomaz como não confia em mais ninguém. Cresceram juntos. Se Damian é a mente, Thomaz é a extensão lógica dela.
A manhã passa em uma sequência de números, gráficos e decisões que valem muitos zeros. Um investidor tenta sugerir algo que, na visão de Damian, beira a estupidez.
— Você está me pedindo para colocar o meu dinheiro e o meu nome em um buraco prestes a abrir? — pergunta, a voz calma demais.
— Eu só… acho que, com sua influência… — o homem gagueja.
Damian o encara por três segundos longos.
— A única influência que eu uso é para multiplicar lucro, não prejuízo. Refaça essa proposta ou não perca mais o meu tempo.
O investidor baixa a cabeça. Fim de conversa.
Às onze, entre uma reunião e outra, o celular vibra com uma mensagem codificada. Não é coisa de empresa. É de outro mundo, aquele que ele não mostra para ninguém de terno e gravata.
Ele lê, levanta os olhos para Thomaz.
— Temos um problema no Queens.
Thomaz entende sem precisar de detalhes.
— Quer que eu vá?
Damian guarda o celular no bolso interno do paletó.
— Não. Essa, eu resolvo pessoalmente.
O galpão é velho, mas o cheiro de medo é sempre novo.
Homens armados se alinham quando ele entra. Olhares evitam encarar o dele por mais de um segundo. No centro, ajoelhado, está o traidor. Pulso amarrado, rosto machucado, respiração rápida.
— Eu juro que foi um m*l-entendido, senhor Sgriccia — o homem tenta.
Damian anda em volta dele como quem analisa um animal. Sem pressa. Sem raiva aparente.
— Você roubou de mim — ele diz, simples. — Roubou e tentou vender informação para a concorrência. Isso não é m*l-entendido. É escolha.
O homem começa a chorar.
— Eu tenho família… por favor…
Damian se agacha, ficando na mesma altura que ele. A voz é baixa, mas cada palavra pesa.
— É por causa da minha família que eu não tolero traição.
Um sinal com a cabeça. Um dos homens atrás dele entende. O som do tiro ecoa pelo galpão. O corpo cai para o lado. Não há grito, não há cena. Só sangue no chão e mais um problema resolvido.
Thomaz, ao lado, observa sem desviar.
— Está indo longe demais, Damian — comenta, não como crítica, mas como constatação.
Damian limpa um respingo imaginário da manga do terno.
— Eu nunca vou longe demais. Eu vou até onde eu quiser. E você sabe que eu sempre consigo o que quero.
Eles saem do galpão, como se tivessem acabado de fechar um contrato em vez de encerrar uma vida.
De volta ao prédio da empresa, Damian retoma a outra rotina como se nada tivesse acontecido. Reunião com o conselho, teleconferência com Londres, almoço rápido na mesa, sem sabor, só função.
Quando o expediente termina para os funcionários, o andar ainda está aceso. Uma por uma, as luzes dos outros departamentos se apagam. O escritório de Damian continua iluminado, janelas enormes revelando a cidade acesa, cheia de carros, luzes, vidas.
Ele fica em pé diante do vidro, as mãos no bolso. Nova York é bonita vista de cima. Mas ele conhece a sujeira que corre por baixo.
Sobre a mesa, um porta-retrato com uma foto antiga. Ele pega o objeto, observa o sorriso rígido do pai, Robert, a postura elegante de Chiara, sua mãe, o garoto sério no meio: ele mesmo, adolescente, de terno pela primeira vez.
Lembra da cobrança do pai, das metas impostas antes mesmo de saber o que queria ser. Lembra da dureza da mãe, da forma como ela falava da “família” com um brilho que não tinha nada a ver com abraço.
Lembra também de Thomaz, sentado ao lado dele na escola, dividindo lanche, enquanto Damian tinha tudo e, ao mesmo tempo, nada que importasse.
Nenhum irmão. Nenhum amigo… exceto aquele que veio do quarto dos empregados.
Ele coloca o porta-retrato de volta, agora virado para baixo.
A mansão está quieta quando ele chega, já tarde. O motorista para na entrada, seguranças abrem a porta, mas ninguém o espera no hall. Não há voz chamando por ele, risada, som de televisão. Só o eco dos próprios passos.
Larga a pasta na mesa da sala de estar, afrouxa a gravata. Vai até o bar de cristal, serve-se de um uísque generoso. Dá o primeiro gole em pé, olhando para o vazio.
Sobe para o quarto, tira o paletó, abre os botões da camisa. O nó na garganta não é só da gravata. Ele joga o corpo na poltrona perto da janela, encara a escuridão lá fora.
— Poder, dinheiro, medo… — ele fala, girando o líquido âmbar no copo. — E, ainda assim, tudo isso não preenche p***a nenhuma.
A sinceridade da frase o surpreende. Não é o tipo de coisa que ele diria em voz alta. Mas ali, sozinho, não há ninguém para ouvir.
Ele termina a bebida em um só gole.
No dia seguinte, no escritório, o pai aparece sem aviso. Robert entra com o ar de quem ainda se sente dono de tudo, mesmo tendo passado a cadeira ao filho.
— Precisamos marcar uma conversa — diz, após alguns comentários sobre a empresa, como se estivesse aquecendo o assunto.
Damian continua assinando documentos, mas levanta um pouco o olhar.
— Sobre o quê, pai?
— Sobre um acordo importante para o futuro da família — Robert responde, com naturalidade ensaiada.
Damian sente um leve incômodo, mas não deixa transparecer. A palavra “família” na boca dele nunca é simples.
— Quando você quiser, pai — responde, entediado. — Nada que eu não possa controlar.
Ele volta a assinar o papel à sua frente, sem saber que aquele “acordo importante” vai ser a primeira pedra jogada no castelo perfeito que ele acredita ter construído.
E que, pela primeira vez na vida, ele vai descobrir o que é não ter controle de absolutamente nada.