Magrin explicou que eu teria que ir visitar o irmão dele, que estava preso. Para ser mais específica, teria que ter uma visita íntima, da qual seria apenas uma única vez.
Segundo ele, o irmão não gostava de íntima e, quando pedia uma, era difícil agradar ele.
Meus únicos pensamentos eram: “qual a merda do valor?”. Eu seria muito cínica se falasse que fiquei preocupada com o motivo desse homem estar preso.
Aqui no morro tem traficante de monte e, sendo irmão desse aqui, tinha certeza absoluta de que era um traficante também. E eu não era nenhuma puritana para pagar de difícil.
Eu tenho um filho, filho esse que depende de mim.
É claro que jamais deixaria uma oportunidade dessas passar. Poderia ser um velhote preso há 20 anos; ainda assim, dependendo do valor, eu fecharia esse acordo.
— E aí, tu acha que consegue ir no próximo sábado? — Magrin perguntou, me encarando. Se não fosse a Lays sentada ao meu lado, eu com certeza teria saído correndo.
— Sendo bem sincera… eu gostaria de saber o valor, né? Tô bem apertada esse mês. — falei, sem vergonha nenhuma.
Boba eu era antes de virar saco de pancada de homem. Hoje aprendi que a única coisa que eles têm que me agradar é isso: money.
— 5 mil. Limpo. Te passo assim que você sair do presídio.
— Tá p***a! Assim, de graça? Ou eu sou humilde demais, né? Mil já resolveria minha vida, mas não vou reclamar, não. Você pode ter certeza de que sábado eu vou.
— Essa é minha amiga. Falei com você que ela ia topar. Mas é pra você avisar seu irmão pra ter cuidado com ela, hein? Qualquer coisa que acontecer com a Thayna, eu desconto em tu, em?
— Fica esperta, Lays. — Magrin resmungou, dando um beijo nela, seguido de um tapa na b***a.
Eu tinha a impressão de que, a qualquer momento, eles tirariam a roupa e transariam na frente de qualquer pessoa que estivesse por perto, e esse pensamento me fez coçar a garganta para chamar a atenção do casal.
— Já vou indo… — ele arrumou o boné na cabeça e jogou a blusa no ombro. — Qualquer coisa, peço pra minha mina te mandar, mas fica tranquila, a burocracia é toda comigo. Tu só se arruma como a Lays vai te orientar, que eu vou te buscar.
— Tudo bem… obrigada, Lucas. Mesmo não sendo algo honesto, esse dinheiro veio na hora certa. — agradeci, e ele só assentiu com a cabeça e saiu rua afora, cantando rap, como se toda semana encomendasse uma b****a diferente pro irmão dele.
— Thayna do céu! Você acabou de marcar de dar a b****a para o Urso!
— O quê? O Urso? Você tá malucona, Lays?
— Eu juro que não, pô. Mas não te falei antes, pois sabia que você levaria pro pessoal e não iria. Pensa no Thales, tá? O que vocês tiveram no passado foi coisa de passado.
— Legal você só me falar agora que eu aceitei uma íntima com meu ex. O que ele vai pensar de mim? Que eu voltei porque agora ele é dono de uma favela? Que eu engravidei de outro e voltei como uma p**a pra ele? — desabafei, colocando a mão no rosto.
— Vamos combinar que vocês namoraram por um mês, aquilo nem foi namoro. Você tinha quinze anos, medo de perder a virgindade e do seu pai te bater.
— Lays, é claro que eu tinha medo. Ele era mais velho que eu, já estava na vida do crime e era m*l falado. Além do mais, eu nem sabia que ele tinha um irmão.
— Lucas é irmão de consideração. Mas vai dar tudo certo, até mesmo o que não deu no passado. — ela falou, brincando, e eu revirei os olhos, jogando uma almofada nela.
— Eu vou embora, ficar com meu filho e me preparar mentalmente para sábado.
— Que, inclusive, falta apenas três dias…
— Que terror!
(…)
Já em casa, eu banhava o Thales.
No Rio, não tem como não tomar banho para dormir. Nem adulto, nem bebêzinho, principalmente o meu, que é calorento.
— Tem que lavar esse saco, garoto. Não quero que minha futura nora venha reclamar comigo que você é fedorento. Na verdade, eu espero que você seja um cara totalmente diferente daquele que me ajudou a te colocar nesse mundo.
E sim, aquilo era a mais pura verdade, e, enquanto eu colocava o bebê para dormir, eu refletia de novo nisso.
Se meu filho, no futuro, souber respeitar uma mulher como ela merece, saberei que minha criação deu certo, e só assim vou descansar em paz.
Agora, observando o Thales dormindo no meu colo, com a luz da lua batendo em seu rostinho perfeito, meu pensamento voou para um lugar não muito seguro.
Eu sabia que minha relação com o Max foi algo passageiro e rápido. Ele foi minha primeira paixão, e eu não sei que rumo teríamos se tivéssemos ficado juntos.
Mas eu espero, do fundo do meu coração, que essa visita não seja humilhante. Sei que ele sempre me tratou como uma princesa na época, mas, dois anos depois que terminamos, ele virou dono do morro e mudou muito.
A última vez que vi ele foi em um baile, quando eu conheci o pai do Thales. Ele ficou me olhando com cara de cu, mandou um cara dizer pra eu ir embora, e eu, de pirraça, fui mesmo, infelizmente com um traste.
Mas agora, no futuro, espero que ele não guarde rancor de mim. Pra falar a verdade… que ele nem lembre que eu exista.